Por Adriana Cotias — De São Paulo
23/10/2023 05h03 Atualizado há 5 horas
Depois dos casos Americanas e Light, que machucaram carteiras de renda fixa conservadoras, cotistas da Empírica têm sentido o gosto amargo de estar num veículo de crédito estruturado e ao mesmo tempo lidar com o emaranhado da cadeia de fundos de investimentos – gestor, administrador e distribuidor. O episódio ocorre num momento em que a regulação flexibilizou as regras para a oferta desses portfólios para o público de varejo, mas algumas nuances sugerem que a pessoa física não está de todo preparada para entrar em modalidades mais complexas. Na hora do “BO”, há uma sensação de desamparo.
Um investidor que comprou cotas do Lotus IPCA tentou resgatar os recursos via plataforma do BTG Pactual aos primeiros sinais de que algo não ia bem, mas teve o pedido cancelado porque dias depois, em 21 de junho, o fundo foi fechado para aplicações e resgates pelo administrador da carteira, o mesmo BTG viria a saber depois. Para votar na cédula enviada pré-assembleia de cotistas “foi uma saga”, diz, até que seu voto fosse validado, “por falhas de sistema”, conforme justificou a instituição, relata.
Esse cotista recebeu duas tranches do resgate que pediu, em setembro e outubro, mas diz não entender por que não foram parcelas iguais, e que tem dificuldade para saber qual o cronograma de pagamentos. “Parece haver um jogo de empurra e não sei qual a condição do fundo hoje.”
Durante a assembleia on-line, em 29 de julho, no chat do encontro um representante do BTG escreveu que a XP, um dos distribuidores do fundo, não enviou carta de apresentação. “Creio que o voto dos cotistas da XP ficou comprometido.” Ao que um investidor respondeu: “Exato. XP operou os clientes”. Nem BTG nem XP quiseram se manifestar.
Um interlocutor a par dos trâmites adotados pela XP diz que a corretora enviou a base de votos para o administrador em 17 de julho e que encheu a caixa de e-mail dos cotistas durante o processo, além de organizar lives com assessores e o gestor.
O Lotus IPCA amarga perda de 8% no ano, após a remarcação do preço de um dos fundos de direitos creditórios (FIDC) em que investia, o Insole Energia Solar, com recebíveis de mutuários de placas fotovoltaicas de uma empresa pernambucana que ficou insolvente. O veículo foi estruturado pela própria gestora.
“O que motivou o fechamento não foi um problema de crédito, mas de liquidez”, diz Leonardo Calixto, fundador e executivo-chefe (CEO) da Empírica. Ele conta que o Lótus IPCA vinha sofrendo resgates desde setembro de 2022, depois de 18 meses de captação líquida positiva. A partir de então, em dez meses, honrou o equivalente a R$ 850 milhões, incluindo o período em que o mercado de crédito espanou com o rombo bilionário nas contas da Americanas. Mas a onda de saques chegou num ponto em que não conseguia vender ativos no secundário sem causar perda aos cotistas. “Daí fomos para a decisão pior e mais difícil de fechar o fundo para resgate.”
O episódio acabou contaminando outro fundo que tinha uma exposição pequena no mesmo ativo, de 0,5%, segundo Calixto, o Empírica Lótus, atrelado ao CDI, que nem chegou a ter cota negativa e tem um histórico de uma década de desempenho positivo. Com a aceleração das saídas, o caixa ficou asfixiado e também teve que ser fechado pelo administrador em 9 de agosto.
Nos dois casos, o plano de ação sugerido foi aprovado nas respectivas assembleias com o pagamento proporcional dos resgates solicitados conforme a entrada de caixa. Enquanto não pagar as parcelas remanescentes, seguirá fechado para novas aplicações e saques.
No Lótus IPCA, que reúne 7,4 mil investidores, 43,05% votaram e, dentro desse universo, 86,99% aprovaram o plano. O modelo de amortização pró-rata proposto teve adesão de 66,46% dos votantes, o que significa que todos os investidores que pediram o saque até a assembleia serão pagos simultaneamente e de forma proporcional ao valor solicitado, de acordo com a liquidez do fundo.
