Por Victor Rezende e Arthur Cagliari — De São Paulo
13/06/2022 05h02 Atualizado há 4 horas
Com uma inflação que tem permanecido em níveis historicamente elevados ao redor do globo e que continua a ser o principal problema a ser combatido, os bancos centrais não podem baixar a guarda, o que indica um ambiente de juros para cima e de aperto das condições financeiras. “A inflação é o problema a ser atacado e os bancos centrais vão ter que gerar desaceleração na atividade”, afirmou, ao Valor, o gestor responsável pelas estratégias de renda fixa na Bahia Asset Management, Thiago Mendez.
Em suas apostas, a gestora opta por posições tomadas (aposta na alta das taxas) na parte curta das curvas de juros. “Achamos que o trabalho tem de ser feito agora”, observa Mendez. “A dificuldade dos bancos centrais vai ser maior daqui alguns trimestres, em um momento em que a atividade vai estar mais fraca, mas ainda com uma inflação muito alta”, diz.
Quando esse momento chegar, Mendez acredita que os bancos centrais terão de demonstrar força. “Acho que agora a queda de juros vai demorar, porque a inflação não vai cair tão rápido, mesmo com a atividade mais fraca.”
Enquanto alguns bancos centrais estão atrasados no processo de aperto das condições monetárias, outros têm se mostrado mais avançados nesse processo, como é o caso do Brasil. Mendez destaca, porém, que o quadro de inflação é bastante preocupante e que, mesmo com o IPCA de maio abaixo do esperado, o quadro inflacionário “está longe de representar algum conforto para o Banco Central”. Nesse sentido, a Bahia Asset mantém a expectativa de que a Selic deve chegar a 13,75% em agosto.
“A gente entende que o BC está vivendo um momento de muita incerteza. Ele tentou, por diversas vezes, dar uma previsibilidade maior, mas foi atropelado pela volatilidade do ambiente e pela velocidade com que a inflação subiu. A Selic está muito alta, mas isso é para fazer frente a uma inflação também muito alta”, diz. Assim, para o gestor, é necessário que a autoridade monetária deixe claro para os agentes que está disposta a trazer a inflação de volta para a meta.
“A inflação vai cair, mas nossa perspectiva é a de que vai ser devagar e com uma composição muito ruim. A inflação de 2023 vai ter núcleos muito acima da meta. É prematuro falar em quedas de juros no início do ano que vem”, afirma Mendez. Ele diz acreditar que o BC precisa ter “sangue frio” e continuar focado no combate à inflação. Para a Bahia Asset, a taxa Selic deve encerrar 2023 em 11,75% anuais.
O aumento dos riscos fiscais, diante de iniciativas do governo para conter os preços dos combustíveis, também estão no radar. Para ele, o impacto fiscal das medidas que têm sido debatidas é relevante, em um contexto de arrecadação muito forte. O gestor nota que o governo central se encaminhava para um ano de superávit. “O risco é não parar por aí e ficar uma conta muito grande a ser paga no futuro.”
Isso, porém, não tira o apelo de posições compradas no real. “O par ordenado de juros altos e preços de commodities altos é o principal vetor que tende a deixar o real mais atrativo no relativo”, argumenta. Embora faça uma ressalva em relação aos riscos fiscais de curto e de médio prazo, Mendez afirma que a gestora tenta focar no momento cíclico da economia. “Estamos mais animados com o caráter cíclico do que com a parte estrutural”, diz.
Ainda no câmbio, o gestor afirma que o dólar está muito valorizado e pondera que, mesmo que haja motivo para isso, é preciso reconhecer que os juros também estão subindo em outros lugares e que há, ainda, um movimento de alta no preço das commodities, que beneficia outras regiões.
No caso do euro, mesmo que se beneficie com os rumos da política do Banco Central Europeu (BCE), no longo prazo a moeda deve perder força. “A direção do euro mudou com o conflito entre Rússia e Ucrânia porque a balança comercial tomou um choque negativo em termos de troca. Também teve o aumento da inflação. Foi um choque estagflacionário. Olhando um horizonte mais longo, o euro está emparedado nesses vetores”, afirma.
Nesse sentido, Mendez vê Canadá e Noruega como vencedores. No caso do primeiro, nota que o país “é exportador de commodities energéticas, seu banco central está na frente do Fed e está bem posicionado para suprir o novo arranjo geopolítico [com menor participação russa]”. Já a Noruega conta com bom arcabouço, não só na parte de petróleo e gás natural, “mas também em programa de energias renováveis”.
Fonte: Valor Econômico
