Todos os anos, investidores do mundo inteiro se reúnem em Omaha, no estado do Nebraska, para acompanhar o evento anual de acionistas da Berkshire Hathaway, em busca de ouvir e tirar o máximo proveito possível de Warren Buffett, considerado por muitos um dos maiores investidores do mundo.
Mas, ao contrário de todos os anteriores, a reunião deste ano, que recebeu o slogan “The Legacy Continues”, foi a primeira a não ser conduzida pelo “Oráculo de Omaha”, que passou o bastão para Greg Abel, que tocou por muitos anos o segmento de energia da gigante do meio-oeste americano.
Pude participar pela primeira vez do evento, marcante em diversos aspectos. Um deles é poder estar de fato muito próximo de uma figura que ficará marcada na história do capitalismo americano e na vida de muitos investidores como eu.
Se antes, na cabeça dos investidores, existam dúvidas de como Buffett iria alocar seus bilhões de dólares em caixa investidos em títulos do governo americano, neste ano os investidores se perguntaram: “O que vai ser a Berkshire na era Abel?”
A árdua tarefa de substituir Buffett
Greg Abel foi nomeado como sucessor de Buffett ainda em 2021 e , desde o início de 2026, tornou-se oficialmente CEO. Ele chegou à firma há mais de 25 anos atuando primeiro no setor de energia e, depois, como vice-presidente do conselho de todos os negócios excluindo seguros.
Durante o evento, o sucessor mostrou muito respeito a Buffett, mencionando várias vezes o seu legado e que a cultura da empresa será mantida, apesar de sabermos que ele já vem tomando decisões estratégicas há alguns anos. E, para reforçar que a escolha foi 100% acertada, o momento mais marcante foi quando Warren Buffett da plateia pega o microfone para dar algumas palavras.
Para comentar transições, Buffett deu o exemplo da Apple quando, em 2011, Tim Cook assume o cargo de CEO no lugar de Steve Jobs. Na época, a Apple tinha valor de mercado de US$ 350 bilhões, menos de um décimo dos US$ 4 trilhões que atingiu recentemente, e Cook não era conhecido como é hoje e, quando olhamos para trás, vemos tudo o que ele pôde fazer pela empresa.
Ou seja, a passagem de bastão pode gerar dúvidas e questionamentos, mas as empresas se preparam para esse momento. Para finalizar, Buffett disse com muito carisma que ficou feliz com o retorno que a Apple gerou ao seu portfólio de ações, e ainda mais feliz por não ter precisado fazer absolutamente nada para isso, mostrando que a tomada de decisão de cases de sucesso já vem sendo tomada por outros executivos.
Os negócios da Berkshire
Pela manhã, Abel trouxe os principais destaques das subsidiárias do grupo, além de trazer alguns dos principais executivos para as sessões de perguntas e respostas. Participaram Ajit Jain, responsável pelo negócio de seguros, e novos executivos como Katie Farmer (ferrovias) e Adam Johnson (manufatura, consumo e serviços), sinalizando uma gestão mais colegiada e dando visibilidade à “segunda linha” que tocará a companhia nos próximos anos.
Foi curioso notar que esses e outros executivos que estão liderando as empresas do conglomerado possuem em média 30 anos de empresa, ou seja, as mesmas pessoas trabalham juntas há muito tempo e isso faz com que momentos de transição possam ocorrer de uma maneira mais natural, algo enfatizado por Ajit Jain quando menciona que há 35 anos é o mesmo grupo de pessoas tomando as decisões do segmento em que ele atua.
Impactos macroeconômicos
A visão de longo prazo da firma deixa questões sobre o momento macroeconômico para segundo plano. Ainda assim, houve uma pergunta sobre como estão lidando com o aumento do preço de energia. A resposta: “estamos acompanhando e entendemos os impactos, mas, já passamos por outros choques de preço como o atual e sabemos como ajustar as nossas operações para enfrentar esses momentos”. Ou seja, fica claro que a experiência dos executivos e a visão ampla prevalecem, e que não vão tomar nenhuma decisão precipitada.
“Não vamos investir em IA só por investir”
Abel comentou que a Berkshire continua com uma abordagem cautelosa no uso e gerenciamento de IA nos negócios, mas que estão acompanhando de perto e trabalhando para implementar novas tecnologias onde realmente possa ter um ganho de escala e /ou eficiência operacional. Para finalizar, disse: “não vamos investir em IA só por investir”. Os outros executivos também comentaram e disseram estar monitorando os avanços e qualquer implicação para o futuro.
Posição de caixa
A Berkshire Hathaway encerrou o primeiro trimestre de 2026 com uma posição recorde de caixa em torno de US$ 380 bilhões, grande parte aplicada em títulos do Tesouro Americano de curto prazo.
Na tradicional entrevista ao vivo com Becky Quick, da CNBC, Warren Buffett foi transparente ao afirmar que este não lhe parece o melhor momento para a alocação desse caixa. O raciocínio segue a filosofia que ele repetiu ao longo de todas essas décadas, ecoada por Abel durante o evento.
Investimento em Japão
No eixo internacional, o grande destaque foi a ampliação da tese Japão, com a Berkshire adquirindo cerca de 2,5% do capital da Tokio Marine, maior seguradora do país. O movimento marca uma evolução em relação às posições passivas em outras empresas japonesas.
Agora, a Berkshire passa a ter exposição direta a um player relevante do setor, exatamente em uma área em que o grupo acumula décadas de experiência e vantagens competitivas. Abel menciona que não possuem qualquer plano de se desfazerem dessas posições no curto prazo.
Cultura, integridade e filosofia de investimento
Chegando ao final, muitas perguntas foram feitas a respeito da filosofia de investimento daqui para frente, além de o próprio Abel discorrer bastante sobre o assunto. Ele enfatizou que a cultura de tomada de decisão decentralizada e sem burocracia, a integridade e responsabilidade dos executivos que comandam os negócios, e a filosofia de investimento de longo prazo e alocação de capital eficiente não mudarão.
Em sua carta anual, Abel comenta uma frase de Charlie Munger, ex-VP da Berkshire e braço direito de Buffet falecido em 2023, a um mês de completar 100 anos de idade: “Greg irá manter a cultura da empresa”.
Para finalizar, Abel passou um trecho de um depoimento de Warren Buffett a respeito de integridade e reputação, considerado o “hino nacional” da firma de investimentos: “Perca dinheiro para a empresa e vou entender. Perca um fio da nossa reputação, e teremos um problema, serei implacável.”
Lição para nós, investidores
O que podemos levar de mais um evento anual da Berkshire que marca a passagem de bastão oficial do comando da empresa?
Primeiro, a ênfase que Abel, Buffett e todos os executivos deram sobre a importância da cultura para a continuidade dos negócios. Segundo, a diversificação, seja em diferentes segmentos da economia e a diversificação geográfica com os investimentos no Japão. Por fim, a disciplina, paciência e calma nos investimentos, para que movimentos de curto prazo não afetem a visão de longo prazo que nós investidores devemos ter quando falamos na proteção do nosso capital.
Buffett marcou gerações e a história do capitalismo americano, Abel traz uma nova cara a empresa, do seu jeito mais sério, mas mantendo os valores que a Berkshire construiu ao longo dos anos. Desejo todo o sucesso a essa nova era, com Abel à frente.
*Bruno Yamashita é coordenador de alocação e inteligência da Avenue
Fonte: Pipeline