Embora historicamente o avanço significativo da bolsa brasileira tenha sido acompanhado pela queda do juro real das NTN-Bs, títulos públicos atrelados à inflação, essa relação se enfraqueceu nos últimos 24 meses, avalia o sócio e CIO de ações da Ibiuna Investimentos, André Lion. Ainda assim, o gestor acredita que o Ibovespa pode manter sua trajetória de valorização — que acumula alta de quase 20% neste ano — impulsionada pela dinâmica global, favorável aos mercados emergentes. Segundo Lion, os fatores internacionais têm se tornado cada vez mais determinantes para o desempenho da bolsa, compensando o descompasso com os juros reais.
“É um indicador de capital que, por conta da distorção nas alocações em títulos incentivados, acabou ficando desconexo”, afirma o gestor. “Eu olho sempre o juro swap de cinco anos, hoje em 8%. Se cair para 7%, claro que ajuda, é um vento a favor. Mas não acredito que, se a B [NTN-B] começar a fechar, os outros ativos vão disparar descontroladamente, inclusive a bolsa. Os demais ativos avançaram e a B ficou parada”, completa.
O executivo diz que hoje há poucos compradores de NTN-Bs capazes de alterar a trajetória do título. Com a renda fixa ainda atrativa para o investidor pessoa física, especialmente em ativos isentos de imposto de renda — e os fundos de pensão já estão no limite de alocação —, falta fluxo comprador para pressionar a queda das taxas das NTN-Bs. A dinâmica ajuda a explicar por que houve essa descorrelação entre os títulos atrelados à inflação e a bolsa brasileira nos últimos meses.
“Quem é o comprador marginal da B? Não há. Justamente por isso o Ibovespa pode continuar avançando mesmo sem a queda da B, já que a relação entre ambos ficou distorcida”, diz Lion.
Com o descolamento técnico entre juros e bolsa, fatores externos ganharam relevância nos últimos meses. O gestor observa que o recente início do ciclo de flexibilização monetária pelo Federal Reserve (Fed) reacendeu o apetite por ativos de maior risco no exterior, especialmente por ações fora dos EUA. Nesse contexto, os mercados emergentes, entre eles, o Brasil, voltaram ao radar.
Na avaliação dele, os próximos seis meses devem ser marcados pela política monetária americana, enquanto o foco do semestre seguinte tende a se voltar para o Brasil, movimento que pode sustentar a busca por ativos de risco.
Apesar de os investidores estrangeiros terem adotado uma postura mais cautelosa com os aportes na bolsa local nos últimos meses, Lion avalia que a redução das tensões entre Brasil e Estados Unidos, desde o encontro entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva na Organização das Nações Unidas (ONU), é positiva e que o país pode continuar a atrair fluxos desse perfil de alocador daqui para frente.
“O Brasil correu o risco de ter virado um país não ‘investível’ no mundo [com as sanções de Trump]”, diz. “Passaram-se dois, três meses e esse risco foi diminuindo. Parece que com o abraço do Lula e do Trump, o negócio realmente foi para um risco bem baixo e vamos caminhar para algo mais razoável. Para uma negociação que deixa essa questão meio que resolvida”, avalia o gestor.
Lion reconhece que há dificuldade de entender quem será o “comprador marginal” de bolsa neste momento, em virtude da baixa alocação de estrangeiros, institucionais e individuais na B3. Mas diz que a percepção não é muito diferente da observada no início do ano.
“Essa sensação é a mesma que a gente estava em março. A questão é que a bolsa saiu de 120 mil pontos para 145 mil pontos, um pouco por causa desse movimento macroeconômico global”, argumenta. “O que eu imagino que já começou e que vai continuar é a redução do movimento anterior, de não ter nada de bolsa”, acrescenta.
O executivo admite não ver um “grande investidor de bolsa” nos próximos meses, mas pondera que o Ibovespa deve continuar a ser beneficiado pelo movimento de diversificação para fora dos Estados Unidos, juntamente com uma volta dos institucionais, à medida que esse tipo de investidor notar que é importante retomar uma posição pequena em renda variável local.
A visão mais otimista com a bolsa local fez o fundo long biased da casa realizar uma mudança gradativa ao longo dos últimos meses. O executivo conta que o fundo virou o ano com uma alocação líquida comprada em 40%, que foi elevada até chegar a 75% recentemente.
De olho em um cenário que deve ser de juro elevado e de desaceleração mais suave da atividade econômica, ele conta que uma das posições mais relevantes nos fundos de ações da gestora está em Bradesco.
“O banco está entregando direitinho e a parte de crédito sendo bem tocada. Eles fizeram várias mudanças estruturais lá atrás e isso demora a aparecer. Existe um risco, mas estamos acompanhando no dia a dia e o negócio está bem encaminhado para o ‘valuation’ de Bradesco hoje”, observa o executivo.
Outras apostas estão em companhias resilientes do ponto de vista operacional, caso de Multiplan, dentro de shoppings centers. Já no setor elétrico, Copel, Eletrobras e Eneva são alguns dos nomes preferidos da casa.
Na ponta contrária, Lion conta que está com uma visão menos construtiva para ações de commodities, no geral, com exceção das ações da Vale, em que o gestor montou uma posição tática comprada no papel. “O resultado operacional do terceiro trimestre pode vir melhor em termos de volume e de preço para a Vale. Não é nada estrutural e gigante, mas compramos um pouco.”
O executivo também diz ter uma visão mais cautelosa para ações de seguradoras. Ele afirma que o resultado do terceiro trimestre será beneficiado pela rentabilidade financeira elevada da reserva técnica das companhias, em virtude do nível da taxa básica de juros, o que deve perder força mais para frente. “Se estivermos certos de que a Selic vai cair no primeiro trimestre, com o mercado precificando 250 bps [pontos-base] de corte, essa rentabilidade [da reserva técnica] vai cair. Prefiro estar em outros ativos em que será positiva essa queda dos juros”, observa.
Fonte: Valor Econômico
