É inevitável apontar que, em um ambiente externo já marcado por incertezas, os fatores domésticos têm tido efeito exponencial sobre a volatilidade dos mercados no Brasil. A constatação é do chefe de mercados globais do Citi Brasil, Eduardo Miszputen, ao avaliar, em entrevista ao Valor, o comportamento recente dos ativos locais, que, para ele, estão com um nível elevado de prêmio de risco. “O Brasil tem um desempenho pior em várias frentes, como renda variável, moeda… As questões locais estão fazendo o Brasil performar pior. É uma pena. Tínhamos condição de nos consolidar como um país que poderia atrair atenção maior do investidor internacional. Perdemos a prioridade e o espaço.”
Miszputen reconhece que o cenário externo foi responsável por uma mudança nas perspectivas já na virada do ano, diante de números bem mais fortes da economia dos Estados Unidos, que provocaram um adiamento nas expectativas para redução dos juros pelo Federal Reserve (Fed). “E isso teve impacto direto nos mercados emergentes”, afirma. O executivo, porém, ressalta que os vetores domésticos têm sido dominantes nas últimas semanas e ajudaram a deteriorar adicionalmente o ambiente para os ativos financeiros brasileiros.
As declarações do executivo foram dadas às vésperas da 16ª edição da Equity Conference do Citi Brasil. Na visão de Miszputen, há algum exagero nos mercados domésticos, que pode gerar oportunidade para se aproveitar uma mudança no nível dos ativos. “Quando olhamos o real como a moeda mais desvalorizada do mundo no ano; a bolsa como o mercado de ações mais depreciado do mundo; os juros de dois anos subindo 1,3 ponto, o dobro de outros mercados… Isso indica que existe um prêmio de risco relativamente interessante nos mercados brasileiros e já vemos investidores discutindo o momento de potencialmente voltar a entrar.”
Assim, na visão de Miszputen, apesar da visão pessimista de mercado, os níveis bastante elevados dos prêmios de risco nos mercados domésticos “justificam uma potencial atração de investimentos novos”. A questão fiscal, porém, deve seguir como o fiel da balança em relação ao humor dos agentes. “No fundo, a preocupação é sobre como vai se desenrolar a disciplina do governo em relação às contas públicas.”
O profissional nota que, na visão de analistas de mercado, a ausência de discussões sobre como disciplinar os gastos e promover reformas mais amplas no lado das despesas tem deixado a política econômica “capenga”, ao ampliar a chance de colocar o Brasil em um ambiente de risco mais desfavorável. “É o que está norteando os prêmios de mercado. Estamos olhando o câmbio a R$ 5,50 por dólar, quando, na virada do ano, estávamos falando de câmbio a R$ 5″, nota.
Miszputen observa, ainda, que “muita gente ficou machucada” com posições em ativos brasileiros neste primeiro semestre, diante de movimentos bastante fortes tanto na renda fixa quanto na renda variável. “Aquele investidor de portfólio que via o Brasil como oportunidade de médio prazo foi ‘stopado’ [teve um encerramento abrupto de suas posições], em sua grande maioria, e perdeu dinheiro. Não é uma decisão rápida e imediata para ele voltar. Talvez ele queira ou mais prêmio – e acho que estamos entrando nesse ambiente – ou mais ações do que promessas em relação ao ambiente local.”
Essa falta de credibilidade, na visão do profissional, também se traduz no nível elevado dos juros reais de longo prazo extraídos das NTN-Bs, cujas taxas estão bem acima de 6% há alguns meses. “Está tudo interligado. Essa piora das taxas está acontecendo porque o prêmio de risco cobrado pelo investidor para comprar títulos de longo prazo do governo está maior devido a esse ambiente de desequilíbrio fiscal, que exige juros mais altos. As questões estão conectadas. Ter um juro real de 6,5% é alto no Brasil de hoje e de sempre quando olhamos historicamente, mas isso mostra essa falta de credibilidade”, afirma.
O executivo, assim, diz acreditar que o nível de preços atual dos ativos brasileiros “parece ter algum prêmio”, mas avalia que o ambiente atual para a bolsa é o mais “complicado”. “Estruturalmente, temos visto uma migração de capital para a bolsa americana. Isso está acontecendo globalmente, é só ver a performance do S&P 500 ao longo do ano. Isso tem atraído dinheiro para o mercado americano e é um efeito que pode gerar desequilíbrios estruturais macro ao longo do tempo”, diz. Além disso, Miszputen observa que os fundos locais de ações perderam recursos e não têm tido aportes, mesmo com a bolsa muito barata. “Se, por um lado, estou otimista vendo que está tudo barato, por outro eu lembro que toda hora que você compra acaba ‘stopando’ e perdendo dinheiro.”
“Eu estava leve com a questão fiscal no fim do ano passado, mas isso foi se perdendo. E aí vimos a divisão no Copom, as mudanças no comando da Petrobras… Foram vários pequenos incidentes que deixaram o ambiente mais desconfortável”, diz o executivo. Ele lembra que o investidor local está com posições mais leves e que o estrangeiro saiu e ficou menor. “Isso pode gerar uma reversão oportunística até porque os prêmios estão altos nos diferentes mercados”, diz Miszputen, ao lembrar que a curva de juros precifica altas na Selic neste ano.
Fonte: Valor Econômico
