Por Larissa Garcia, Valor — Brasília
12/06/2023 17h16 Atualizado há 5 horas
Em encontro com representantes do varejo, setor que engrossa o coro do governo na pressão por juros mais baixos, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse que a curva longa “tem caído bastante” e que, junto com outros fatores, cria um ambiente para que a taxa básica Selic seja reduzida “à frente”.
O titular da autoridade monetária não indicou precisamente um horizonte de corte, mas deu sinais mais positivos, como uma projeção de inflação de 4,5% para este ano, mais baixa do que a de agentes do mercado financeiro e dentro do intervalo da meta.
“A curva de juros futura teve queda de quase 3% [pontos percentuais] dependendo do prazo que você olha. Isso significa que o mercado está dando credibilidade ao que está sendo feito, o que abre espaço para atuação de política monetária na frente”, disse nesta segunda-feira em evento promovido pelo Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), em São Paulo.
Esta é a primeira sinalização de queda em meses. Desde setembro do ano passado, quando a Selic passou a ser mantida em 13,75% ao ano, o colegiado repetiu em todas as reuniões que avaliaria se deixar a taxa em patamar elevado por período “prolongado” seria suficiente para levar a inflação à meta.
O presidente do BC destacou que o IPCA está “caindo bastante” e que “provavelmente” o dado de junho será negativo e “depois vai começar a subir lentamente e vai terminar o ano subindo”. “Vai ter meses entre 0,4% e 0,5%, que vai fazer com que a inflação no ano fique mais ou menos entre 4,5% e 5%, mais perto de 4,5%, isso é uma melhora em relação ao que esperávamos, mas uma melhora lenta.”
O presidente do BC ressaltou, contudo, que a média dos núcleos de inflação está caindo, mas lentamente. “A gente ainda está com média de núcleos de 6,7%. A inflação no Brasil está bem menor que nos países avançados pela primeira vez na história. Isso significa que a gente tem um trabalho que foi feito, que teve eficácia e que tem alguns itens na inflação mais voláteis que contribuíram positivamente”, destacou. “Em termos de expectativas de inflação, as notícias começaram a melhorar. Quando a gente olha a expectativa longa, estava estabilizado em 4%, começou a melhorar um pouco. Nas inflações de mercado estão muito acima da meta, mas caindo também.” No relatório Focus, analistas reduziram as suas previsões para todos os anos, até 2026.
O titular enfatizou, contudo, que a autoridade monetária não pode reduzir juros de forma artificial. “O custo de crédito está caindo, porque não está associado à Selic, mas à taxa mais longa, e essa taxa de juros tem caído. Essa taxa longa cair é o que proporciona abrir espaço para a Selic cair.”
Sobre o novo arcabouço fiscal, Campos disse que já viu efeito nas expectativas de inflação. Segundo ele, um pedaço relevante do resultado do PIB do primeiro trimestre veio da agricultura, “mas serviços vieram fortes também”. “Com o número do primeiro trimestre vai ficar difícil a revisão parar por aí [1,8%]. Muito provavelmente vamos ter revisões mais para perto ou acima de 2% por efeito-base do trimestre.”
A presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, Luiza Helena Trajano, disse que entende a discussão técnica, mas ponderou que a realidade é diferente e destacou que o setor está sofrendo com os juros altos. Ela pediu a Campos que baixe a Selic em ritmo acima de 0,25 ponto percentual.
Fonte: Bloomberg / Valor Econômico
