Por Arthur Cagliari — De São Paulo
21/07/2022 05h03 Atualizado há 3 horas
O Banco Central Europeu (BCE) precisa fazer seu aperto monetário antes que a economia da zona do euro entre em recessão. A avaliação foi feita ao Valor pelo estrategista de investimentos do Franklin Templeton Institute, Kim Catechis.
“Se a recessão chegar e você tiver uma economia muito mais fraca, o prejuízo de um aumento de juros é bem maior”, afirmou Catechis. “Um aumento de 0,25 ponto percentual agora não vai solucionar nada, então seria melhor subir os juros em 0,50 ponto para evitar prejuízos maiores lá na frente.”
Para o estrategista, o BCE adota o tom cauteloso porque está há 11 anos sem aumentar as taxas. “Se observado assim, 0,25 ponto é bastante coisa, mas é preciso levar em consideração também o que vai vir nos próximos 12 meses”, afirmou, acrescentando que a autoridade monetária europeia está atrasada no movimento de alta de juros.
Diante das perspectivas de um possível racionamento de gás natural na região, da guerra na Ucrânia, de tensões políticas e endividamento dos países, Catechis afirmou não ver um aumento sequencial nas taxas de juros ao longo deste ano.
Além disso, o estrategista citou que, antes de seguir com a alta de juros, o BCE precisa indicar como irá funcionar sua ferramenta contra a “fragmentação” – sinal de falta de paridade na transmissão da política monetária entre os países, medida pela diferença entre os rendimentos dos títulos públicos.
Para o encontro do BCE que acontece na manhã desta quinta-feira, Catechis disse não esperar por muitos detalhes sobre o instrumento, pois considera ainda muito cedo. “Eles precisam avaliar ainda como vai ficar a situação do [premiê italiano Mario] Draghi. Por que não esperar até setembro?”, questionou.
A menção à Itália ocorre porque o país é um dos mais endividados na zona do euro. Logo após o anúncio do BCE, em junho, de que deveria elevar seus juros pela primeira vez no encontro de julho, o spread entre os rendimentos do bund alemão de dez anos e do BTP italiano também de dez anos cresceu, preocupando a autoridade monetária.
Diante dessa crescente preocupação, o BCE teve de realizar um encontro emergencial para discutir formas de contornar a fragmentação. Por enquanto, até que surja uma ferramenta adequada, deve ser utilizado o programa de compra de ativos criado na pandemia. Mas há a preocupação de que a compra de ativos continue alimentando a inflação elevada.
Para o estrategista, se o programa for muito bem desenhado e delimitado, esse tipo de problema poderá ser evitado. Para isso, no entanto, os países também terão que ter uma contrapartida, segundo ele. “Para poder ter acesso a essa ferramenta, o país vai ter que dar evidência que segue uma política ortodoxa para controlar sua dívida”, afirmou.
“Vai ser um mecanismo sofisticado porque tem muita gente inteligente por trás”, afirmou. “O problema está em transferir a teoria para a prática, porque são muitos países e cada um se encontra em um determinado ciclo econômico e político.”
Fonte: Valor Econômico

