Para Daokui Li, retomada passa por melhora na confiança: “Investidores estão preocupados com a direção da economia” — Foto: Keiny Andrade/Valor
A economia chinesa deverá retomar uma fase de maior crescimento dentro de um ou dois anos. Mas antes disso precisa começar a reverter um quadro de deflação, sintoma do desânimo do consumo local. A avaliação é de David Daokui Li, de 61 anos, um dos conselheiros econômicos do governo chinês e nome respeitado por acadêmicos e por autoridades locais.
Em entrevista ao Valor, além do estado da economia, ele também falou sobre as relações truncadas entre EUA e China e disse que considera a candidata à Presidência Kamala Harris como uma opção mais segura para os interesses chineses. Segundo ele, o temor em relação a Donald Trump é que, se eleito, se cerque de uma equipe ideologizada, anti-China, que dificulte ainda mais as relações entre os países. Trump já deu spoiler sobre o que faria em um novo mandato: taxar em mais de 60% tudo o que for “made in China”.
Professor da Universidade de Tsinghua, Li veio pela primeira vez ao Brasil esta semana e foi o principal palestrante da conferência organizada pelo Conselho Empresarial Brasil-China, em São Paulo, na segunda-feira. Na entrevista, disse que a meta do governo Xi Jinping para o PIB deste ano – alta de cerca de 5% – será alcançada. Pelas projeções do FMI, o país deve avançar 5% este ano. Trata-se de um crescimento menor do que o potencial do país, diz Li. Sua preocupação central é com a fraqueza dos preços. “A economia tem uma variação de preços negativa de 1%. A economia não está indo bem. As pessoas estão preocupadas, as empresas e os empresários estão preocupados”, disse. A seguir os principais trechos da entrevista:
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Valor: Na sua avaliação, qual dos candidatos à Presidência dos EUA tende a adotar, se eleito ou eleita, medidas mais favoráveis ao comércio e às relações com a China?
David Daokui Li: No geral, Kamala representa um cenário mais seguro para as relações entre a China e os EUA. Uma nova Presidência sob o comando de Trump, significa que pode haver alguma possibilidade de um relacionamento muito eficaz. Mas há também o risco de um relacionamento extremamente ruim. Trump é uma escolha arriscada.
Valor: Por que Kamala parece uma escolha mais segura?
Li: Porque, sob o comando de Kamala, acredito que a política atual do presidente Biden continuará, que é competir com a China sob certas regras, competição baseada em regras. Então o relacionamento com a China será administrado.
Valor: No governo Trump, os Estados Unidos impuseram algumas tarifas contra a China, afetando particularmente os veículos elétricos e as baterias de painéis solares. Biden aumentou essas tarifas. O senhor considera que Trump ou Kamala reduzirá essas tarifas?
Li: Não tenho nenhuma ilusão de que os EUA reduzirão suas tarifas [contra produtos e serviços chineses]. Os EUA não reduzirão tarifas. A questão da tarifa é uma questão que já está concluída. Podemos virar a página. Os EUA não aceitarão os carros elétricos da China, os EUA não aceitarão os produtos eletrônicos chineses [chips, semicondutores, produtos que tenham inteligência de IA]. A sociedade e as autoridades americanas estão muito preocupadas. Estão paranóicas com a ideia de que produtos chineses teriam a capacidade de coletar informações [como ferramentas de espionagem para Pequim]. Essa é uma conclusão que já existe. Os EUA continuarão com sua política de tarifas altas contra a China ou vão adotar tarifas ainda mais altas.
Valor: Isso traz problemas para o setor industrial chinês e para a economia chinesa?
Li: Na China, as empresas, as autoridades econômicas, os consumidores, os trabalhadores, todos nós prevemos que os EUA continuarão com sua política de tarifas altas. Entretanto, a questão principal é a tecnologia. Os EUA estão aumentando as restrições ao desenvolvimento tecnológico e de alta tecnologia da China. Os EUA aumentaram suas restrições à China no que diz respeito à exportação de chips de computador e outros itens tecnológicos para a China. Esse é o ponto principal. O principal é se os EUA mobilizarão os países europeus, o Japão e a Coreia do Sul para embargar a China em relação a produtos de alta tecnologia. Essa é a chave. O quadro geral é que os EUA ocupam uma parte da cadeia de suprimentos de alta tecnologia. Os EUA agora estão projetando chips de computador, como a Nvidia [empresa americana de tecnologia]. A Nvidia é uma projetista de chips de computador. Os EUA não produzem chips de computador, não produzem a máquina para produzir chips de computador. Os EUA não produzem os materiais. A China produz certas partes dessas máquinas, desse tipo de coisa. Mas o problema, acredito, é que os EUA adotam uma postura hegemônica, estabelecendo que alguns países, por exemplo, Japão, Coreia, Holanda não podem exportar para a China. Trump continuará fazendo isso. E Kamala também continuará fazendo isso. A questão é que, no caso de Trump, talvez haja espaço para negociação. Podemos negociar, ele é um homem de negócios. Eu acho que com um empresário é mais fácil, na minha opinião, é mais fácil de lidar do que muitos políticos. Mas também há um risco. Ele pode vir a se cercar de pessoas no Conselho de Segurança Nacional que são muito contrárias à China com base na religião, com base na ideologia e ou em outros elementos não econômicos.
Valor: Essa parece ser também a opinião de líderes chineses?
Li: Acho que sim. Acho que sim. Acho que a China agora está fazendo dois planos alternativos. Um é para Kamala. O outro é para Trump. O que a China quer saber sobre Trump é se ele vai dar as cartas, se eleito, ou se será influenciado por seu Gabinete.