Em comunicado aos cotistas disponível no seu site, a Empírica informou que, considerando-se a cota de 29 de julho, havia R$ 565 milhões em pedidos de saque, o equivalente a 59,24% do patrimônio líquido do fundo. A expectativa é que esse valor seja pago num prazo de dez a 12 meses. O patrimônio atual é de R$ 776,4 milhões. Neste mês, a previsão é pagar R$ 11,6 milhões.
Calixto diz que depois das provisões feitas para o FIDC Insole, que representava 8% da carteira do Lótus IPCA antes do problema, a partir deste mês o fundo já começa a rodar próximo do CDI. No acumulado do ano, a projeção é fechar com desvalorização de 5,8%.
Já no Empírica Lótus FIC FIM, com 3,6 mil investidores, o plano sugerido ganhou aval de 96,94% dos votantes, e a opção de pagamento em ordem cronológica, por 61,39% deles. A programação prevê desembolsos mensais a partir deste mês, cotização no 15º dia útil e liquidação no 17º. “Todos os cotistas que solicitaram resgate num mesmo dia estão na mesma posição na fila, não havendo distinção por horário de solicitação”, escreve a Empírica em carta. Caso não haja disponibilidade de caixa para cobrir o total numa determinada data, os pagamentos são postergados para o mês seguinte. Não haverá pagamento parcial.
Com um patrimônio da ordem de R$ 9 bilhões em 60 fundos, nas interações com investidores que procuraram a Empírica, Calixto diz perceber que, apesar de os fundos serem destinados ao público qualificado – com patrimônio financeiro a partir de R$ 1 milhão -, há um certo desconhecimento sobre os riscos de se investir numa carteira de crédito estruturado. Se a gestão trabalha com títulos de dívida ou cotas de fundos de recebíveis, em algum momento pode ter um caso de inadimplência. “Teve muita gente que comprou o produto inadequado para o perfil dele, alguns nem eram qualificados. Isso está muito conectado com a educação financeira, e cabe ao distribuidor fazer o ‘suitability’ [o enquadramento de risco] correto.”
O diretor de uma plataforma de investimentos, que distribui os dois principais fundos da Empírica, diz que o produto estava sendo direcionado para o público certo, mas, como não há um secundário dinâmico para ativos de crédito estruturado, a marcação a mercado (atualização de preços) é mais deficiente. O retorno não balança até que haja uma deterioração visível. O desenho do produto, com resgate em 121 dias após o pedido do investidor, é adequado para o tipo de investimento que comporta, diz. Mas, para ele, um dos erros da gestão foi de concentração. Outra crítica que faz é que tanto a Empírica quanto o BTG demoraram a fechar os dois fundos, com o gestor achando que conseguiria liquidez para honrar os resgates.
Calixto afirma que a carteira do Lótus IPCA tem outros 28 ativos, que continuam performando dentro do esperado. Ele diz que fechar um fundo é uma iniciativa extrema e que o intuito é proteger os cotistas de uma saída desorganizada que penalizaria os retardatários.
Formalmente, não é papel da gestora conversar com o investidor que vem de plataforma, já que para a Empírica ou para o administrador ele é apenas um número, o relacionamento é com o distribuidor e o assessor de investimentos. Mas a decisão foi esclarecer todas as dúvidas. “Fizemos um trabalho hercúleo para disseminar o máximo de informações”, diz Aquiles Feldman, executivo-chefe de operações (COO).
A gestora voltou a ter captação em veículos destinados ao investidor institucional e profissional – o patrimônio dos fundos não se comunicam, porém, cada um funciona como um condomínio. No ranking de gestão da Anbima, a Empírica aparecia com patrimônio de R$ 5,96 bilhões em setembro, com ingressos líquidos de R$ 156,0 milhões no ano. Em 12 meses, a captação somava R$ 503,8 milhões.
Fonte: Valor Econômico

