O Brasil passou meses fora dos holofotes enquanto Donald Trump reconfigurava o comércio global. Agora que voltou ao centro das atenções, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode acabar se beneficiando dessa exposição.
Horas após o presidente dos EUA ameaçar aplicar tarifas de 50% ao Brasil, o líder conhecido universalmente como Lula anunciou que, em vez de correr para apaziguar Trump, seu governo responderia com medidas próprias.
Essa decisão coloca o Brasil em rota de colisão com seu segundo maior parceiro comercial justamente quando Lula já enfrenta uma economia em desaceleração, perspectivas fiscais frágeis, aprovação eleitoral enfraquecida às vésperas de um ano eleitoral — e a possibilidade de mais uma pressão cambial, após o real despencar com a notícia da quarta-feira.
Mas, ao contrário de outros alvos das cartas tarifárias de Trump, Lula talvez não tenha muita escolha a não ser resistir.
Com Trump alegando uma “caça às bruxas” contra seu aliado Jair Bolsonaro e criticando ações tomadas contra empresas de redes sociais dos EUA, pessoas próximas a Lula afirmam que há pouca esperança de evitar as tarifas, já que envolvem questões judiciais sobre as quais ele não tem poder de atuação.
“O desafio é que a justificativa é política, baseada no julgamento do ex-presidente Bolsonaro e nas redes sociais,” disse Christopher Garman, diretor-gerente da consultoria de risco político Eurasia Group. “São temas inegociáveis.”
Isso se soma à inimizade que eclodiu repentinamente entre os dois líderes, tornando improvável uma reconciliação — ainda mais diante da preparação de Lula para uma quarta candidatura em 2026.
Ameaças ‘irresponsáveis’
O líder brasileiro estava sediando a cúpula do bloco dos BRICS no Rio de Janeiro no último fim de semana quando Trump surgiu com ameaças adicionais de tarifas contra os membros do grupo por “políticas antiamericanas”. A declaração do bloco criticava tarifas distorcivas de comércio e ataques aéreos contra o Irã — críticas diretas a Trump, ainda que sem citá-lo nominalmente.
Lula respondeu na segunda-feira, chamando as ameaças de “irresponsáveis”. Trump também saiu em defesa de Bolsonaro, que enfrenta julgamento sob acusação de tentativa de golpe após sua derrota eleitoral em 2022. Lula retrucou, afirmando que Trump não deveria se meter nos assuntos internos do Brasil.
O presidente dos EUA já havia atacado os BRICS anteriormente, então a posição de Lula como presidente rotativo do bloco o colocou na linha de frente após a declaração crítica e os apelos do grupo por reduzir a dependência do dólar no comércio internacional.
Mas o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, também criticou as ameaças tarifárias de Trump — e, ainda assim, Trump manteve a tarifa de 30% sobre o país, proposta inicialmente em abril. O Brasil, que estava prestes a enfrentar a tarifa mínima de 10% segundo o anúncio das chamadas tarifas recíprocas, agora encara um aumento para 50% — mesmo mantendo déficit na balança comercial de bens com os EUA.
Isso reforça o caráter político das queixas de Trump, e não questões comerciais como causa principal. Aliados de Trump há muito atacam o Supremo Tribunal Federal do Brasil tanto pelo caso Bolsonaro quanto por sua atuação contra as chamadas fake news, classificando-o como uma ameaça à liberdade de expressão. Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, passou meses nos EUA fazendo lobby junto ao governo americano para que adotasse medidas contra o Brasil.
Na carta enviada por Trump, foi feita ligação direta com o julgamento, afirmando que as novas tarifas seriam “devidas em parte aos ataques insidiosos do Brasil contra eleições livres e os direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos.” O julgamento de Bolsonaro, que deve começar ainda este ano, “não deveria ocorrer”, escreveu ele. “É uma caça às bruxas que deveria terminar IMEDIATAMENTE.”
O caso é independente do governo Lula, o que limita qualquer possibilidade de intervenção por parte do presidente. As declarações de Trump, no entanto, pareciam feitas sob medida para empurrar Lula a adotar postura de confronto — e o presidente brasileiro deixou claro rapidamente que pretendia reagir.
Após o anúncio, o Ministério das Relações Exteriores convocou o encarregado de negócios dos EUA pela segunda vez em poucas horas — e usou a reunião para devolver a carta de Trump, classificando-a como ofensiva, segundo um funcionário com conhecimento direto da situação.
Lula passou a considerar recolher o embaixador brasileiro em Washington, segundo outras duas fontes. Em reunião ministerial de emergência, decidiu que acusaria Trump de tentar violar a soberania de outros países, afirmando que o Brasil é apenas a vítima mais recente — assim como foram Canadá, Panamá, ou os EUA ao tentarem renomear unilateralmente o Golfo do México e buscar controle da Groenlândia junto à Dinamarca.
Aposta política
Lula, cuja carreira política começou no movimento sindical durante a ditadura militar no Brasil, também viu na disputa uma oportunidade de capital político. Com sua aprovação travada abaixo dos 50% há meses, o presidente agora pode argumentar que Trump está tentando interferir nos assuntos políticos do país, sabotar sua economia e transformar o Brasil em quintal dos EUA, disseram os assessores.
A direita brasileira ainda decide como reagir a Trump. Eduardo Bolsonaro elogiou a ameaça tarifária, mas a bancada do agronegócio — tradicional base de apoio de Bolsonaro — defendeu “cautela, diplomacia firme e presença ativa na mesa de negociações”.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, potencial candidato da direita em 2026, criticou Lula, mas evitou comentar as medidas de Trump. Bolsonaro limitou-se a citar um provérbio bíblico:
“Quando os justos governam, o povo se alegra; mas quando os ímpios dominam, o povo geme.”
Riscos embutidos
A estratégia de Lula não está isenta de riscos. A promessa de retaliação — com base em uma lei de reciprocidade econômica sancionada logo após o anúncio das tarifas recíprocas por Trump — pode dar início a uma escalada semelhante à guerra comercial entre EUA e China. Nesse caso, as tarifas foram ampliadas gradualmente até ambas as partes negociarem uma trégua.
Segundo projeções da Bloomberg Economics, a tarifa de 50% pode provocar uma queda de até 1% no PIB do Brasil. E embora o país tenha alguma capacidade de redirecionar exportações para outros mercados, como Pequim, uma desvalorização adicional do real pode agravar os esforços do Banco Central para conter a inflação — um problema que já pesa sobre a popularidade de Lula neste ano.
Isso cria um incentivo para buscar negociações. O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou, antes do anúncio, que o Brasil pretendia seguir nesse caminho. Mas o governo Lula teve pouco sucesso ao tentar evitar as tarifas sobre o aço, e agradar Trump em temas mais amplos pode ser ainda mais difícil.
Ainda assim, com um déficit comercial modesto com os EUA, o Brasil exibe exatamente o tipo de relação que Trump costuma exigir. Como Lula agora percebe, isso pode não importar mais. E outros atritos se avizinham, com o Brasil prestes a sediar a cúpula climática da ONU ainda este ano, após Trump ter novamente retirado os EUA do Acordo de Paris.
“Respeite o Brasil”, afirma o governo em uma campanha relâmpago de relações públicas lançada na madrugada de quinta-feira. O presidente “afirma a soberania nacional” e o Brasil “não aceitará ser tutelado por ninguém”, diz a nota.
Parece que a campanha presidencial de 2026 acabou de começar.
Fonte: Bloomberg
Traduzido via ChatGPT
