Por Bloomberg — Pequim
07/03/2023 09h39 Atualizado há um dia
O novo ministro de Relações Exteriores da China alertou que a crescente tensão com os EUA corre o risco de ultrapassar as barreiras de proteção, mostrando que as divisões entre as maiores economias do mundo têm se tornado mais arraigadas.
“Os EUA afirmam que buscam superar a China, mas não buscam o conflito”, disse Qin Gang nesta terça-feira (07), em sua primeira coletiva de imprensa desde que assumiu o cargo no fim do ano passado. “Mas na realidade sua chamada competição visa conter e suprimir a China em todos os aspectos e trancar os dois países em um jogo de soma zero”.
“Se os Estados Unidos não pisarem no freio e continuarem no caminho errado, nenhuma grade de proteção será suficiente para impedir que o trem descarrile e bata, e certamente haverá conflito e confronto”, acrescentou.
A abordagem do governo de Washington em relação à China “é uma aposta imprudente, na qual estão em jogo interesses fundamentais dos dois povos e até mesmo o futuro da humanidade”, acrescentou.
Qin, que anteriormente foi embaixador nos EUA, culpou Washington por uma ampla gama de problemas na geopolítica e na economia global. Ele acusou os EUA de criarem uma crise sobre a questão de Taiwan, criticou o uso de sanções na guerra da Rússia na Ucrânia e disse que os aumentos dos juros do Federal Reserve causaram saídas de capital que pioraram os problemas de dívida em alguns países.
Qin também apontou para a estratégia Indo-Pacífico dos EUA que, segundo ele, tem como objetivo “cercar a China”.
“A estratégia Indo-Pacífico dos EUA, que visa supostamente defender a liberdade e a abertura, manter a segurança e promover a prosperidade na região, é, na verdade, uma tentativa de conspiração para formar blocos exclusivos para provocar confrontos ao planejar uma versão Ásia-Pacífico da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar ocidental]”, afirmou Qin. “Nenhuma Guerra Fria deve ser reacendida e nenhuma crise ao estilo da Ucrânia deve ser repetida na Ásia.”
Os comentários – que coincidem com a sessão legislativa anual do Congresso Nacional do Povo em Pequim – sinalizam que as tensões devem continuar a prejudicar os laços entre as nações.
Embora uma reunião entre os presidentes Joe Biden e Xi Jinping em novembro tenha inicialmente colocado as relações em uma base mais estável, com esperanças de que mais conversas de alto escalão fossem iniciadas em breve, uma crise sobre um suposto balão de espionagem chinês em fevereiro esfriou a reaproximação. O incidente levou o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, a adiar uma viagem planejada à China, sem nova data definida. A China disse que os EUA estavam exagerando em relação a um balão meteorológico que saiu do curso.
Os EUA intensificaram seus esforços nos últimos meses para bloquear o acesso de tecnologia avançada pela China. No ano passado, o conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, disse que os EUA buscavam manter “a maior vantagem possível” sobre os concorrentes em certas tecnologias, como chips de computador avançados, observando que os controles de exportação “podem ser um novo ativo estratégico nos EUA e um kit de ferramentas aliado para impor custos aos adversários e, mesmo com o tempo, degradar suas capacidades no campo de batalha”.
Qin também tocou em outras questões importantes em sua apresentação.
Ucrânia-Rússia
Em comentários que serão analisados em detalhes em Washington, Kiev e outras capitais, Qin elogiou a parceria da China com a Rússia e disse que esses laços podem se tornar cada vez mais importantes se o mundo se tornar mais instável.
“A China e a Rússia encontraram o caminho das relações de grandes países com confiança estratégica e boa vizinhança”, disse Qin.
Qin também enfatizou que Taiwan é uma linha vermelha para a China: “Ninguém deve subestimar a firme determinação, forte vontade e grande capacidade do governo e do povo chinês de salvaguardar sua soberania nacional e integridade territorial”, afirmou.
Em seguida, o ministro de Relações Exteriores comparou as ações dos EUA em relação a Taiwan com a guerra da Rússia na Ucrânia.
“Por que os EUA falam sobre respeitar a soberania e a integridade territorial na Ucrânia, enquanto desrespeitam a soberania da China em Taiwan?”, disse Qin.
O ministro chinês brincou sobre o rótulo de “Lobo Guerreiro” que tem sido usado para descrever uma abordagem de política externa mais assertiva sob Xi.
“A verdade é que a diplomacia do Lobo Guerreiro é uma armadilha narrativa”, disse. “Aqueles que cunharam o termo e preparam a armadilha sabem pouco sobre a China e sua diplomacia ou têm uma agenda oculta e desconsideram os fatos.”
(Com a colaboração de Li Liu, Colum Murphy, James Mayger e Tom Hancock)
Fonte: Valor Econômico

