Por Sergio Lamucci, Valor — Brasília
17/05/2023 09h30 Atualizado há 15 horas
Os bancos centrais de países emergentes devem se manter firmes na manutenção de suas políticas, reconhecendo que um aperto monetário insuficiente agora pode exigir ações ainda mais dolorosas mais à frente, disse nesta quarta-feira Gita Gopinath, primeira-vice-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI). “As pressões sobre os preços parecem persistentes em várias economias, e os riscos de alta da inflação são consideráveis”, afirmou, na palestra magna da Primeira Conferência Anual do Banco Central (BC), realizada em Brasília, fruto da unificação do seminário anual de Metas para a Inflação e do seminário anual de Estabilidade Financeira e Economia Bancária. O BC brasileiro sofre pressões do governo para reduzir a Selic, atualmente em 13,75% ao ano.
Gopinath também destacou que a restrição fiscal pode ajudar no apoio ao combate à inflação pelos bancos centrais. Uma expansão fiscal ampla é contraprodutiva para economias lutando contra índices de preços elevados, especialmente mercados emergentes, apontou ela. Para Gopinath, ferramentas financeiras, usadas judiciosamente, também podem auxiliar se houver um quadro de estresse financeiro mais grave.
A número 2 do FMI disse que a independência dos BCs deve ser mantida, junto com aperfeiçoamentos adicionais na transparência e na comunicação. “Melhores arcabouços de políticas — tanto monetárias quanto financeiras — permitiram aos bancos centrais de mercados emergentes perseguirem políticas anticíclicas durante a crise financeira global e a pandemia da covid-19”, afirmou Gopinath.
Para ela, esses arcabouços ajudaram esse grupo de países a se sair bem, num quadro marcado pelo aperto monetário mais forte promovido pelos BCs das economias desenvolvidas em várias décadas. E eles devem continuar a servir como uma âncora de estabilidade para navegar num caminho de desafios, de acordo com Gopinath.
Segundo ela, esses arranjos de política monetária nos países emergentes protegeram o crescimento e limitaram os fluxos de saída de capitais num momento de alta dos juros nas economias avançadas. Gopinath afirmou que o crescimento dos emergentes em 2022 permaneceu forte, devendo continuar razoável em 2023. Os fluxos de saída de capitais da América Latina, por sua vez, têm sido muito menores do que em 2013, quando o Federal Reserve (Fed, o BC Americano) acenou com a retirada dos estímulos monetários.
Para Gopinath, essa maior resistência dos países emergentes se deve a reformas feitas nas últimas décadas, contribuindo para reduzir os riscos de crédito e de câmbio. Os BCs desse grupo de economias melhoraram os seus arcabouços de política monetária e se beneficiaram de maior independência, afirmou ela. No Brasil, a autoridade monetária ganhou autonomia em 2021.
No seu discurso, Gopinath argumentou que os mercados estão provavelmente muito otimistas em relação à perspectiva de queda da inflação nos países emergentes. Embora haja sinais encorajadores, ela se disse preocupada com pressões sobre os preços que parecem enraizadas em várias economias. A inflação em vários emergentes, assim como em países avançados, tem sido inesperadamente alta e persistente, enfatizou a economista. Enquanto a inflação de bens declinou com força ou mesmo se tornou negativa, a de serviços tem sido forte, notou ela, acrescentando que a alta de juros não esfriou os mercados de trabalho de modo significativo.
Gopinath afirmou que os dados recentes de atividade econômica surpreenderam em vários países pela resiliência, citando o Brasil entre eles. “O que é impressionante é que toda vez que os dados são divulgados somos surpreendidos positivamente pela sua resiliência, em muitos países. Eu estou vindo do Chile, e o primeiro trimestre no Chile surpreendeu positivamente. No Brasil, os dados que já vimos foram mais fortes do que o esperado”, disse ela. “Nos Estados Unidos ainda há uma demanda muito robusta”, afirmou Gopinath, para quem há um caminho estreito para a economia americana evitar uma recessão e ter um pouso suave.
A economista alertou ainda que inflação alta de modo sustentado pode mudar a dinâmica inflacionária. “Em outras palavras, quanto mais a inflação fica elevada, mais difícil é para derrubá-la – e maior a contração da economia que seria necessária.”
O risco é especialmente relevante para os mercados emergentes em que as expectativas de inflação não são tão bem ancoradas. Além disso, há mais indexação de preços e salários do que nas economias avançadas. Nesse quadro, há motivos de peso para os bancos centrais manterem uma política monetária apertada e para reagir agressivamente a surpresas inflacionárias. Um aperto monetário insuficiente hoje pode exigir ações mais dolorosas amanhã, disse ela, afirmando que essa é uma lição do período de inflação elevada dos anos 1970 que se aplica aos dias de hoje. (Colaboraram Larissa Garcia e Estevão Taiar)
Fonte: Valor Econômico
