Por Willem Buiter e Anne Sibert
10/06/2022 05h02 Atualizado há 4 horas
Alguns dos principais bancos centrais perderam o prumo no que se refere a cumprir sua missão de estabilidade dos preços. Em abril, a inflação em 12 meses medida pelo índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos foi de 8,3%, pouco abaixo dos 8,5% de março, enquanto o indicador inflacionário preferido do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), o índice de preços de despesas pessoais (que exclui alimentos e fontes de energia), foi de 4,9%, abaixo dos 5,2% de março. Ainda assim, o Fed faz o oposto do que realmente deveria estar fazendo.
Depois de ter elevado a faixa almejada para os juros básicos em 50 pontos-base, para 0,75% a 1%, em sua reunião de maio, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) indicou que manterá o ritmo de elevações de 50 pontos-base nos encontros de junho e julho. De acordo com a ata da reunião de maio, todos os participantes estiveram de acordo em dizer que a economia americana está muito forte, que o mercado de trabalho está extremamente apertado pela falta de mão de obra e que a inflação está muito acima da meta. No entanto, eles decidiram que o Fomc “deveria rapidamente levar a postura da política monetária para uma posição neutra”.
Nos níveis atuais, a inflação é um grave problema econômico, social e político. Quanto mais as expectativas de inflação de longo prazo se tornarem desancoradas, maior será o custo da desinflação em termos de produção perdida e emprego
Há dois problemas nisso. Primeiro, a postura de política monetária do Fed deveria ser restritiva, não neutra [que não estimula nem desestimula a economia]. Em vez disso, o Fomc apenas observou “que uma postura restritiva da política [monetária] pode até se tornar apropriada dependendo da evolução das perspectivas econômicas e dos riscos para as perspectivas”. Em segundo lugar, não há nada de rápido em dois aumentos adicionais de 50 pontos-base. O limite superior da faixa desejada para a taxa básica ainda estaria em apenas 2%, abaixo da estimativa geral do mercado para a taxa neutra de 2,5% (a soma de uma taxa neutra real de 0,5% e da meta de inflação de 2%).
O enxugamento do balanço do Fed também é mínimo. A partir de junho, suas participações encolherão em US$ 47,5 bilhões por mês (US$ 30 bilhões em títulos do Tesouro e US$ 17,5 bilhões em papéis de agências federais e em títulos lastreados por hipotecas) durante três meses, ao que se seguirá com uma sequência de reduções mensais de US$ 95 bilhões (US$ 60 bilhões em “treasuries” e US$ 35 bilhões em títulos de agências e lastreados por hipotecas) sem fim previsto no horizonte.
Isso soa como se fosse um grande enxugamento. Vale lembrar, porém, que o balanço do Fed aumentou para quase US$ 9 trilhões no fim de março de 2021. No ritmo atual de redução, levar o balanço de volta para onde estava no início de março de 2020 (cerca de US$ 4,2 trilhões) levará mais do que quatro anos. E levará mais de sete anos para atingir o nível no início de setembro de 2008 (US$ 900 bilhões), antes de o Fed ter erigido sua Grande Muralha de Liquidez em torno aos mercados financeiros.
O Fed não é o único grande banco central atrás da curva. A taxa básica de juros do Banco da Inglaterra hoje está em 1%. Ela subiu a partir de seu menor patamar histórico, de 0,1% em março de 2020, mas o BoE limitou a alta a um ritmo de elevações graduais de 25 pontos-base ou menos. Na reunião de maio do Comitê de Política Monetária (CPM), apenas três membros (dos nove) votaram a favor de um aumento de 50 pontos-base. Nas projeções de maio do CPM, a taxa implícita no mercado chega a cerca de 2,5% em meados de 2023, para depois cair a 2% em 2025.
Essa projeção das taxas parece demasiado lenta. O índice de preços ao consumidor (IPC) do Reino Unido acelerou-se de 7%, em março, para 9%, em abril, e estima-se que chegará a mais de 10% no fim de 2022. O Banco da Inglaterra projeta que uma desaceleração significativa no crescimento econômico levará o IPC para dentro da meta em 2024; mas, embora isso sem dúvida seja possível, consideramos improvável sem um aperto monetário adicional.
A região do euro, onde o IPC foi de 8,1% em maio, acima dos 7,4% de abril, a abordagem da política monetária é igualmente inexplicável. Ainda assim, a taxa de juros do Banco Central Europeu (BCE) para suas principais operações de refinanciamento continua em zero, enquanto a taxa de depósito está em 0,5% negativo. O economista-chefe do BCE, Philip Lane, indicou que depois do fim das compras líquidas de ativos em julho, o CPM europeu promoverá elevações de 25 pontos-base nas reuniões de julho e setembro.
Por sua vez, o presidente do banco central da Áustria, Robert Holzmann, defendeu uma elevação de 50 pontos-base no encontro de julho. Mas, mesmo se o BCE elevar os juros em 50 pontos-base em julho e repetir a dose em setembro, a taxa de depósito passará a apenas 0,5%. Não importa que a inflação ainda estará concretamente acima da meta e que, com o índice harmonizado de desemprego da zona do euro em 6,8% em abril, nível mais baixo desde julho de 1990, a economia real estará próxima do superaquecimento. A atitude de tolerância do BCE com a inflação supera a do Fed e do BoE.
Os três bancos centrais deveriam adotar postura contracionista, colocando as taxas de juros acima da taxa neutra de 2,5%. Uma referência útil para uma taxa de juros apropriada é a Regra de Taylor, cuja versão original recomenda juros iguais à taxa neutra (2,5%), mais a metade da diferença porcentual entre o PIB de fato e o PIB potencial real (ajustado pela inflação), mais 1,5 vezes a diferença entre o índice de inflação real e a meta.
Suponha que assumamos, de forma conservadora, que o hiato do produto é zero em todas as três áreas de política monetária. No caso da região do euro, mesmo levando-se em conta como inflação subjacente o núcleo do IPC, de 3,8%, em vez do IPC normal, a taxa básica de juros seria de 5,2%. E como é difícil encontrar índices de inflação subjacentes nos EUA e no Reino Unido inferiores a 4%, a taxa básica de juros para o Fed e o BoE não seria inferior a 5,5%.
Longe de ser restritiva, a postura atual dos principais bancos centrais continua expansionista, com taxas de juros bem inferiores ao nível neutro (e profundamente negativas em termos reais). Todos os três, portanto, continuam a fomentar a inflação.
Nos níveis atuais, a inflação é um grave problema econômico, social e político – que prejudica em especial os mais pobres e os menos sofisticados em finanças. Quanto mais as expectativas de inflação de longo prazo se tornarem desancoradas, maior será o custo da desinflação em termos de produção perdida e emprego.
A necessária desaceleração econômica deveria ser arquitetada o mais rápido possível. Em cada uma das próximas duas reuniões do Fed e do BOE, as taxas de juros deveriam ser elevadas em pelo menos 100 pontos-base, e o BCE deveria planejar três aumentos de 100 pontos-base ou mais. O BCE não eleva sua taxa básica há quase 11 anos. Torçamos para que se lembre de como se faz. (Tradução de Sabino Ahumada).
Willem H. Buiter é professor adjunto na Universidade da Columbia, foi membro do Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra e economista-chefe do Citigroup.
Anne C. Sibert é professora de economia na Universidade de Londres – Birkbeck, foi integrante do Comitê de Política Monetária do Banco Central da Islândia. Copyright: Project Syndicate, 2022.
Fonte: Valor Econômico
