Uma das revoluções mais subestimadas dos últimos 50 anos é a explosão de dados facilmente acessíveis. Seja em detalhamentos minuciosos das características de cada bairro nos EUA, em modelos aprimorados de previsão do tempo que nos dão dias extras para nos prepararmos para furacões, ou em análises genômicas personalizadas que podem nos dar alertas precoces sobre doenças, nunca houve tanta informação tão prontamente disponível quanto nas últimas décadas.
Para empresas e consumidores, esse salto de dados tem sido um enorme benefício para o resultado final coletivo. Uma compreensão mais profunda do nosso mundo levou a mercados mais estáveis e salvou vidas por meio do planejamento para desastres ou de uma medicina melhor. Mas o último ano mostrou que essa revolução de dados está em risco, especialmente no que diz respeito às estatísticas produzidas pelo governo que se tornaram a espinha dorsal de miríades de indústrias e provedores privados. À medida que esse núcleo de informação se desgasta, existe um risco real de que possamos estar deslizando para uma era menos mensurada.
Um futuro sem dados é um futuro no qual os principais atores do nosso sistema econômico estão voando às cegas. Tomadores de decisão — do Federal Reserve e dos grandes bancos de Wall Street a pequenas empresas e lares americanos médios — podem ter de substituir boa informação por vibes [percepções subjetivas] e palpites, abrindo a porta para erros catastróficos.
Um rebaixamento dos dados
Talvez a melhor forma de entender a ameaça que a degradação de dados representa seja focar no padrão-ouro global de coleta de informações: o Bureau of Labor Statistics (BLS). Embora outras agências federais, como o Census Bureau, também façam um trabalho valioso, o BLS tem sido, há mais de um século, uma das fontes mais granulares de dados sobre o mercado de trabalho dos EUA, preços e muito mais. E os dados só melhoraram ao longo das décadas: se você quiser saber como o preço dos alimentos em Boston mudou na última década, quantos floristas estão empregados no país inteiro, ou quantas horas os americanos passam saindo com seus amigos, o BLS é o seu destino.
Nos últimos anos, porém, o BLS enfrentou tempos difíceis. Um orçamento estagnado, uma queda no número de americanos comuns e empresas respondendo a pesquisas cruciais, e a necessidade de modernizar técnicas de coleta de dados complicaram o processo de compilar estatísticas econômicas. A pressão crescente sobre a agência levou a American Statistical Association a concluir, em um relatório de dezembro de 2025, que “o país corre o risco de perder a infraestrutura de dados estatísticos que permite políticas sólidas, crescimento econômico e uma governança eficiente e fluida”.

Para as pessoas que dependem do BLS, o último ano levantou preocupações agudas. A primeira foi a demissão, por parte do presidente Donald Trump, da comissária do BLS, Erika McEntarfer, em julho. Revisões do relatório de empregos daquele mês mostraram que os EUA haviam criado muito menos empregos do que inicialmente reportado nos dois meses anteriores. Revisões são uma parte padrão do processo de coleta de dados do BLS, e o tamanho dos ajustes estava bem dentro das normas históricas. Economistas alertaram que a demissão poderia ser um prenúncio de interferência política nas cruciais estatísticas de emprego e preços. Jed Kolko, senior fellow do Petersen Institute for International Economics (PIIE), chamou a demissão de um “dano intencional de cinco alarmes à integridade dos dados econômicos dos EUA e de todo o sistema estatístico”. Skanda Amarnath, diretor executivo da Employ America, um think tank, disse: “a confiança pública é permanentemente prejudicada quando o comissário do BLS é demitido após um relatório de empregos ruim”.
Alguns meses após a demissão de McEntarfer, o BLS foi abalado por outro evento sem precedentes. O shutdown [paralisação] do governo de 43 dias, que se estendeu por outubro e novembro, não foi apenas o fechamento mais longo da história federal; ele também levou a outro evento inédito: pesquisas cruciais sobre emprego e inflação não foram conduzidas pela primeira vez em quase 80 anos. A taxa moderna de desemprego, que remonta a 1948, teve sua primeira lacuna em sua história célebre. O índice de preços ao consumidor (CPI) [Consumer Price Index; principal medida de inflação], uma das nossas principais medidas de inflação, deixou de ser publicado pela primeira vez desde que seu formato moderno foi concebido em 1947.
O setor privado entrou em cena para tentar preencher parcialmente as lacunas, com divulgações como o Employment Report da ADP oferecendo alguma visibilidade, mas o período de estiagem apenas sublinhou a inadequação dessas fontes. Muitos desses provedores simplesmente não têm o alcance e os recursos que os coletores de dados federais construíram ao longo dos anos. Essa expertise e esse acesso permitem que as agências federais “reflitam a população ou a economia inteira”, escreveu Kolko, do PIIE, em um artigo divulgado antes do shutdown.
