Com 750 bilhões de libras esterlinas (mais de US$ 940 bilhões) globalmente, a gestora britânica Schroders está com indicação “fortemente sobrealocada” (“strong overweight”) em Brasil. Segundo Peter Harrison, principal executivo (CEO) da asset, “o país tem algo que está um pouco fora de sincronia” em relação a outras economias e tem altos retornos para entregar potencialmente.
“O nível das taxas de juro reais é incomumente elevado em comparação a qualquer outra economia. Se olharmos para o déficit orçamentário dos EUA, que está para atingir um nível subjacente de 9% [do PIB], é superior ao do Brasil, superior ao do resto do mundo. Por isso, tenho dificuldade em compreender por que razão as taxas reais permanecem tão elevadas aqui a médio prazo”, diz Harrison.
Em contraste, o executivo diz ver os EUA tomando dois conjuntos de medicamentos: uma enorme droga fiscal, com grande déficit orçamentário, o que é estimulante e levou os preços do mercado acionário às alturas, ao mesmo tempo em que ensaia acabar com a flexibilização quantitativa e o ambiente monetário expansionista.
“Eu olho para isso e digo que não são ganhos naturais, são ganhos induzidos por drogas. Então você tem que pensar sobre qual é o poder do lucro de longo prazo do mercado versus as drogas. E não são os ‘valuations’ [avaliação das companhias] negociados hoje. Portanto, quer se trate de uma bolha ou apenas de uma questão de saber se pode ser superada lentamente, é um valor elevado para pagar pelo crescimento induzido pelas drogas.”
O executivo fez recente passagem pelo país, a primeira desde que assumiu o posto como CEO, em 2016. A visita coincide com três décadas da gestora de recursos no Brasil, que está sob o comando de Daniel Celano. Os executivos receberam o Valor na sede da Schroders, em São Paulo. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Valor: O que esperar para 2024 com o ciclo de queda de juros, no Brasil, e, possivelmente no exterior?
Peter Harrison: O cenário global é ainda desafiador e provavelmente mais do que o local porque no Brasil há taxas em queda, a inflação chegando a um bom lugar, tem o apetite pelo risco retornando. Isso parece muito construtivo. Mas se eu olhar para fora, com a inflação nos EUA sendo mais alta, as taxas de juros estão caindo mais lentamente do que se esperava. Há mais questões geopolíticas do que jamais lidamos antes. E isso vai piorar antes que, possivelmente, se veja um dólar mais fraco. Isso seria útil para o Brasil. Mas acho que teremos essas duas tensões, uma interna positiva, e talvez um vento contrário do lado internacional.
Valor: Como isso afeta os negócios no Brasil?
Harrison: Os fluxos de fundos na indústria de gestão de recursos têm sido muito fracos durante dois anos. E trata-se de apetite [menor] pelo risco, mas também de uma mudança para fundos passivos. É mais ou menos o que se vê nos EUA, com a migração para ETFs [fundos negociados em bolsa]. Acho que essas pressões já estão diminuindo. Então, se eu olhar para o apetite ao risco, está ficando mais forte. Estou falando fora do Brasil, porque conforme as expectativas de taxas caíram, a indústria ganhou um novo concorrente chamado “cash” [caixa]. Os brasileiros estão acostumados a lidar com dinheiro, mas no resto do mundo não tivemos dinheiro como concorrente durante anos. Então isso foi realmente um amortecedor. Neste ano isso vai começar a passar, veremos um ambiente muito mais construtivo para os fluxos de fundos em todos os lados.
Daniel Celano: Quando se olha o quanto dessas saídas dos fundos mútuos foi para as letras incentivadas e como algumas delas não serão emitidas novamente no mesmo nível porque o Banco Central do Brasil restringiu o tipo de garantia subjacente que alguns emissores poderiam usar, acho que alguma parte desse dinheiro vai voltar. Tem a queda das taxas de juros. Teve muito dinheiro saindo de ações e de hedge funds locais, os multimercados. Se a gente vai em algum cliente regular que compra vários fundos, não é só renda fixa pura, eles compram multimercados e não faz sentido comprar multimercados só no Brasil e não os hedge funds globais. E quando volta para reais [a exposição no exterior, com proteção cambial], há estratégias que dão a taxa do mercado monetário [CDI] com mais 6%, 7%, 8% em 12 meses. Portanto, temos alguns ventos favoráveis neste ano para conseguir alguns “feeders” [veículos locais que compram cotas lá fora] à prova de exposição cambial, mas também a indústria de fundos vai conseguir recuperar parte do que perdeu, com a altas de juros, títulos incentivando, [os recursos] das letras que voltam para o mercado.
Valor: E como os investidores estrangeiros têm avaliado o Brasil?
