Os principais líderes da China, incluindo o presidente Xi Jinping, prometeram tornar as políticas industriais do país uma prioridade econômica em 2024, uma mensagem que deverá desapontar os investidores que esperavam ver uma ênfase nos estímulos econômicos.
Um resumo da Conferência Central de Trabalho Econômico destacou o uso da “inovação tecnológica para guiar a construção de um sistema industrial moderno”. Também defendeu desenvolver “vigorosamente” a economia digital e o setor de inteligência artificial.
A ênfase do Partido Comunista em dar mais importância ao apoio para que as empresas produzam produtos de maior valor, do que às tentativas de estimular os gastos do consumidor, deverá preocupar alguns economistas, que vinham defendendo estímulos mais fortes para impulsionar o crescimento.
A lentidão da demanda interna tem sido um dos maiores obstáculos para a economia chinesa, prejudicada pela crise no setor imobiliário e o fraco mercado de trabalho. Isso também tem causado deflação.
“Não vejo sinais de estímulos em grande escala”, disse Ding Shuang, economista-chefe para a Grande China e norte da Ásia no Standard Chartered, para quem a reunião mostrou que “a autossuficiência tecnológica é mais importante”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/8/q/2UBgDUQCe3gaaBiznqjQ/foto06int-201-china-a17.jpg)
Crise no setor de imóveis residenciais continua a pesar sobre o crescimento — Foto: Qilai Shen/Bloomberg – 9/11/2022
Os EUA impuseram grandes restrições ao acesso da China a chips de última geração, em meio ao aquecimento das tensões geopolíticas entre as maiores economias do mundo, o que torna as inovações locais mais cruciais.
A escolha das palavras, defendendo uma “intensificação de forma [mais] adequada” das medidas fiscais e uma política monetária “prudente”, foi similar à da reunião do Politburo, composto por 24 membros do partido, na semana passada.
Essa reunião também deu ênfase a conseguir “progressos” no crescimento, aumentando as expectativas de que se defina uma meta de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em torno a 5% em 2024. Embora igual à meta deste ano, a marca seria mais difícil de alcançar, porque grande parte do efeito da retomada do consumo após o fim das medidas contra a covid-19 já se exauriu.
“Trata-se mais de tornar as políticas mais eficazes e coordenadas”, acrescentou Ding. Alguns economistas viram a defesa da coordenação das políticas econômicas e das não econômicas como uma instrução para que as autoridades deem mais atenção ao crescimento ao aplicar planos em áreas como segurança e meio ambiente.
O resumo sobre a reunião reconheceu a necessidade de incrementar a confiança na economia, destacando que a “tendência geral de melhoria” está inalterada. Pequim ruma a cumprir a meta de crescimento anual de cerca de 5% em 2023, em grande parte graças ao ressurgimento do consumo após o fim das restrições contra a covid-19. A retomada, porém, foi atrapalhada pela fraca demanda mundial, pelo desemprego recorde entre os jovens e pela persistência da crise imobiliária.
Citando os principais pontos problemáticos na economia, os líderes chineses também prometeram atender às necessidades de financiamento das construtoras de forma razoável, garantir empregos para “grupos-chave” de pessoas e manter uma liquidez razoável e ampla.
Também foram sinalizadas novas medidas adicionais. As autoridades econômicas indicaram a possibilidade de subsídios para as famílias comprarem novos eletrodomésticos, carros e móveis, como forma de estimular o consumo. Houve a vaga promessa de lançar uma “nova rodada de reforma fiscal”. Cortes de impostos foram mencionados no resumo, o que não havia ocorrido em 2022.
As palavras usadas para o setor de habitação permaneceram inalteradas em relação a declarações anteriores, com ênfase na entrega de moradias sociais.
“As medidas parecem bem tradicionais e nada foi muito criativo”, disse Jacqueline Rong, economista-chefe da China no BNP Paribas. “A reação dos investidores a isso pode ser bastante simples, pois seria preciso uma indicação de uma política pró-crescimento muito mais forte que a esperada para desencadear uma resposta muito empolgada.”
O foco na política industrial é importante, acrescentou Rong. “A maior ênfase no apoio à indústria de alta tecnologia está ligada à segurança de alto nível e à reforma do lado da oferta”, disse ela.
Em comparação à Conferência Central de Trabalho Econômico de 2022, houve mais ênfase nos problemas econômicos causados pelo foco no lado da oferta. A China enfrenta uma “demanda interna efetiva insuficiente, excesso de capacidade em certos setores, expectativas fracas e muitos riscos ocultos”, de acordo com o relatório de ontem. “A complexidade, a gravidade e a incerteza do ambiente externo estão aumentando”, acrescenta o documento.
A reunião também defendeu esforços para garantir que as medidas do lado da oferta sejam coordenadas com os esforços para expandir a demanda interna. As relações comerciais com blocos como a União Europeia têm se tornado mais tensas em razão do crescente superávit comercial da indústria chinesa.
A conferência foi realizada em Pequim entre segunda (11) e terça-feira (12). Xi fez um discurso no evento, que contou com a presença dos sete membros do Comitê Permanente do Politburo, segundo a imprensa estatal.
O último dia da conferência coincidiu com a visita de Xi ao Vietnã, marcando a primeira vez que o líder chinês viaja ao exterior durante a conferência anual, de acordo com sua agenda pública.
Fonte: Valor Econômico


