Em meio à crescente desconfiança do mercado quanto à condução futura da política monetária no Brasil, autoridades do Banco Central (BC) mostraram alinhamento em seus discursos proferidos ontem em São Paulo. O presidente da instituição, Roberto Campos Neto, buscou classificar a trajetória da inflação corrente como “positiva”, com dados melhores do que o esperado, mas chamou a atenção para os desafios relacionados à desancoragem das expectativas de médio prazo. Na mesma direção, o diretor de política monetária, Gabriel Galípolo, voltou a ressaltar que o papel do BC nesse contexto é reagir ao movimento de piora das projeções de inflação.
Em evento organizado pela Anbima e pela B3, o presidente do Banco Central classificou os dados mais recentes de inflação corrente no Brasil como positivos e que, inclusive, houve surpresas com os números de inflação de serviços intensivos em mão de obra. “Olhando para a foto da inflação, temos números que apontam para uma convergência à meta”, afirmou o dirigente.
No entanto, segundo ele, a parte mais desafiadora tem sido a das expectativas, que vêm piorando de forma consistente para os prazos de 2024 e 2025 e, mais recentemente, para o ano de 2026. “Tem alguns ruídos colaborando para isso: parte externa, fiscal, transição do BC, riscos políticos, as enchentes no Rio Grande do Sul”, afirmou. “Na última reunião de política monetária, decidimos nomear as expectativas como ‘desancoradas’, o que é relevante.”
As falas de Campos Neto foram reforçadas por Galípolo, que participou da cerimônia de abertura da Olimpíada Brasileira de Economia, também em São Paulo. Em diversos momentos de sua palestra, o diretor buscou fazer elogios ao presidente do BC e disse que Campos Neto teria transmitido de modo preciso, em suas declarações feitas horas antes, o que o Copom está monitorando para tomar sua próxima decisão de juros, em duas semanas.
Galípolo ressaltou que o processo de desancoragem das expectativas de inflação, que se intensificou desde maio, coloca a autoridade em uma posição mais delicada para a gestão da política monetária à frente e que não cabe ao BC explicar as razões desse processo. “A nossa função é reagir, ainda que não se consiga estabelecer de maneira clara e objetiva os motivos”.
Para ele, durante a reunião do Copom de maio, havia um “trade-off” (escolha de uma opção em detrimento da outra) em relação à comunicação da autarquia e à importância do “forward guidance” (sinalização sobre os próximos passos), além da subjetividade de cada diretor a uma mudança “substancial” ou não no cenário econômico naquele momento. “Se eu acreditar que é verdade que, a partir da autonomia, cada um dos diretores será analisado de maneira individual, é normal a subjetividade na função de reação de cada diretor, o que pode provocar divergências marginais, como a que aconteceu.”
Galípolo, contudo, disse achar equivocado “tentar parecer que existiu um ‘trade-off’ entre o compromisso com o ‘guidance’ e com a meta de inflação”. Nesse sentido, o dirigente reforçou o comprometimento com a persecução das metas de inflação, ao afirmar que a função do Copom é a de colocar a taxa de juros “em patamar restritivo o suficiente” para provocar a convergência da inflação à meta. “Tenho mantido serenidade e parcimônia, porque quando existe o desafio, mas você sabe o que precisa ser feito, não há razão para se estressar. O tempo vai jogar a favor do BC.”
O diretor assim buscou defender a institucionalidade e o corpo técnico do BC para a tomada de decisão de juros. Na avaliação de Galípolo, o processo decisório do Copom “não olha para uma única variável” e citou o Boletim Focus, após polêmicas recentes envolvendo o uso das expectativas pelo colegiado. “Há sempre uma avaliação entre as nove pessoas no Copom. Vejo muito valor no consenso. Não só agora, mas em qualquer momento. É mais difícil errar em nove pessoas do que errar sozinho”, apontou.
Ainda durante seus comentários, Galípolo afirmou que, pelo resultado da interpretação do mercado do último Copom, as condições financeiras ficaram mais restritivas, com efeito líquido semelhante a uma elevação nos juros. “Eu entendo a simbologia do que aconteceu no último Copom, ainda que quem trabalha com modelos econométricos saiba que 0,25 ponto está dentro do ‘modelo de confiança’, o que não quer dizer que não tenha valor”, disse, ao apontar ainda que Campos Neto é “cauteloso e preocupado” em respeitar a autonomia de cada diretor.
Fonte: Valor Econômico