“Em contraste, empresas só veem seus usuários ou clientes”, disse ele. “Dados de cartão de crédito deixam de fora os desbancarizados. Sites de emprego não capturam aqueles que pararam de procurar trabalho. Dados de celular deixam de fora pessoas sem celulares.” E muitas pesquisas privadas, como acrescentou Kolko, usam estatísticas federais como referência, “tornando os dados privados tão bons quanto os dados públicos dos quais dependem”.
Em 30 de janeiro, Trump anunciou que indicaria Brett Matsumoto, ex-economista do BLS e membro do Council of Economic Advisors, para assumir como comissário do BLS. A medida foi amplamente celebrada por economistas de todas as correntes, já que a nomeação de um especialista dedicado e orientado por dados na agência em dificuldades poderia ser um sinal de que seus problemas estão sendo levados a sério. Isso não altera o fato de que Matsumoto tem um caminho difícil pela frente.
As rupturas do último ano apenas reforçaram as preocupações crescentes do BLS. O quadro de funcionários do Bureau caiu 13% entre 2024 e o início de 2026, segundo o Office of Personnel Management, ressaltando o declínio de recursos da agência. Alguns programas também enfrentaram problemas — no ano passado, o BLS anunciou que teve de suspender a coleta de dados do CPI em um punhado de cidades espalhadas pelo país, de Buffalo, NY, a Provo, UT. Embora o Bureau tenha testado o impacto desse corte e concluído que ele não bagunçaria demais os números de inflação, perder os tipos de cidades de segunda e terceira linha, onde os preços podem diferir significativamente daqueles das mega-metrópoles, é um sinal ominoso para obter a informação mais precisa possível. Após os cortes serem anunciados, Russell Weaver, diretor de pesquisa da School of Industrial and Labor Relations da Cornell University, disse em uma entrevista que dados menos precisos do CPI poderiam “afetar o resultado final e a capacidade de sobrevivência de pessoas que dependem de aumentos salariais ou de aumentos de benefícios da Social Security que geralmente são vinculados a mudanças no custo de vida”.
A possibilidade de um futuro menos informado vai além dos problemas no BLS. Outras agências estão enfrentando um dilema de dados. Em junho passado, o Departamento de Comércio dissolveu 14 comitês consultivos, incluindo três no Census Bureau. Esses painéis ajudavam a manter as técnicas de coleta do Bureau atualizadas e eram essenciais para o planejamento do censo decenal de 2030. Várias bases de dados do governo sobre mudanças climáticas foram removidas ou suspensas sob o governo Trump, o que pode dificultar o acesso de agricultores e incorporadores imobiliários a informações cruciais, como mudanças nos padrões climáticos ou níveis de reservas de água nos estados do Oeste.
O relatório da American Statistical Association incluiu uma lista de dezenas de conjuntos de dados do BLS e de outras agências federais que foram descontinuados ou reduzidos nos últimos dois anos: cortes em algumas tabelas subjacentes que o Bureau of Economic Analysis usa para calcular o PIB, o BLS parou de rastrear quanto as empresas pagam por mais de 350 produtos que antes eram incluídos no Producer Price Index (PPI) [índice de preços ao produtor], mudanças na pesquisa anual do Census Bureau, a Survey of Income and Program Participation, que acompanha o bem-estar econômico das famílias dos EUA, e o fim da pesquisa anual do USDA sobre insegurança alimentar, que acompanha quantos americanos estão passando fome. Perder qualquer um desses conjuntos talvez não seja o fim do mundo (exceto para alguns pesquisadores muito específicos), mas o gotejamento de datasets apagados está aumentando, e corre o risco de se transformar em um rio de informações ausentes, colocando em perigo as divulgações mais destacadas que viram manchete e ajudam a moldar como a América pensa sobre sua economia.
Fora das agências federais, houve outras iniciativas que sugerem que uma escassez de dados pode estar no nosso futuro. Trump aventou mudar as regras da Securities and Exchange Commission (SEC) para exigir que empresas de capital aberto enviem suas informações financeiras duas vezes por ano, em vez de trimestralmente. Embora isso pudesse facilitar um pouco a vida das empresas e pudesse, em teoria, promover um pensamento de mais longo prazo nos C-suites [alta liderança executiva], isso também deixaria investidores com informações menos tempestivas para decidir como alocar capital e perturbaria o mercado de trabalho de colarinho branco.
