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Há pouco mais de um ano, o empresário Cassiano Gomes desembolsou R$ 1 milhão para comprar um terreno de 17 hectares no município do Conde (PB), na região metropolitana de João Pessoa. O local deverá ratificar a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace), entidade que Gomes fundou em 2014, como a dona da maior área de cultivo de cannabis medicinal do país.
O óleo de canabidiol, composto natural também conhecido como CBD, tem reconhecida eficácia em tratamentos contra ansiedade, dor crônica, epilepsia e distúrbios do sono. Mesmo sendo uma organização sem fins lucrativos, a Abrace tem estrutura que lembra a de uma indústria. A associação atua em todos os elos da cadeia, do plantio à comercialização e envio dos medicamentos. A entidade tem 100 funcionários, que atendem cerca de 60 mil pacientes.
“Estamos em fase final para conseguir um alvará especial de funcionamento. Depois, vamos atrás do certificado de boas práticas, que nos tornaria aptos a participar de licitação ou venda direta para o governo. Esse não é nosso objetivo principal, mas como temos essa capacidade de fornecimento, vejo isso como uma forma até de baratear os medicamentos para os nossos associados”, disse Gomes.
O caso da Abrace ajuda a ilustrar uma indústria que está em ebulição no Brasil. Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a regulamentação sobre plantio e comercialização de cannabis medicinal no país, o que atraiu ainda mais holofotes para o trabalho que o terceiro setor tem feito no ramo.
Segundo levantamento da Kaya Mind, startup brasileira especializada em dados e inteligência de mercado sobre o segmento da cannabis, o mercado da maconha medicinal movimentou R$ 970 milhões em 2025, o que representou um crescimento de 14% em relação ao ano anterior. A empresa estima que as vendas no país chegarão a R$ 1,2 bilhão em 2027.
Em 2017, a Abrace tornou-se a primeira organização a conseguir autorização da Justiça brasileira para fazer o cultivo de cannabis medicinal. Há três anos, a associação produzia a espécie em quatro hectares em Campina Grande, no agreste da Paraíba. Dos 17 hectares do terreno em Conde, sete vão ser de plantio.
A nova área também abrigará o laboratório, que hoje funciona no prédio administrativo da entidade, em João Pessoa, e representa um custo com aluguel de R$ 40 mil mensais. Gomes afirma que o projeto para o novo terreno, que abrigará laboratório e cultivo, custará R$ 8 milhões.
A milhares de quilômetros de João Pessoa, em Paty dos Alferes, no interior do Estado do Rio de Janeiro, a Associação de Apoio à Pesquisa e a Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi) também está aprimorando seus métodos de produção. Fundada em 2014 por Margarete Brito, a associação nasceu pequena, mas o sucesso com o tratamento alternativo obrigaria a Apepi a rever sua estratégia.
“Nossa intenção no início não era fornecer o óleo, sobretudo cobrar por ele. A associação nasce como um coletivo de mães para conseguir acesso ao produto importado. Eu plantava em casa para tratar minha filha, e o que sobrava dava para quem precisava”, contou.
A fazenda da Apepi tem 70 hectares, um deles hectare destinado ao cultivo da cannabis. Outros seis são terras agricultáveis, ocupadas por plantas como crotalária, girassol e feijão-de-porco, utilizadas para o manejo do solo.
Com um plano revisado a cada seis meses, a entidade pretende no futuro expandir o espaço destinado à maconha medicinal na fazenda, conforme detalhou Marcelo Marega Vinhel, gerente de produção da Apepi. “Pretendemos nos próximos cinco anos, ou talvez antes, ocupar toda a área agrícola da fazenda com cannabis. Mas isso não será feito sem planejamento. Não dá para só tirar a maconha do pé sem colocar nada no lugar. Eu tenho que deixar o solo descansar e rotacionar essa cultura”.
A fundadora da Apepi afirma que as associações se sentiram ‘abraçadas’ pelo Estado a partir da regulamentação feita pela agência sanitária. Por essa razão, ela acredita que o plantio da cannabis medicinal pode deslanchar em todo o país.
Ela pondera, no entanto, que o Brasil precisa tomar cuidado para não acontecer o que se viu países em que a liberação do uso de maconha gerou um excesso de produção, o que desequilibrou oferta e demanda. “Todo segmento novo tem esse boom no começo e depois uma queda até o mercado se estabilizar. Se isso acontecer vai sobrar mais planta do que a gente consegue consumir, ainda mais no Brasil, com toda essa quantidade de terras que tem”, avalia.
Mesmo com a perspectiva de crescimento no médio prazo, Margarete Brito afirma não querer perder a essência no início da associação. Assim, ela rechaça uma possível parceria com indústrias do setor de cannabis medicinal.
“Temos um propósito aqui na associação, um cuidado diferenciado com cada paciente, enquanto a indústria farmacêutica tem visão de modelo de negócio. Queremos sempre manter nossa essência, com foco na qualidade do nosso produto, isso é o mais importante. Até porque quando a gente pensa em escala industrial podemos imaginar uma produção de 100 mil unidades de óleo de cannabis. A Apepi hoje fornece 7 mil frascos em um mês.
A Kaya Mind identificou um novo fôlego na criação de associações como Abrace e Apepi. Isso é consequência do aumento do número de profissionais atuando no segmento e à multiplicação de autorizações judiciais para plantio, além da nova regulamentação da Anvisa. Segundo a startup, há no Brasil 315 CNPJs ativos de associações que plantam maconha medicinal. Dessas, 47 têm autorização para realizar o plantio da cannabis. Sob o guarda-chuva dessas organizações estão 21 hectares.
Fonte: Valor Econômico