Por Sérgio Tauhata — De São Paulo
03/11/2022 05h03 Atualizado
Apesar de boa parte dos bancos centrais na América Latina ter iniciado os ciclos de aperto monetário bem antes das economias avançadas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) avalia ser necessário cautela por parte das autoridades da região, diante da perspectiva de riscos tanto externos quanto internos.
Na visão do FMI, “como a inflação ainda precisa baixar e a maioria das economias [na América Latina] opera no seu potencial ou próximo dele, convém evitar uma suavização prematura da política monetária e é preciso manter a orientação atual”. A recomendação faz parte do relatório “Perspectivas Econômicas, As Américas”, lançado ontem.
Na avaliação do Fundo, “os desdobramentos recentes nas Américas, ou seja, nos EUA e Canadá, e na América Latina e Caribe (ALC), foram dominados pelo impacto de dois choques mundiais distintos: a pandemia e, em seguida, a invasão da Ucrânia pela Rússia”. O órgão alerta para um terceiro choque: o aperto “das condições financeiras agora está moldando as perspectivas”.
Os especialistas do FMI ponderam que “as pressões inflacionárias se acumularam com as rupturas relacionadas à pandemia, políticas expansionistas, a recuperação da demanda e o impacto da guerra na Ucrânia sobre os preços de energia e alimentos”. Conforme a equipe de pesquisadores, “a resposta ágil das autoridades monetárias da América Latina e Caribe à subida da inflação, bem antes de outras economias, ajudou a conter as pressões sobre os preços e manter as expectativas de inflação de longo prazo ancoradas, mas a inflação permanece alta”.
De acordo com o relatório, “em meio ao aperto monetário e financeiro mundial e, em sequência, à desaceleração do crescimento global e ao abrandamento dos preços das commodities, a previsão é que a atividade desacelere nas Américas no fim de 2022 e em 2023 e, ao mesmo tempo, as pressões inflacionárias recuem gradualmente”.
O FMI avalia, porém, haver riscos de deterioração da conjuntura diante de condições financeiras mais restritivas, de uma desaceleração mundial mais pronunciada e de uma inflação arraigada. “No caso da América Latina e Caribe, uma queda nos preços das commodities e agitações sociais são riscos importantes. A comunicação clara das intenções das políticas [monetária e fiscal] será fundamental para reduzir a incerteza e manter as expectativas de inflação ancoradas. O apoio fiscal implantado para mitigar o impacto da inflação sobre os mais vulneráveis deve ser acompanhado por medidas compensatórias, onde não houver espaço fiscal, mas também deve apoiar os esforços das autoridades para conter a inflação.”
Em termos de cenário financeiro nas cinco principais economias da América Latina (Brasil, México, Chile, Colômbia e Peru) “a atividade econômica em 2021 e início de 2022 foi apoiada pelo ressurgimento do crédito ao setor privado e, sobretudo, às famílias, apesar das condições financeiras mais restritivas”. Segundo o Fundo, “contribuiu para esse quadro a saúde dos sistemas financeiros na maioria dos países da região, que tinham reservas sólidas antes da pandemia e permaneceram bem capitalizados e líquidos durante todo o período de contração da economia [em 2020], com poucos sinais de deterioração da qualidade dos ativos”.
Na análise dos técnicos do FMI, “condições financeiras mais restritivas do que o previsto também trazem o risco de agravamento de uma dinâmica da dívida pública já frágil na ALC”.
Para o FMI, “manter gastos com juros elevados poderia se revelar difícil em meio a demandas súbitas por gastos sociais e um espaço fiscal limitado”. Com níveis elevados de endividamento público, “o nexo entre os setores soberano e bancário poderia se tornar fonte de fragilidade a algumas economias da região, onde a exposição dos bancos ao ente soberano está em alta desde 2015 e correlacionada com o nível de dívida pública”.
A América Latina corre risco de ter nova “década perdida” sem políticas que liberem o potencial de crescimento, avalia. “As grandes desarticulações econômicas e sociais causadas pela pandemia acentuaram os problemas de produtividade da ALC e aumentaram as perspectivas de uma nova década perdida.”
Segundo os técnicos do órgão, “os desafios para o crescimento da ALC foram exacerbados pela pandemia e, na ausência de políticas que liberem o potencial de crescimento da região, podemos vir a ter outra década perdida”, como ocorreu nos anos 1980 e 1990.
“A região enfrentará um 2023 mais desafiador. O crescimento desacelerará e as coisas podem ficar piores do que estão atualmente”, disse Nigel Chalk, diretor interino do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, ontem em coletiva, segundo a “AP”.
“O impacto nocivo dos altos preços de alimentos e energia, além da desaceleração do crescimento, para as populações vulneráveis é uma receita para o descontentamento social e não pode ser ignorado”, disse Chalk. “É fundamental aliviar a crise do custo de vida”, concluiu.
Fonte: Valor Econômico