Por Larissa Garcia e Estevão Taiar — De Brasília
11/05/2022 05h03 Atualizado há 57 minutos
Mesmo após sinalizar extensão do ciclo de alta de juros para a próxima reunião, em junho, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reforçou que ainda aposta nos efeitos defasados de política monetária para levar a inflação e as expectativas para a meta em 2023. Com isso, indicou que o ciclo de alta da taxa Selic está perto do fim.
Na ata do último encontro, publicada ontem, o colegiado afirmou que o ciclo de aperto monetário foi “bastante intenso e tempestivo” e que “ainda não se observa grande parte do efeito contracionista esperado, bem como seu impacto sobre a inflação corrente”. Isso significa que, de acordo com o BC, o impacto da alta de juros para conter a inflação ainda não foi plenamente sentido.
Na quarta-feira passada, o BC elevou a Selic em 1 ponto percentual, para 12,75% ao ano e afirmou ver “como provável” um novo aperto em junho em magnitude menor, sem especificar o tamanho desse ajuste. Antes do encontro, o Banco Central vinha indicando que o ciclo de alta terminaria em maio, mas teve de rever a postura diante da deterioração do cenário e da persistência inflacionária.
O BC já olha integralmente para 2023 no chamado horizonte relevante, período para o qual considera que a política monetária tem efeito. O intervalo tem defasagem de pelo menos nove meses, segundo o Copom. Como os apertos começaram há pouco mais de um ano – e os juros levaram um tempo até chegar ao campo restritivo (que desacelera a economia) – o comitê entende que esse efeito ainda não foi transmitido para a economia e ainda deve ter impacto na atividade econômica mais à frente.
Com isso, no balanço de riscos para a inflação, o BC avalia que a evolução do PIB em 2022 e em 2023 pesa para baixo, mesmo com desempenho dentro do previsto no curto prazo. “O crescimento econômico veio em linha com o que era esperado, mas o aperto das condições financeiras cria um risco de desaceleração mais forte que o antecipado nos trimestres à frente, quando seus impactos tendem a ficar mais evidentes”, afirmou na ata.
O Copom destacou ainda que um dos fatores que afastam as expectativas do mercado de sua própria projeção é o peso atribuído à inflação corrente nos modelos. Segundo a ata, alguns membros do colegiado consideram que a pressão de curto prazo tem contaminado as previsões de economistas de instituições financeiras e casas de análise para os próximos anos “além do esperado”. Com isso, o Copom vê menos repasse da inflação deste ano para os próximos.
O BC prevê inflação de 3,4% para 2023, bem abaixo do projetado no último boletim Focus, que traz expectativas do mercado, de 4,1%. A meta para o ano é de 3,25% com tolerância de 1,5 ponto percentual. “Além disso, algumas outras potenciais explicações foram debatidas por meio da análise de cenários alternativos”, trouxe a ata, ao citar também uma possível reversão mais lenta da inflação de bens industriais e o impacto da taxa de juros neutra nas projeções. “Por fim, os impactos inflacionários de diferentes hipóteses referentes à convergência entre o preço dos derivados e o preço do petróleo também se mostraram relevantes.”
O Copom reiterou que a inflação ao consumidor segue elevada, “com alta disseminada entre vários componentes, se mostrando mais persistente que o antecipado”. A ata destacou os preços de serviços e de bens industriais, além dos recentes choques que levaram a um aumento nos componentes ligados a alimentos e combustíveis.
“As leituras recentes vieram acima do esperado e a surpresa ocorreu tanto nos componentes mais voláteis como nos mais associados à inflação subjacente. Nos itens mais voláteis, continua se destacando o aumento do preço da gasolina, com impacto maior e mais rápido do que era previsto. Os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária seguem com inflação elevada”, apontou o colegiado.
Sobre o cenário inflacionário global, a avaliação é que as pressões se intensificaram em virtude da demanda ainda elevada por bens e de choques de oferta ligados à guerra entre a Rússia e a Ucrânia e à nova onda de covid-19 na China, que pode levar a novas restrições. “Esses fatores têm potencial para gerar pressões inflacionárias persistentes em diversas economias, particularmente nas que estão mais defasadas no processo de normalização de suas políticas fiscais e monetárias.”
Fonte: Valor Econômico