Por Álvaro Campos — De São Paulo
31/03/2023 05h04 Atualizado há 4 horas
Com a pandemia de coronavírus, a guerra na Ucrânia e as tensões entre Estados Unidos e China, muito se falou nos últimos anos de um retrocesso no processo de globalização. Para Marc Merlino, diretor global do departamento do Citi responsável pela relação com grandes multinacionais, isso não é verdade. Ele vê um processo de “reglobalização”, e não “desglobalização”, e diz que o Brasil pode e já está se beneficiando disso. O executivo considera ainda que a recente turbulência bancária nos EUA e Europa não deve ter impacto significativo em seus clientes, que casos de fraude acontecem – e por isso é preciso prestar atenção na administração das empresas – e que o mundo sempre terá altas expectativas em relação ao Brasil quando se trata da questão ambiental.
Merlino comanda a recém-criada área de global network banking (GNB), que reuniu sob um mesmo guarda-chuva os clientes dos segmentos corporate e commercial, com o objetivo de aprimorar a estratégia do Citi de ser um parceiro essencial para empresas com necessidades internacionais. Os clientes principais são grandes corporações americanas com atuação em várias partes do mundo, mas também há entre eles algumas dezenas de empresas brasileiras com operações no exterior. Ele esteve no Brasil este mês para visitar alguns clientes, inclusive um projeto da Alunorte no Pará, que contou com um dos primeiros derivativos ESG do Brasil, estruturado pelo banco americano.
Segundo Merlino, apesar das tensões geopolíticas, as grandes multinacionais globais não estão reduzindo sua atuação. “Não estamos vendo nossos clientes retrocedendo. Eles estão apenas ajustando suas estruturas, baseados nos muitos desafios que temos. Mas nunca tive uma reunião com um cliente que dissesse que está desistindo da estratégia global.” Para ele, tendências como o “nearshoring” (fornecedores se mudando para mais perto dos compradores) e “friendshoring” (quando empresas buscam novas localizações mais amigáveis) são uma realidade e beneficiam o Brasil. “O Brasil é um país amigável, e isso é importante no mundo atual.”
Se até alguns anos a única preocupação das grandes multinacionais quando iam instalar suas linhas de produção era onde encontrar os menores custos, no atual mundo complexo isso muda. O executivo do Citi afirma que, nesse contexto, dispor de uma ampla rede global, com banqueiros locais em dezenas de países, é um fator que ajuda a instituição a apoiar seus clientes. “Estamos no Brasil há 108 anos, temos experiência em lidar com a complexidade tributária aqui. Temos expertise, contatos locais, para ajudar nossos clientes a navegaram por esse nível de complexidade”, exemplifica.
Ele comenta que outros países da região também são destinos atrativos, como o México, mas diz que, no fim das contas, o Brasil só compete consigo mesmo. Mesmo com a recente mudança de governo por aqui, Merlino aponta que as grandes multinacionais são investidores de longo prazo, acostumados com a volatilidade política. “A única coisa que eles pedem é estabilidade. Eles ajustam suas estratégias a depender de para onde as políticas públicas apontam. Mas o que torna difícil é quando elas mudam dramaticamente.”
Sobre os problemas com o Silicon Valley Bank (SVB) e mesmo o Credit Suisse, Merlino não entra em detalhes, mas diz que os dois casos são questões muito específicas e que, neste momento, o trabalho do Citi é estar ainda mais próximo dos seus clientes. Sobre o ambiente de juros globais elevados, ele admite que este é um desafio e que muitos empresários nos países desenvolvidos nunca tinham vivido um período inflacionário, mas avalia que as grandes empresas estão em uma boa posição e vão conseguir adaptar seus modelos de negócio.
Questionado sobre o caso Americanas, que é tratado pelos grandes bancos brasileiros como um problema de fraude, o executivo novamente prefere não falar sobre a questão em si. Mas diz que, em geral, problemas de fraude sempre aconteceram e vão continuar acontecendo. “Por isso mesmo nós temos processos extensivos em vigor para nos ajudar a avaliar os riscos associados com os clientes, e uma das avaliações mais importantes é sobre a equipe de gestão.”
Já em relação à agenda ESG, Merlino comenta que nunca viu um tópico se tornar tão relevante tão rapidamente e que a próxima onda nessa tendência deve ser a proteção da biodiversidade. “As pessoas sempre têm altas expectativas sobre o Brasil quando o tema é meio ambiente. Progressos estão sendo feitos, mas ainda há muito trabalho pela frente em todo lugar, mesmo em partes mais progressistas do mundo, como o norte da Europa”, comenta.
Fonte: Valor Econômico

