Por André Mizutani — De São Paulo
27/07/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
O Federal Reserve (Fed, o BC americano) precisa se concentrar no combate à inflação e não pode oferecer tanto suporte para a economia como em crises passadas. Essa é a avaliação de Michael Strobaek, chefe global de investimentos do Credit Suisse. “Os bancos centrais não podem mais bancar os bombeiros e devem usar todas as suas ferramentas para combater a inflação, deixando pouco espaço para qualquer outra coisa”, diz.
Strobaek afirma, em entrevista ao Valor, que não é tarde demais para que os bancos centrais consigam controlar a inflação, e até mesmo o Banco Central Europeu (BCE) – que anunciou a sua primeira elevação de juros em 11 anos apenas na semana passada – tem demonstrado estar disposto a fazer o que for preciso para isso. O executivo destaca ainda que “quando se trata de uma inflação tão alta, é importante combatê-la de forma rápida e decisiva”. Leia os principais trechos da entrevista.
Valor: Estamos vendo os bancos centrais apertando a política monetária rapidamente. O sr. espera que o Fed continue com isso mesmo em meio aos temores de recessão?
Michael Strobaek: É uma situação extraordinária que estamos vendo: o crescimento econômico em desaceleração e, ao mesmo tempo, o Fed elevando os juros agressivamente, o que dá uma sensação ruim aos investidores. Trabalho há mais de duas décadas e ainda não havia experimentado nada parecido. Por mais de 30 anos nos acostumamos com os bancos centrais ajudando sempre que ocorre uma crise. Eles apoiaram os mercados financeiros e a economia oferecendo ampla liquidez, tanto na crise financeira de 2008 quanto na pandemia de covid-19, mas essa abordagem não é possível desta vez, porque agora a inflação é o problema central. Os BCs não podem mais bancar os bombeiros e desta vez precisam usar todas as suas ferramentas para combater a inflação, deixando pouco espaço para qualquer outra coisa.
Valor: O que o sr. espera para esta reunião do Fed?
Strobaek: Os integrantes do Fed enfatizaram que precisam ver evidências claras e convincentes de que a inflação atingiu o pico, além de uma série de leituras de que a inflação está desacelerando antes de mudarem o ritmo de elevação dos juros. O aumento maior do que o esperado no [índice de preços ao consumidor] de junho fortalece o argumento a favor de antecipar as altas de juros. Para esta reunião do Fed, nosso cenário-base continua sendo um aumento de 0,75 ponto percentual nas taxas de juros e continuamos esperando que o Fed eleve os juros agressivamente, para a faixa entre 3,50% e 3,75%, até o final do ano.
Valor: O sr. acredita que essa escalada de juros levará a economia americana a uma recessão?
Strobaek: Quando se trata de uma inflação tão alta, é importante combatê-la de forma rápida e decisiva. O Fed agora está se movendo rapidamente para apertar a política, e aumentos agressivos de juros provavelmente persistirão até que a inflação desacelere de forma convincente, mas não esperamos que isso aconteça antes que empurre as taxas para um território restritivo. Os riscos estão aumentando e uma queda prolongada no crescimento é cada vez mais provável, mas esse resultado ainda não é nosso cenário-base para os próximos 12 meses. A política monetária mais apertada e o estresse nos mercados financeiros estão começando a afetar o crescimento e a confiança na economia real. A nosso ver, a inflação deve esfriar a partir do segundo semestre e isso deve ajudar a manter o nível de credibilidade necessário para orientar as expectativas do mercado de forma eficaz. Os dados continuarão sendo obscurecidos por ruídos e levará algum tempo para o Fed estar confiante na melhora do quadro inflacionário, o que deve manter a pressão por mais aperto monetário.
Valor: O BCE está atrasado em relação ao Fed, mas surpreendeu os mercados com um aumento de 0,5 ponto percentual. Ele ainda tem tempo para conter a inflação?
Strobaek: Não é tarde demais para conter a inflação. O BCE está se mostrando disposto a fazer ‘o que for preciso’, abandonando a orientação anterior de aumentos de juros ‘graduais, mas sustentados’ e substituindo-a por uma abordagem dependente dos dados econômicos e que será reavaliada de reunião em reunião. Em um mundo de incertezas sobre a inflação, este é um passo decisivo na direção certa. Projetamos que a inflação não atinja seu pico antes de setembro e esperamos que o BCE aumente as taxas em pelo menos 0,5 ponto tanto na reunião de setembro quanto na de outubro.
Valor: A temporada de balanços começou com alguns resultados piores do que o esperado para os bancos. Isso preocupa?
Strobaek: O setor financeiro provavelmente será um dos mais fracos no trimestre em termos de crescimento dos lucros. As estimativas de consenso esperam que as finanças tenham visto uma queda de 21% no lucro por ação (EPS) devido a efeitos de uma base de comparação desfavorável, após os fortes resultados entregues no segundo trimestre de 2021. Além das movimentações em torno das provisões para inadimplência, o foco também estará nos negócios imobiliários, uma vez que os aumentos das taxas hipotecárias e a queda nas vendas de casas pesam sobre o crédito novo e no número de refinanciamentos. No entanto, juros mais altos devem levar a melhores margens para os bancos.
Valor: O sr. espera que o dólar continue subindo?
Strobaek: O dólar é o vencedor indiscutível do primeiro semestre do ano. A combinação de um Fed ‘hawkish’ [favorável ao aperto monetário] e volatilidade crescente do mercado continua a fornecer ao dólar um forte apelo de porto seguro. Daqui para frente, o dólar deve continuar a se beneficiar de um crescimento econômico relativamente melhor e de aperto rápido da política monetária nos EUA.
Valor: Como vê o cenário para os mercados emergentes?
Strobaek: Com a exceção da China, muitas economias de mercados emergentes serão afetadas de uma forma ou de outra pelos atuais tremores financeiros globais e pelo crescimento mais fraco, independentemente das ações de política monetária que possam tomar domesticamente. O canal mais direto seria por meio de uma demanda externa mais fraca para as exportações de emergentes. Nesse sentido, países mais orientados para a exportação sofreriam um impacto maior de uma desaceleração global mais profunda.
Valor: Quais são as suas projeções para a América Latina?
Strobaek: Olhando especificamente para a América Latina, México, Colômbia e Chile são alguns dos países que seriam mais vulneráveis a uma desaceleração econômica mais acentuada por meio dos canais de comércio externo. O México se destaca como o que seria mais afetado pela desaceleração global, principalmente se for liderada pelos Estados Unidos.
Valor: E para o Brasil, quais são as expectativas?
Strobaek: Nossos economistas projetam um crescimento real do PIB em 2022 de 2% para a América Latina, acima da nossa projeção de 1,6% no último trimestre, impulsionado principalmente por melhores perspectivas para o Brasil. Para 2023, nossa previsão de crescimento regional é de 0,7%, uma queda acentuada em relação aos 2,4% das projeções de três meses atrás, impulsionada por um enfraquecimento das expectativas de crescimento entre os países. Após o forte crescimento econômico no primeiro trimestre de 2022, esperamos que a economia brasileira desacelere no resto do ano, devido ao menor nível de poupança das famílias, um impacto menor da reabertura da economia e os efeitos defasados das taxas de juros domésticas mais altas. A combinação de juros reais superiores ao crescimento econômico, déficits primários recorrentes do governo central e dívida bruta elevada colocou a dívida pública do país no que vemos como uma trajetória insustentável para o médio prazo.
Fonte: Valor Econômico
