Depois que o boletim Focus consolidou um ambiente de piora das expectativas de inflação de médio prazo, a sensação de que o Banco Central deve adotar um caminho mais conservador na decisão desta quarta-feira do Comitê de Política Monetária (Copom) se mostrou ainda mais forte. O mercado de opções indica 81% de chance de um corte de 0,25 ponto na Selic, para 10,5%. O cenário é referendado pelas projeções dos principais bancos do país, que passaram a esperar de forma unânime uma redução no ritmo de flexibilização monetária.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2022/J/9/sPyisfSDGsuwD8yKF8QA/120220-20mario-20mesquita-20005.jpg)
Mario Mesquita, economista-chefe do Itau Unibanco, acredita que dados recentes sugerem maior cautela na condução dos juros — Foto: Carol Carquejeiro/Valor
Na visão do Itaú Unibanco, a evolução dos dados recentes sugere uma postura mais cautelosa por parte do comitê. Os economistas do banco citam a inflação de serviços subjacentes ainda bastante elevada; os dados de desemprego e salários que indicam um mercado de trabalho apertado; e a depreciação da taxa de câmbio em relação à reunião de março, já que houve uma piora dos fundamentos fiscais domésticos, além de um adiamento do início do ciclo de cortes de juros nos Estados Unidos.
Assim, a equipe liderada pelo ex-diretor do BC Mario Mesquita espera uma redução do ritmo dos cortes de juros nesta quarta-feira. “Essa escolha difere da sinalização utilizada na última reunião, que era consistente com mais uma redução de 0,5 ponto, mas não será de todo surpreendente, à luz das comunicações mais recentes de membros do comitê, e da magnitude das mudanças ocorridas desde então”, dizem os economistas do Itaú.
Também o Banco do Brasil avalia que as alterações no cenário global e local ocorridas em abril devem levar o Copom a reduzir o ritmo de cortes nos juros. Os economistas do banco destacam a expectativa acerca da evolução da política monetária nos EUA e seus impactos sobre a taxa de câmbio; os conflitos geopolíticos e o comportamento dos preços de commodities; e os receios sobre a sustentabilidade das contas públicas.
“Nesse sentido, em que pese a continuidade do processo de desinflação no Brasil, esperamos que o Copom se mostre mais cauteloso na condução da política monetária. Assim, nossa avaliação é de que o Copom irá alterar seu plano de voo, reduzindo a magnitude de corte de 0,5 ponto para 0,25 ponto.”, dizem os economistas do BB, que veem a Selic em 9,75% no fim deste ano.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2022/L/g/j2NVPKRSaKE6MDeHf9Lw/020822-20anbima-20031.jpg)
Para Fernando Honorato Barbosa, do Bradesco, Copom deve cortar Selic até 9,5% neste ano e taxa pode cair a 8,5% em 2025 — Foto: Foto: Carol Carquejeiro/Valor
Sinal semelhante foi adotado pelo Bradesco, que antecipou ao Valor sua expectativa de corte de 0,25 ponto percentual na Selic nesta semana, além de uma taxa de 9,5% no fim do ciclo. Em revisão de cenário publicada na segunda-feira, a equipe de economistas do banco, liderada por Fernando Honorato Barbosa, observa que a autoridade monetária indicou preferir uma desaceleração do ritmo de cortes.
“Nossos modelos ainda apontam espaço para uma Selic em 9,5% ao final do ano. Com isso, ao trabalhar com uma taxa de juros média mais elevada, a consequente acomodação das expectativas de inflação pode abrir o espaço adicional necessário para que o Copom promova cortes adicionais da Selic ao longo do ano de 2025, até atingir o patamar de 8,5%”, afirmam os economistas do Bradesco.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/S/e/sXUkKzS9m6oOuACRMaXw/020822-20anbima-20062.jpg)
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, vê redução no ritmo de cortes na Selic após mudança na comunicação do BC — Foto: Carol Carquejeiro/Valor.
No caso do Santander, a expectativa também é por uma redução de 0,25 ponto na Selic nesta quarta-feira. A equipe liderada pela ex-secretária do Tesouro Ana Paula Vescovi avalia que, apesar de a decisão de março ter sinalizado um corte de 0,5 ponto para esta reunião, “a redução no ritmo deve ocorrer devido às recentes comunicações de membros do Copom de que as maiores incertezas no exterior poderiam levá-los a mudar o plano de voo da política monetária”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/6/B/KaMhrtS9CaSszZVdrefQ/091222-20mansueto-20almeida-20004.jpg)
Mansueto Almeida, do BTG, acredita que dúvidas sobre desinflação nos EUA e dados locais mais fortes levarão BC a adotar postura cautelosa — Foto: Carol Carquejeiro/Valor
“Na dúvida, vá mais devagar”, afirmam os economistas do BTG Pactual em nota enviada a clientes. Para o banco, cuja equipe econômica é chefiada pelo ex-secretário do Tesouro Mansueto Almeida, houve um aumento da incerteza no cenário externo, diante de dúvidas sobre a velocidade da desinflação nos EUA, e já na ata da reunião de março do Copom alguns membros do comitê argumentaram que um aumento da incerteza poderia fazer com que um ritmo mais lento de flexibilização se tornasse apropriado.
“Dito isto, no cenário interno, os dados econômicos também sugerem maior cautela na política monetária. O cenário atual também deverá levar o comitê a concluir a retirada da mensagem do ‘forward guidance’, embora possam continuar a existir algumas indicações de continuação do ciclo. Acreditamos que essa abordagem, especialmente se for adotada por unanimidade, poderá facilitar a continuação do ciclo de flexibilização que se avizinha, se a incerteza diminuir e um melhor comportamento dos preços dos ativos se verificar de forma sustentável”, afirmam os profissionais do BTG.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2022/d/b/ibKB9SRoqlFHtH2lASaw/180522eduardo034.jpg)
Eduardo Yuki, economista-chefe do Banco Safra, projeta continuidade do ciclo de redução da Selic até juro básico cair a 9,5% — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
No caso do Safra, o economista-chefe do banco, Eduardo Yuki, também espera que o Copom já reduza o ritmo para um corte de 0,25 ponto na Selic nesta quarta-feira, mas acredita em um ambiente no qual o comitê tem condições de continuar a reduzir o juro básico até a taxa chegar a 9,5%.
Em vídeo no qual revela o cenário esperado para os rumos da política monetária, Yuki aponta que o cenário internacional ainda é desinflacionário, ao se observar o preço das commodities no mercado futuro; as contas externas “bastante saudáveis” indicam que a taxa de câmbio não tem uma tendência de desvalorização; o custo unitário do trabalho não voltou a ser o que era antes da pandemia, mas vem desacelerando gradualmente e, nesse sentido, o custo de produção no Brasil ainda está bem comportado.
“Por isso a inflação está bem comportada. O IPCA deste ano deve ficar por volta de 3,5%; o do ano que vem também não deve ficar em um patamar alto, deve ficar entre 3% e 3,5%. Com isso, o BC deve encontrar espaço para reduzir os juros, mas estamos em um ambiente de mais cautela, de mais incerteza no cenário internacional e também em relação ao nosso ajuste fiscal de longo prazo”, diz. Assim, para Yuki, o BC pode reduzir o ritmo de cortes de juros, mas pode continuar cortando a Selic até a penúltima reunião do Copom deste ano.
fonte: valor econômico
