A China busca um delicado ato de equilíbrio na diplomacia, ao avançar para melhorar os laços com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, reafirmar a cooperação com a Rússia.
O vice-presidente chinês, Han Zheng, reuniu-se na segunda-feira com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, em Nova York, expressando votos de relacionamentos saudáveis e estáveis, sob o argumento de que o desenvolvimento da China é um ganho e não um risco para os Estados Unidos.
Isto seguiu-se a 12 horas de conversas no sábado e domingo em Malta entre o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, e o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, nas quais concordaram em prosseguir discussões de alto nível nos próximos meses.
Acredita-se que uma reunião de cúpula entre o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o presidente da China, Xi Jinping, esteve na agenda de ambas as reuniões, com a reunião de cúpula de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em novembro, em São Francisco, como um possível local.
Esperava-se que Wang participasse do debate geral que começou na terça-feira na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, e se reunisse com Blinken para discutir uma cúpula nos bastidores da Apec.
Mas Wang viajou para a Rússia, mantendo conversações com o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, na segunda-feira. Wang reafirmou o vínculo entre os dois países, dizendo que Pequim e Moscou deveriam fortalecer a cooperação estratégica diante de “atos unilaterais crescentes, hegemonismo e confronto de bloco”.
Wang se reuniu na terça-feira com Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança Nacional da Rússia.
“Esperamos que negociações bilaterais substantivas entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente chinês, Xi Jinping, ocorram em Pequim em outubro”, disse Patrushev, citado pela agência de notícias russa Tass. Xi convidou Putin para participar do Fórum de Infraestrutura Rota da Seda para Cooperação Internacional no próximo mês.
Pequim parece estar destacando a sua cooperação com Moscou, de olho em Washington, com o objetivo de extrair concessões antes de uma reunião de cúpula com Biden.
A China há muito procura impedir o envolvimento americano em Taiwan, que Pequim considera um “interesse central”, e acabar com as restrições impostas pelos Estados Unidos às exportações de semicondutores. Mas os dois países estão em desacordo direto em ambas as questões, deixando pouco espaço para compromissos.
Washington, por sua vez, espera reabrir o diálogo entre militares para ajudar a evitar confrontos acidentais e dissuadir Pequim de fornecer assistência militar à Rússia para a guerra na Ucrânia.
Até agora, houve pouco movimento no diálogo militar. Uma autoridade dos Estados Unidos disse que as negociações em Malta mostraram “indicações limitadas” do interesse chinês nessa frente.
O maior obstáculo tem sido a questão do ministro da Defesa chinês, Li Shangfu, a quem Washington impôs sanções em 2018. Pequim citou estas sanções quando rejeitou um pedido dos Estados Unidos para uma reunião entre Li e o homólogo americano Lloyd Austin em Cingapura, em junho passado.
Li não aparece em público desde 29 de agosto. Surgiram especulações de que ele está sob investigação por corrupção, e o jornal inglês “Financial Times” informou na quinta-feira que os Estados Unidos concluíram que ele foi destituído de suas funções. Se for verdade, isto poderá proporcionar uma abertura para a retomada do diálogo militar.
Na reunião do próximo mês com Putin, espera-se que Xi afirme a cooperação entre a Rússia e a China, ao mesmo tempo que apela a uma solução política para a guerra na Ucrânia. A esperança é que a defesa da mediação alivie a pressão sobre Pequim por parte de Washington e outros.
Mas uma parceria ampliada com Moscou poderia inflamar ainda mais as tensões com os Estados Unidos. A administração Biden tem pressionado repetidamente Pequim para não fornecer ajuda militar à Rússia, alertando que o fornecimento de armas letais teria consequências graves. Sullivan reiterou estas preocupações na sua reunião com Wang no fim de semana passado.
À medida que se aproximam as eleições presidenciais dos Estados Unidos do próximo ano, a administração Biden tem de estar atenta ao sentimento cada vez mais agressivo em relação a Pequim, especialmente entre os republicanos. O governo de Xi está preocupado com os assuntos internos à medida que a economia esfria. Ambos os países enfrentam limites nas cartas diplomáticas que podem jogar.
Fonte: Valor Econômico
