Para infectologista David Uip, momento é de redução dos casos no Centro-Sul do país, mas de crescimento no Norte e Nordeste
PorRafael Vazquez e Luiz Fernando Figliagi
O Brasil ultrapassou a marca dos 3 milhões de casos de dengue nesta quarta-feira (10), conforme dados do Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde. Segundo o painel, são 3,062 milhões de notificações da doença em 2024, recorde para quatro meses desde o início da série histórica, em 2000.
O número é recorde. O contágio mais alto até então tinha ocorrido em 2015, com quase 1,7 milhão de casos. No ano passado, 1,6 milhão foram oficialmente infectados.
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O painel contabiliza 1.256 mortes confirmadas devido à doença e 1.857 sob investigação. A mortalidade também é recorde. Em 2023 foram 1.094 mortes pela doença.
David Uip, um dos principais especialistas em infectologia no Brasil e ex-secretário de Saúde do Estado de São Paulo, aponta que a tendência para os próximos meses é ver um arrefecimento do número de casos nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. No entanto, é provável que o Aedes aegypti se espalhe mais pelo Norte e Nordeste, o que justifica a projeção aceita pela comunidade médica de que as contaminações passarão de 4 milhões até o fim do ano.
“É importantíssimo falar de dengue o ano inteiro. É preciso trabalhar no tema o tempo todo para que o ano que vem não seja ainda pior”, aconselha Uip. Ele explica que as chuvas intensas no Sudeste e no Sul do Brasil foram fundamentais para o recorde em 2024 e afirma que, mesmo que tanto isso quanto as temperaturas mais altas já fossem esperadas, é difícil para as autoridades anteciparem as soluções sem o comprometimento da sociedade.
“É preciso contar com o apoio da população, pois 80% dos focos de criação do mosquito são domiciliares. Envolve a conscientização das pessoas e também política de governo, mas é complexo. E agora não adianta sair apontando o dedo. Temos poucas vacinas, em quantidade insuficiente, nem vamos ter no curto prazo”, avalia.
O médico afirma que todas os brasileiros precisam levar a prevenção contra a dengue mais a sério. “As pessoas não entendem que é uma doença democrática. Pega residências em locais complicados, mas também pega na piscina do condomínio chique com a água mal tratada. Além disso, você pode ter o cuidado em casa, mas, se o seu vizinho não tiver, você também está vulnerável”, diz, explicando que o fortalecimento do senso de comunidade é fundamental para controlar as contaminações.
Liberação da vacina do Instituto Butantan deve ocorrer só no segundo semestre
O que mais preocupa Uip é o aumento de casos graves que é uma consequência direta do alto índice de infecção. “O número de 3 milhões já é exuberante. Mas o maior problema é que está aumentando o número de casos graves, o que consequentemente tende a elevar o número de óbitos. Por isso, tem que ter estratégia que vai desde a atenção primária até o atendimento de alta complexidade. Ter a equação de insumos, reserva de leitos, previsão de UTI. A gestão é complexa”, diz.
De acordo com os dados do Ministério da Saúde, a letalidade quando se trata de casos graves no Brasil está em 4%.
Uip acredita que o número de contágios deverá ser até maior do que o esperado, mas sugere o investimento para fortalecer o trabalho dos agentes de saúde que atuam diretamente nos bairros diretamente com a população.
Uip lamenta que ainda haja uma oferta baixa de vacinas que impede a realização de uma grande campanha de vacinação contra a dengue. Embora o Brasil seja o primeiro país do mundo a oferecer o imunizante contra a doença no sistema público de saúde, a oferta da vacina é limitada devido à incapacidade operacional da farmacêutica japonesa Takeda Pharma, fabricante da vacina Qdenga.
O Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, já desenvolveu uma vacina própria contra a dengue que está em estágio avançado de aprovação, mas os testes finais devem ser finalizados somente no segundo semestre deste ano para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) possa analisar e liberar a vacina. “Uma solução mais arquitetada depende da vacina”, conclui Uip.
Fonte: Valor Econômico