Apesar do sentimento de aversão a risco nos mercados causado pela guerra no Oriente Médio, as bolsas de Nova York têm se mostrado resilientes e ainda são negociadas próximas a suas máximas históricas. No entanto, o respeitado economista Ed Yardeni, presidente da Yardeni Research, avalia que o conflito não deve terminar tão cedo e estima a possibilidade de uma correção adicional de até 15% nos mercados acionários globais, especialmente em economias mais dependentes do petróleo da região do Golfo Pérsico.
“Minha preocupação é a de que o conflito dure mais do que o mercado espera”, afirma o profissional em entrevista ao Valor. “Pode ser difícil alcançar uma resolução rápida do conflito. O Irã perdeu terreno significativo nas últimas semanas, mas pode não reconhecer plenamente isso, e conflitos envolvendo atores não estatais ou assimétricos raramente terminam rapidamente, tendendo a se prolongar por períodos extensos”, afirma o economista, que tem passagens por instituições como Deutsche Bank e Prudential Financial.
Na visão do executivo, mesmo que Israel e os Estados Unidos tenham sido bem-sucedidos em eliminar lideranças, “não significa que a filosofia do regime iraniano vá desaparecer”. Yardeni vê como provável uma correção de 10% a 15% no mercado de ações global, especialmente em países mais dependentes de petróleo do Oriente Médio, como Coreia do Sul, Japão e China.
Ontem, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou o adiamento de ataques contra usinas e infraestrutura de energia do Irã por cinco dias, ao citar “conversas produtivas” com autoridades do país islâmico, o que levou a uma reação positiva nos mercados, embora isso tenha sido negado por Teerã. O economista acredita que a possibilidade de negociações é um bom sinal, mas afirma que ainda há incerteza no cenário econômico. “Negociar nem sempre te leva aonde você quer chegar. Ainda não dá para ver claramente para onde isso vai.”
As bolsas de Nova York têm se mostrado resilientes à piora no sentimento dos investidores. Na mínima do ano até agora, o S&P 500 acumulava uma queda de 4,96% em relação a sua máxima histórica, atingida no dia 27 de janeiro, quando o índice fechou em 6.978,60 pontos. Ainda assim, Yardeni afirma que é “realista” esperar uma correção maior. “Também precisamos considerar os riscos de uma recessão global e de um ‘bear market’ global, que aumentaram significativamente na última semana”, enfatiza.
Até o momento, a preocupação dos participantes do mercado está centrada nas pressões inflacionárias devido aos preços mais altos do petróleo. O economista, no entanto, também destaca a possibilidade de esse cenário pressionar o crescimento da economia americana, algo que, na visão dele, deve colocar o Federal Reserve (Fed) em uma posição complicada.
“O Fed provavelmente não poderá reduzir juros, porque isso poderia intensificar os efeitos inflacionários do choque do petróleo”, opina. “Temos um problema clássico: inflação mais alta e crescimento mais fraco ao mesmo tempo, colocando o Fed em uma posição extremamente difícil. Em alguns momentos, o Fed terá de reconhecer que há limites para o que a política monetária pode fazer, e que o desfecho dependerá mais da evolução do conflito.”
Yardeni ressalta que ainda não há uma perspectiva clara de negociações ou de cessar-fogo e acredita que a postura de Trump muitas vezes tem sido contraditória, contribuindo para aumentar a sensação de incerteza. “Ele tem sido consistente ao pedir uma rendição incondicional, algo que o regime iraniano dificilmente aceitará”, avalia.
[Kevin] Warsh ficará frustrado. Se for aprovado, deve assumir em um ambiente de inflação mais alta”
Em linha com o consenso dos participantes do mercado, Yardeni espera que o Fed americano mantenha os juros inalterados pelos próximos sete meses, no mínimo, evitando classificar o choque inflacionário como “transitório”, diante da incerteza. “Os juros ainda estão altos o suficiente para desacelerar a economia, especialmente com o aumento do preço do petróleo. Também acho que a produtividade está voltando, o que pode ser uma força desinflacionária importante nos próximos anos”, afirma.
Yardeni, inclusive, descarta a possibilidade de um aperto monetário, a menos que a guerra dure mais tempo do que o esperado e que os preços de petróleo permaneçam em níveis muito elevados.
“Warsh provavelmente ficará frustrado. Se for aprovado pelo Senado, deve assumir em um ambiente de inflação mais alta”, observa o economista ao se referir a Kevin Warsh, indicado por Trump para assumir a liderança do Fed. “Nesse contexto, será difícil convencer outros membros a cortar juros. A maioria provavelmente preferirá não agir, reconhecendo as limitações da política monetária. Warsh provavelmente terá que moderar ainda mais sua posição.”
Yardeni acredita que, caso preços mais altos de energia e, consequentemente, maior inflação, acabem pesando sobre o consumidor, participantes do mercado podem revisar para baixo as projeções de lucros para as empresas, pesando sobre o desempenho do mercado de ações. “Já tivemos choques de petróleo no passado que levaram a uma estagflação, ‘bear markets’ e até uma década perdida para o mercado americano. Não devemos ser ingênuos em achar que isso não pode se repetir”, diz.
Apesar disso, ele mantém seu preço-alvo de 7.700 pontos para o S&P 500 neste ano por enquanto. “Já tivemos crises similares no passado que viraram oportunidades de compra”, pondera. “Ao mesmo tempo, é concebível que possamos ter um ‘sell-off’ [venda generalizada]. Será um mercado bem volátil até a guerra acabar totalmente, e podemos nos surpreender.”
Na contramão do mercado, o executivo aposta que o dólar deve continuar a se fortalecer. Após uma desvalorização expressiva no ano passado, o consenso entre os investidores para este ano era de que a moeda continuaria em trajetória de queda. No entanto, o dólar apresentou firme alta desde o início da guerra contra o Irã. “Este conflito também está lembrando ao investidor que, em momentos de incerteza, o principal porto seguro continua sendo os EUA e o dólar.”
Apesar da hegemonia americana, Yardeni também vê boas oportunidades em mercados emergentes, como o Brasil. No fim do ano passado, ele mudou sua recomendação para “overweight” (equivalente a compra) para os emergentes. Com o início da guerra, o ambiente mudou. No entanto, uma vez que o conflito termine, ele acredita que os mercados emergentes têm potencial para performar bem. “No entanto, não há urgência em entrar imediatamente, já que os ‘valuations’ podem se tornar ainda mais atrativos se a guerra persistir.”
Fonte: Valor Econômico
