Por Bloomberg
05/09/2022 05h03 Atualizado há 7 horas
O Banco Central Europeu (BCE) continua atrás da curva na luta contra os preços recordes na zona do euro e terá que agir com mais força do que o previsto anteriormente para controlar a inflação, segundo pesquisa com economistas. Apesar do surpreendente aumento das taxas de juros em julho, mais de 66% dos entrevistados dizem que as autoridades foram muito lentas no combate à inflação, que alcançou os 9,1%. Agora preveem um nível mais alto dos juros no fim do ciclo de aperto, que deve ser rápido e incluiria uma alta de 0,75 ponto percentual em 8 de setembro.
Os resultados sugerem que, em vez de focar na ameaça de uma recessão iminente na região do euro, a autoridade monetária irá priorizar o controle dos crescentes preços. Uma elevação de 0,75 ponto percentual, agora também prevista pelos mercados monetários, alinharia mais o BCE à política do Federal Reserve, que já aplicou dois aumentos da mesma magnitude.
“O BCE continuará subindo os juros em ritmo acelerado e enviará uma mensagem ‘hawkish’ [inclinada a mais aperto]”, disse Nerijus Maciulis, economista do Swedbank. “Precisa reparar sua reputação e poder declarar vitória quando a inflação começar a recuar.”
Um ritmo mais rápido de aumento dos juros pode oferecer algum suporte ao euro, que mergulhou à medida que o banco central dos EUA aumentava a taxa básica. Com isso, as importações, principalmente de commodities cotadas em dólares, ficaram mais caras, agravando a crise do custo de vida que pesa sobre a economia da Europa.
A grande maioria dos analistas pesquisados prevê que o PIB vai encolher por pelo menos dois trimestres, embora mais da metade não espere uma recessão além desse período. “O BCE continuará a adotar uma linha dura contra a inflação, apesar das evidências de que o crescimento tem desacelerado”, disse Claus Vistesen, economista da Pantheon Macroeconomics. “Até esperamos que o BCE reconheça que a economia agora esteja entrando em recessão, mas que continuará a subir [os juros] de qualquer maneira.”
A presidente do BCE, Christine Lagarde, apresenta projeções atualizadas na próxima semana ao destacar o dilema da política monetária: apesar da expectativa de corte das estimativas de crescimento, as projeções de inflação devem ser revisadas para cima. A alta dos preços tende a ficar acima da meta de 2% em 2024 – sinal preocupante para autoridades que acompanham de perto as expectativas de inflação. Mas a faixa das projeções é ampla, o que reflete a dificuldade de previsão em meio às incertezas causadas pela guerra na Ucrânia.
As autoridades enfatizarão sua determinação em “continuar a aumentar os juros para reduzir a inflação”, disse Carsten Brzeski, economista do ING. “A questão sem resposta ainda é como será a ‘função de reação’ do BCE no que parece cada vez mais uma grave recessão no inverno” europeu.
Em julho, o BCE apresentou uma ferramenta para abordar possíveis problemas nos mercados de títulos, à medida que os membros mais endividados da zona do euro se acostumam com juros mais altos. Embora algumas autoridades esperem que só o fato de a ferramenta existir acalme os investidores, a maioria dos entrevistados acredita que o chamado Instrumento de Proteção da Transmissão seja ativado em algum momento.
O BCE também tem implantado com flexibilidade reinvestimentos de € 1,7 trilhão em títulos comprados durante a pandemia para ajudar os países em dificuldades. Metade dos recursos nos próximos três meses deverá ser investido em dívida italiana, com cerca de 30% dividido entre Espanha, Portugal e Grécia.
A maioria dos entrevistados espera que o Conselho do BCE discuta uma redução do balanço até o fim de março de 2023, embora as estimativas sobre quando a autoridade europeia pode começar a vender os cerca de € 5 trilhões em títulos variem muito.
Fonte: Valor Econômico
