Por Victor Rezende e Gabriel Roca — De São Paulo
07/03/2023 05h02 Atualizado há 21 minutos
Os sinais de enfraquecimento da atividade econômica têm se acumulado, estimulando uma intensificação das discussões, entre os participantes do mercado, sobre quando o Banco Central (BC) terá espaço para começar a reduzir a taxa básica de juros. As crescentes preocupações com a saúde do mercado de crédito têm se somado a esse ambiente, o que já se reflete no comportamento dos juros futuros, que embutem nos preços alguma chance de início dos cortes na Selic em maio.
A contração de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre de 2022 dá indicações mais claras de uma desaceleração da economia brasileira, que deve se cristalizar neste ano, segundo analistas. E, no momento em que as preocupações em torno do crédito têm aumentado entre os agentes financeiros, a percepção de que a Selic pode começar a ser reduzida mais cedo do que o esperado começa a ganhar algum fôlego. Há, porém, visões bastante contrastantes no mercado. Ao mesmo tempo em que a curva de juros aponta alguma possibilidade de redução da Selic já em maio, o Boletim Focus mostra uma visão mais conservadora, com as quedas do juro básico tendo início somente em novembro. Além disso, a renovada incerteza em relação ao cenário econômico tem mantido as taxas de longo prazo ainda pressionadas, bem acima dos 13%.
No pregão de ontem, a taxa do contrato DI para janeiro de 2024 caiu de 13,38% (fechamento de sexta-feira) para 13,275%. No início de fevereiro, essa taxa estava em 13,535% e, no fim do ano passado, chegou a operar em nível superior a 14%. A queda mais recente dos juros de curto prazo guarda relação, na avaliação de analistas, com a sensação de uma economia mais enfraquecida e que pode exigir juros mais baixos à frente, diante de uma desaceleração na concessão de crédito.
“O mercado de juros opera uma média de vários cenários. O que, atualmente, tem puxado essa parte curta para baixo é um cenário em que a atividade freia rápido, em que há uma crise de crédito e o Banco Central, assim, precisaria intervir antes do que está projetado no Focus. É uma probabilidade não dominante, mas maior que zero”, diz o economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral.
A Selic está alta “e cumprindo sua função de apertar as condições de crédito”, ou seja, não parece ser um problema no qual o Banco Central deveria intervir no momento, defende o economista. Apesar de não haver preocupações iminentes com uma desaceleração mais aguda da atividade econômica, Sobral acredita que há espaço para cortes de juros neste ano. A Neo Investimentos espera, em seu cenário básico, que a Selic encerre o ano em 12,25%.
A AZ Quest sustenta posições aplicadas em juros de curto prazo – ou seja, aposta na queda das taxas -, como revela André Kitahara, gestor macro da casa. “O que vemos de diferente da média do mercado é o cenário de crescimento, já que esperamos algo perto de zero, até com a possibilidade de ser algo ligeiramente negativo”, afirma. “Isso por si só é uma diferença suficiente para as nossas posições aplicadas e, ainda, vemos alguns agravantes, como a discussão sobre crédito.”
“Talvez o que estejamos vendo no Brasil é o final do ciclo de crédito. As famílias estão muito endividadas e o nível do juro real é extremamente alto. Os efeitos na atividade econômica vão aparecendo com o tempo. Na nossa percepção, devemos ver revisões baixistas nas projeções de crescimento deste ano, o que pode gerar revisões para baixo nas estimativas de juros”, diz Kitahara. Para ele, esse ambiente pode fazer com que, futuramente, um espaço para cortes de juros seja aberto, diante de uma atividade “surpreendentemente fraca”. “É o que justifica as nossas posições doadas [aposta na queda das taxas] na parte mais curta da curva.”
Da mesma forma, a Kinea Investimentos mantém posições aplicadas nos juros intermediários. “Trabalhamos com cenário em que a economia está desacelerando, ao mesmo tempo em que o consumidor está em uma situação patrimonial frágil. Os juros estão extremamente contracionistas, com o consumidor em posição frágil e nós acreditamos que a inflação vai melhorar sua composição nos próximos meses”, o que justifica a aposta na queda das taxas de médio prazo, aponta Roberto Elaiuy, gestor de renda fixa da casa, em vídeo.
Na avaliação do diretor da tesouraria de um grande banco local, com o impulso de crédito “afundando”, a atividade “deve entrar em colapso, aumentando a pressão por um corte de juros em algum momento do ano”. Ele diz permanecer pessimista em relação ao cenário para o crédito e seus impactos para a atividade ao notar que houve um “aperto maciço” nas condições monetárias. Como exemplo, o executivo nota que o juro real brasileiro passou de cerca de -5% para 8% e continua a subir.
“O juro está bastante alto e isso gera uma contração de crédito, que precisa acontecer para cristalizar a queda da inflação que o Banco Central quer observar”, diz Marcelo Ferman, CEO e gestor da Parcitas Investimentos. “Obviamente que existem riscos. Se acontecer do ‘evento Americanas’ e do ambiente de juros altos gerarem uma quebradeira de empresas, o BC teria de atuar e poderia ter que chegar ao ponto de reduzir os juros, mas não estamos nesse ponto”, enfatiza.
“Alguns participantes do mercado acreditam que os doadores de crédito da economia podem ficar mais reticentes de ofertar crédito após o episódio da Americanas, já que isso pode gerar um problema de credibilidade, o que poderia ter impactos macroeconômicas. Isso não está muito claro. Não acredito que a Americanas será o estopim de uma sequência de outros eventos”, diz Ferman.
Para o executivo, o BC precisa seguir na luta para entregar a inflação na meta “e consciente de que existe um custo, que passa pelo arrefecimento da atividade e contração de crédito”. “Não estamos no momento em que podemos dizer que resolvemos o problema da inflação. As empresas vão ter um período de sofrimento pela frente por conta do juro alto e isso faz parte da transmissão da política monetária na economia”, ressalta.
Por outro lado, Ferman nota que o governo não tem gostado da ideia de uma desaceleração econômica, ao mesmo tempo em que permanecem incertezas relevantes no cenário econômico. Não por acaso, a Parcitas mantém posição pequena que ganha com aumento da inclinação da curva de juros, ou seja, aposta em uma diferença maior entre as taxas longas e as de curto prazo. Essa percepção, inclusive, tem mostrado força no mercado e taxas de longo prazo têm se mantido acima de 13%. Ontem, a taxa do DI para janeiro de 2031 ficou a 13,66%.
Fonte: Valor Econômico

