Por Gabriel Caldeira e Victor Rezende — De São Paulo
19/01/2023 05h01 Atualizado há 5 horas
Não surtiu efeito a pressão dos mercados financeiros para uma postura menos “frouxa” do Banco do Japão (BoJ) na condução da política monetária. Apesar da disparada dos juros de longo prazo nos últimos dias no país, a autoridade monetária deixou sua política totalmente inalterada na decisão de ontem. A taxa de depósito segue negativa, em -0,1%, e o instrumento de controle da curva de juros, que determina uma faixa restrita de oscilação das taxas de longo prazo, continua em pé. Os efeitos nos mercados foram imediatos e, ontem, os juros globais caíram em bloco.
Após a surpresa de dezembro, quando o BoJ flexibilizou o controle da curva de juros e passou a permitir que o rendimento dos bônus do governo japonês (JGBs) de dez anos passassem a oscilar entre -0,5% e +0,5%, o mercado passou a testar o BC japonês, que, por sua vez, começou a intervir com mais frequência nos mercados de renda fixa para impedir aumento forte dos juros de longo prazo. Nos últimos dias, porém, a taxa do JGB de dez anos ultrapassou o limite máximo estabelecido pela autoridade monetária e chegou a 0,585%.
Ontem, porém, logo após o BoJ decidir manter inalterada a política de controle da curva de juros, os reflexos foram vistos não somente no mercado de JGBs, mas na renda fixa global. O retorno do JGB de dez anos despencou de 0,504% para 0,422%. Queda relevante também foi observada nos mercados europeus, onde o retorno do Bund alemão de dez anos caiu de 2,175% para 2,025%, enquanto nos Estados Unidos o juro da T-note de dez anos passou de 3,549% para 3,373%, também influenciado por indicadores da economia americana mais fracos que o esperado.
Antes da decisão, havia ampla expectativa no mercado de que o BoJ pudesse ampliar ainda mais a banda de flutuação dos juros de longo prazo ou mesmo abandonar o instrumento por completo. O economista-chefe para Japão do Goldman Sachs, Naohiko Baba, avalia que a inação do banco central japonês, em meio à turbulência nos mercados de renda fixa e à forte volatilidade do iene, indica que o BoJ vai manter a política monetária ultra-acomodatícia ao menos até abril, quando chegará ao fim o mandato do atual presidente da instituição, Haruhiko Kuroda.
Baba avalia que a reunião de janeiro representava a última oportunidade do BoJ alterar sua postura antes da saída de Kuroda após dez anos no cargo, já que o próximo encontro, em março, ocorrerá menos de um mês antes do novo presidente tomar posse. Para tentar sustentar o rendimento dentro dos percentuais desejados, o BoJ tem comprado volumes recordes de JGBs. Somente em janeiro, já foram cerca de 17 trilhões de ienes em compras, um recorde para apenas um mês.
A economista Ayako Fujita, do J.P. Morgan, observa que a manutenção da política monetária pelo BoJ indica que a autoridade pretende alterar o controle da curva de juros e retirar parte da acomodação monetária ao longo de 2023, mas de forma gradual.
“Sem sinais de superaquecimento na economia doméstica ou inflação, o BoJ provavelmente preferiria normalizar gradualmente a política, de maneira controlada. Esperamos que o BoJ se concentre em melhorar a funcionalidade do mercado por enquanto, mas esperamos que o banco alargue novamente a banda do controle da curva de juros em meados de 2023, para o intervalo de -1% a 1%”, diz a economista em relatório enviado a clientes.
Para Fujita, alargar os limites estabelecidos para a oscilação dos juros de longo prazo daria equilíbrio ao controle da curva, além de espaço para que o BoJ o abandone posteriormente e, em meados de 2024 ou mais tarde, retire os juros do território negativo. Vale apontar que o Japão é, no momento, o único país que ainda sustenta as taxas de juros de referência abaixo de zero.
Economista-chefe para Japão do ING, Min Joo Kang também lê a decisão do BoJ como um indicativo de que a autoridade monetária tentará apertar sua política sem causar muito estresse nos mercados. “O BoJ manterá sua política negativa de juros e controle da curva até o final de 2023, por enquanto. Esperamos que o novo presidente primeiro ajuste a comunicação e, depois, solicite uma revisão da política”, argumenta Kang.
Outra decisão do BoJ que chamou atenção do mercado foi uma mudança que permite ao BC realizar empréstimos colateralizados a bancos com prazos de até dez anos sob taxas variáveis. Antes, essas operações só ocorriam sob taxa fixa de 0%.
De acordo com o economista Duncan Wrigley, da Pantheon Macroeconomics, a mudança deve reforçar a efetividade do controle da curva de juros. “O BoJ poderá reduzir os juros no mercado oferecendo fundos com taxas negativas aos bancos, e Kuroda deu a entender que o banco fará uso dessa opção. Além disso, o BoJ poderá oferecer fundos baratos em prazos menores que dez anos, para suavizar a curva de rendimento”, diz em relatório.
Fonte: Valor Econômico