Um declínio nos dados pode bagunçar a economia
A degradação dos nossos dados não é apenas uma preocupação “acadêmica” para economistas e cientistas. Empresas precisam desses dados para planejar quando e onde contratar e expandir. Consumidores precisam deles para tomar grandes decisões de compra e planejar suas carreiras. O governo precisa deles para alocar recursos.
O corpo econômico mais poderoso do mundo, o Federal Reserve, depende de dados do BLS para equilibrar seus dois grandes objetivos: baixo desemprego e preços estáveis. O trabalho do Fed já é complicado hoje em dia., Mmoving [sic] as taxas de juros para calibrar perfeitamente a economia exige precisão — manter as taxas altas demais por tempo demais pode fazer disparar o número de americanos sem emprego, mas reduzi-las rápido demais pode fazer os preços subirem novamente. A lacuna de dados durante o shutdown do governo provavelmente contribuiu para a maior incerteza e divisão do Fed em sua reunião de outubro. Ao abordar os dados ausentes, o presidente Jerome Powell descreveu a situação usando uma analogia meteorológica: “O que você faz ao dirigir através do nevoeiro? Você diminui a velocidade.”
Mesmo enquanto o Fed caminha com mais cuidado, a realidade da economia não desacelera com ele. Um futuro com dados menos confiáveis poderia significar um Fed menos confiante e menos competente. Se uma crise como o colapso do mercado imobiliário de 2008 ou a pandemia de COVID-19 de 2020 ocorrer, o banco central e o Congresso precisam saber exatamente como isso está afetando a economia o mais rápido possível. Se os números de desemprego não forem confiáveis, as respostas do Fed e do Congresso podem ser tímidas demais, levando a uma recessão mais longa e mais profunda, ou agressivas demais, disparando a inflação e piorando a situação de todos.
Se o Fed, com seu enorme quadro de economistas, teve dificuldade para tomar decisões sem o fluxo regular de estatísticas governamentais, então é razoável supor que empresas, que também precisam lidar com operações do dia a dia, terão dificuldade também. Uma pesquisa de março de 2025 com gurus de economia e negócios pela Chicago Booth School of Business constatou que 90% dos respondentes concordaram que a “capacidade das empresas de prever e planejar será substancialmente prejudicada por dados econômicos de menor qualidade”.
Falando em um nível mais pessoal, como editor de dados econômicos do Business Insider, meu trabalho é ver o que está acontecendo na economia e trabalhar com uma equipe talentosa de repórteres para ajudar você, leitor, a entender o que isso significa para a sua vida. Os dados econômicos do BLS e de outras agências são o primeiro passo para enxergar essas tendências, e perdê-los tornaria muito mais difícil fazer esse trabalho. E não é apenas o meu trabalho; pense em todos os dados que você usa para tomar decisões sobre sua própria carreira: a economia parece estar em um bom momento para pedir demissão? Que tipo de salários você poderia esperar com uma mudança de carreira? Há muitas vagas abertas na sua área, ou as contratações congelaram?
Se os dados econômicos se tornarem menos confiáveis, eles continuarão a distorcer as ideias das pessoas sobre a economia e a tornar a tomada de decisão mais difícil.
Essa erosão lenta da informação que embasa nossas decisões também cria um ciclo vicioso de retroalimentação de confiança. Os americanos estão cada vez mais se apoiando em “vibes” para entender a economia, criando um descompasso entre como as pessoas pensam e sentem sobre suas perspectivas econômicas e a realidade subjacente. Essa ruptura entre a experiência vivida e as medidas agregadas corroeu a confiança nos próprios dados. Uma pesquisa Economist/YouGov de agosto de 2025 constatou que 45% dos respondentes desconfiam total ou parcialmente dos dados econômicos federais, em comparação com 42% que confiam parcial ou totalmente neles. Apenas 21% das pessoas na mesma pesquisa disseram que a contagem do governo sobre desemprego era precisa. Se os dados econômicos se tornarem menos confiáveis, eles continuarão a distorcer as ideias das pessoas sobre a economia e a tornar a tomada de decisão mais difícil.
É justo dizer que a quantidade de dados coletados sobre o nosso mundo pode ser esmagadora. Há mais dados de alta qualidade do que nunca, mas também há mais lixo, pesquisas mal conduzidas e análises questionáveis. Pode ser difícil tomar decisões em meio a essa enxurrada, mas a resposta às nossas dificuldades em entender dados não é gerar menos dados. Isso apenas permite que atores de má-fé se aproveitem da ignorância coletiva. A incapacidade de compreender o mundo tornaria ainda mais difícil para uma economia capitalista bem administrada funcionar.
Fonte: Business Insider
Traduzido via ChatGPT