Valor: Uma crítica frequente feita à China nos EUA e em outros países ocidentais é que a China tem conduzido sua economia de modo que distorce condições para concorrer com outras nações. Como o senhor vê essas críticas?
Li: A China vem se abrindo gradualmente. Há 20, 30 anos, a China era muito protetora em determinados setores, em termos de, por exemplo, automóveis. Há 20 ou 30 anos, a China tinha um limite máximo de participação acionária em empresas automobilísticas modernas, como a Volkswagen, a BMW, a GM, mas agora a China está trabalhando gradualmente, abrindo-se gradualmente. Portanto, veja a China como uma criança que está crescendo, não culpe a criança por ter tido alguns maus hábitos no passado. Na verdade, acredito que foi anunciado há alguns dias, talvez na semana passada, que a China elevará a participação acionária de todas as empresas, de todas as empresas de manufatura. Esse é um assunto de segurança nacional um pouco sensível que a China está abrindo gradualmente. A China é um jogador de futebol jovem aprendendo, mas que está avançando.
Valor: Considerando a meta que foi estabelecida pelo governo de crescimento do PIB em 2024, em torno de 5%. Essa meta será alcançada este ano?
Li: Em termos do número, sem problema. Não é um número alto, 5%. Não, não é difícil, é fácil. Minha preocupação é o nível de preços. Minha preocupação é se a macroeconomia terá um aumento positivo de preços. A economia tem uma variação de preços negativa de 1%. A economia não está indo bem. As pessoas estão preocupadas, as empresas e os empresários estão preocupados. Essa é a preocupação atual, esse é o problema atual da economia chinesa. A economia chinesa agora está sofrendo uma pressão de redução de preços. Esse é o maior problema. A economia chinesa está abaixo de seu potencial de crescimento do PIB. Quando as economias estão crescendo mais lentamente do que o potencial de crescimento, a economia não está indo bem. É claro que o superaquecimento não é bom.
Valor: Recentemente, foram anuncidas mais de 300 medidas, no contexto da tentativa de recuperação da economia. O senhor acredita no efeito dessas medidas?
Li: A terceira plenária [de líderes do Partido Comunista] anunciou mais de 300 reformas. Porém, mais importante do que essas medidas é a visão geral e a determinação expressas no documento. Autoridades chinesas sabem muito bem que a situação atual não é desejável. A China tem que resolver o problema, reverter a tendência. Na China, temos a expressão de que o desenvolvimento econômico é a missão número um. O crescimento é a missão número um. Esse espírito está voltando.
Valor: Na sua apresentação no encontro do Conselho Empresarial Brasil-China, o senhor disse que em um ou dois anos, a economia chinesa estará novamente em um patamar melhor. Essa retomada passa por que tipo de mudança?
Li: Confiança do consumidor e a confiança do investidor. Muitos investidores, inclusive investidores privados, estão agora preocupados. Eles se preocupam com a direção da economia.
Valor: EUA e China tendem a crescer em momentos alternados ou o senhor vê no futuro próximo ambas numa fase de crescimento?
Li: Deixe-me dizer que, no curto prazo, nos próximos três a cinco anos, a economia chinesa e a economia dos EUA funcionarão em ciclos opostos. Como uma onda, altos e baixos. Hoje, a economia dos EUA está superaquecida e a economia chinesa está muito fria. Mas acredito que, em dois anos, acontecerá o contrário. Em dois ou três anos, em um prazo mais longo, acredito que a economia dos EUA se sairá bem. A economia dos EUA conta com uma grande população, o enorme mercado, os produtos de alta tecnologia e inovação. Todos esses são ingredientes do crescimento econômico de longo prazo. Mas há uma coisa que realmente me preocupa na economia dos EUA, que espero não faça com que a economia dos EUA crie uma nova crise financeira: os EUA não estão controlando muito bem o orçamento federal. O déficit físcal, a dívida nacional é muito alta.
Valor: Num contexto de guerra na Ucrânia, a China tem intensificado relações comerciais com a Rússia. Qual sua avaliação sobre esse movimento?
Li: A China está mantendo boas relações, tanto com a Rússia quanto com a Ucrânia. A China é a grande parceira da Ucrânia. A China é um dos maiores, se não o maior, pelo menos o segundo maior comprador de grãos da Ucrânia. A China é um grande apoiador econômico da Ucrânia. A China também é uma grande parceira da Rússia. Portanto, a China também está tentando intermediar um acordo de paz, ou pelo menos a verdade, um acordo de verdade, um cessar de fogo entre os dois lados. A China trabalhou arduamente em ambos os lados. A China espera sinceramente que os dois lados possam chegar a algum tipo de acordo de cessar-fogo. E devo lembrar que a China compartilha com a Rússia a fronteira mais longa do que qualquer outro país. Cerca de 300 mil quilômetros. Temos que ser amigos da Rússia. Não temos escolha, temos que fazer, temos que manter boas relações com a Rússia. Imagine se a Rússia entrar em um caos. Se a Rússia tiver um líder que seja contra a China? Seria um desastre para a China.
Valor: A crescente influência econômica da China alimenta críticas – sobretudo nos EUA – devido à leitura de que um país onde não há democracia e que é alvo de questionamentos sobre direitos humanos esteja usando sua influência global para difundir seus valores.
Li: Esse é o mais importante e o maior mal-entendido sobre a China. É por isso que escrevi este livro, o ‘China’s worldview, Desmystifying China to Prevent Global Conflict’ [visão de mundo da China, desmistificando a China para prevenir conflitos globais, em tradução livre]. Esse é o ponto mais importante desse livro: a China não está exportando sua ideologia. A China não está exportando seus valores culturais. Não. A China não tem a intenção, não tem a capacidade, não tem nenhuma estratégia para fazer isso.
Fonte: Valor Econômico
