Por Kevin Yao — Reuters, de Pequim
03/03/2023 05h03 Atualizado há 5 horas
A China está ficando cada vez mais ambiciosa em sua meta de crescimento para 2023, cogitando uma taxa de até 6%. Ao criar essa expectativa, Pequim busca aumentar a confiança dos investidores e consumidores e aproveitar uma promissora recuperação pós-pandemia, segundo fontes envolvidas nas discussões políticas do país.
Quatro dessas fontes disseram que a China provavelmente visará um crescimento de até 6%, enquanto três outras disseram que a meta será algo entre 5% e 5,5%.
Esses números apontam para um aumento do otimismo nos círculos políticos chineses em relação a novembro, quando assessores do governo recomendaram metas mais modestas, de 4,5% a 5,5%.
As recomendações anteriores foram feitas semanas antes de Pequim suspender as mais duras medidas de contenção da covid-19 do mundo. Dados recentes mostraram que a recuperação da economia do choque provocado pela pandemia encontrar-se em um ritmo melhor que o esperado.
A meta de crescimento, que poderá ser uma faixa, será anunciada em 5 de março, no início da reunião legislativa anual da China.
“A meta de crescimento deste ano poderá ser de 5% a 6%”, disse uma das fontes envolvidas nas discussões. “Precisamos obter uma recuperação econômica, aumentar o nível de emprego e a confiança. Estes são os fatores-chave que precisamos levar em consideração.”
Uma das três fontes que defendem uma meta de crescimento mais modesta alertou que “o setor imobiliário ainda está em queda e é difícil preencher a lacuna, uma vez que o comércio exterior deverá afetar o crescimento neste ano”.
Nenhuma das sete fontes ouvidas está envolvida no processo final de tomada de decisões.
O governo chinês também deverá anunciar mais estímulos durante o Congresso Nacional do Povo para amenizar o impacto da fraqueza do mercado imobiliário e a queda na demanda mundial por suas exportações, segundo disseram quatro das fontes.
Para estimular o crescimento, o governo deverá ampliar seu déficit orçamentário para cerca de 3% do PIB neste ano e emitir 4 trilhões de yuans em bônus especiais para bancar os gastos com investimentos, segundo disseram as fontes.
A nova equipe econômica, que deverá ser liderada pelo ex-presidente do Partido Comunista em Xangai, Li Qiang, como o novo premiê da China, está ansiosa para mostrar sua capacidade de entregar um crescimento econômico melhor, para criar mais empregos e aliviar as tensões de financiamento dos governos locais.
A economia da China cresceu 3% em 2022, bem abaixo da meta oficial de 5,5%, como resultado dos efeitos da pandemia de covid-19, das tensões no mercado imobiliário e da desaceleração da demanda global. Excluindo 2020, quando a pandemia começou, esse foi o pior desempenho desde 1976 – último ano da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung que durou dez anos e destruiu a economia.
Foi também o maior fracasso no cumprimento de uma meta de crescimento. Antes disso, a China só não cumpriu por pouco a meta durante a crise financeira asiática do fim da década de 90 e durante uma crise cambial em 2014-2015. A última vez que a China estabeleceu uma faixa de crescimento foi em 2019, de 6% a 6,5%.
Alguns economistas afirmam que as metas de crescimento anuais ambiciosas da China são contraproducentes e que as autoridades deveriam se concentrar em reformas estruturais para melhorar a sustentabilidade de qualquer expansão econômica.
No passado, metas elevadas pressionaram os governos locais a lançar projetos de infraestrutura caros que contribuíram para o endividamento da China de quase 300% do PIB. Três das fontes disseram que a China manterá sua meta de inflação de cerca de 3%.
O consumo e o setor de serviços estão liderando a recuperação da China neste ano, pelo menos até agora. A atividade industrial também se acelerou em fevereiro. Para Iris Pang, economista-chefe do ING para a Grande China, esses dados deram ao governo confiança para estabelecer uma meta de crescimento de 5,5% a 6%.
Fonte: Valor Econômico