Harrison: Acho que consideram ótimo. Nossas carteiras de mercados emergentes estão fortemente ‘overweight’ no Brasil, devido à atratividade. Tem algo que está um pouco fora de sincronia. Se pensarmos na geopolítica do resto do mundo, a Ásia está sob alguma nuvem neste momento. Há altos retornos aqui, tem uma perspectiva corporativa que é bastante estável. Parece que existe um clima de negócios certo para as pessoas continuarem a obter os lucros por um período de tempo. Tem todos os ingredientes para algo que poderia durar vários anos sem uma posição excessiva no sistema e com a moeda se comportando bem.
Celano: Sim, exatamente. Porque um dos gatilhos são os investidores estrangeiros, quando eles querem investir no Brasil, eles precisam comprar reais. E eles dizem, BRL [real], não sei, é muito volátil. Mas se for bem comportado, acho que fica mais atraente.
Harrison: Acho interessante o quanto o Brasil está dessincronizado com o resto do mundo. O nível das taxas de juro reais é incomumente elevado em comparação a qualquer outra economia. Se olharmos para o déficit orçamentário dos EUA, que está perto de atingir um nível subjacente de 9% [do PIB], é superior ao do Brasil, superior ao do resto do mundo. Por isso, tenho dificuldade em compreender por que razão as taxas reais permanecem tão elevadas aqui a médio prazo. Se será este ano, não sei, mas eu acho que a queda das taxas reais é um fator importante. Com o tempo, isso vai acontecer.
Celano: Eu acho que é [nos cortes] nas taxas do Fed que os mercados aguardam a volta desse ‘espírito animal’. Porque, no fim das contas, as ‘Fed funds’ [taxas referenciais dos EUA] é que comandam o espetáculo como o custo de oportunidade global.
Harrison: Como dizem todos os banqueiros centrais: ‘Vamos seguir os dados’. O que querem dizer com isso é que simplesmente não sabem onde estão as economias. Acho que realmente há um desafio enorme. O trabalho do banco central nunca foi tão difícil, porque todas as perturbações que tivemos no contexto dos dados econômicos, quer tenha sido pela Covid, pela desglobalização, pelos custos das matérias-primas, pelos preços de energia, todos eles confundiram completamente os dados macro. Acho que o mercado está colocando demasiada certeza nas suas próprias percepções. Então, no início do ano, ‘sim, teremos três cortes nas taxas nos EUA’. Agora, são apenas dois. Não me surpreenderia se estivéssemos completamente errados. E esse prêmio de risco não parece ser precificado nos mercados globais da mesma forma que está no brasileiro, o que é uma das razões pelas quais estamos ‘overweight’ no Brasil como classe de ativos, porque se recebe muito mais por estar nele.
Valor: Quais as tendências de investimentos para o ano?
Harrison: Acho que a grande coisa que estamos vendo globalmente é um retorno à renda fixa, que pôde ser investida novamente. Sem dúvida, em todos os lugares vemos a atratividade no crédito de alto rendimento e as pessoas têm uma visão muito positiva sobre a inadimplência. Alguns serviços de private banking vêm tentando usar produtos de múltiplos ativos para atrair as pessoas para longe do cash e colocá-lo em ativos de risco. O que foi surpreendente nos últimos dois anos foi, dada a força dos mercados, o quão pouco fluxo houve para ativos de risco. Se olharmos para as saídas no mundo dos fundos mútuos dos EUA, elas foram enormes. E ainda assim o mercado dos EUA houve um desempenho melhor do que nunca. Essa correlação nunca foi quebrada. No passado, sempre foi perfeita. Então você se questiona: se essas correlações não funcionaram no passado, pode ser que este ano nos surpreendam um pouco.
Valor: Há uma bolha no mercado de ações americano?
Harrison: Deixe-me responder de uma maneira um pouco diferente. Os EUA estão tomando dois conjuntos de medicamentos ao mesmo tempo. É preciso uma enorme droga fiscal, um enorme déficit orçamentário, o que é estimulante, e está para acabar com a flexibilização quantitativa e o ambiente monetário expansionista. E isso está criando um crescimento que está muito acima do que a economia produziria naturalmente, lucros etc. E as pessoas estão preparadas para valorizar muito esses ganhos. Eu olho para isso e digo que não são ganhos naturais, são ganhos induzidos por drogas. Então você tem que pensar sobre qual é o poder do lucro de longo prazo do mercado versus as drogas. E não são os ‘valuations’ negociados hoje. Quer se trate de uma bolha ou apenas uma questão de saber se pode ser superada lentamente, é um valor elevado para pagar pelo crescimento induzido pelas drogas.
Valor: Como ajustar isso sem provocar uma crise?
Harrison: Uma crise só ocorrerá se os mercados não conseguirem se equilibrar por algum motivo. Geralmente os mercados não entram em colapso por causa dos lucros, mas sim por causa de algum receio de não serem compensados adequadamente. Não creio que haja qualquer evidência disso neste momento. Mas acho que é bem possível que os retornos fiquem realmente silenciados por um longo período porque as pessoas vão começar a dizer, ‘bom, na verdade não dá para continuar injetando remédio no paciente’.
Fonte: Valor Econômico
