Os presidentes dos dois principais bancos centrais do mundo sinalizaram ontem que se preparam para seguir caminhos distintos em relação à política monetária. Enquanto o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, afirmou que neste momento é apropriado deixar a política monetária em um território restritivo pelo tempo que for necessário para levar a inflação de forma sustentável de volta à meta de 2%, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, disse que o momento do primeiro corte está próximo.
Em seus comentários, Powell e Lagarde se mostraram atentos ao comportamento da inflação. Powell disse, durante participação em evento sobre as relações entre EUA e Canadá, que os dados recentes de inflação não trouxeram a confiança esperada para que o afrouxamento monetário tenha início, depois de três meses com a inflação mostrando maior resiliência que o esperado. Além da inflação, o forte resultado das vendas do varejo de março também revelou que a economia segue mais forte que o previsto.
“Os dados recentes claramente não nos deram maior confiança e, em vez disso, indicam que é provável que demore mais tempo do que o esperado para alcançar essa confiança”, disse reiterando que, considerando a força do mercado de trabalho e o progresso da inflação até o momento, é apropriado permitir que a política restritiva tenha mais tempo para trabalhar.
Se Powell parece ter pisado no freio, Lagarde seguiu a trilha que vem construindo nos últimos meses, de que o BCE poderá começar a cortar os juros no verão do Hemisfério Norte, entre junho e julho. Em entrevista à rede CNBC, no intervalo entre reuniões ontem no Fundo Monetário Internacional (FMI), Lagarde disse que o início do corte de juros deve ocorrer em breve. Segundo ela, o processo desinflacionário da zona do euro está ocorrendo conforme o previsto. “Apenas precisamos ter mais confiança neste processo desinflacionário, mas se ele se mover de acordo com nossas expectativas, se não enfrentarmos nenhum choque, estamos caminhando para o momento em que teremos que moderar a política monetária restritiva”, disse ela.
Lagarde reiterou, contudo, que isso vai acontecer caso não ocorra nenhum evento que traga mudanças ao movimento descendente da inflação. A presidente do BCE já havia afirmado, na semana passada, no comunicado de política monetária que deixou os juros inalterados, que a continuidade do processo desinflacionário sugeria que o momento do corte está próximo.
Ao manter sua expectativa de corte para breve, Lagarde também segue em sua posição de que o BCE é dependente de dados e não “dependente do Fed”, como afirmou na semana passada.
A expectativa do mercado é que o primeiro corte de juros ocorra na reunião do BCE de junho. Já os analistas especulam que o primeiro corte do Fed poderá ocorrer apenas em setembro.
Com o BCE cortando os juros bem antes do Fed, o primeiro impacto será no câmbio. O economista da XP, Francisco Nobre, lembra que Lagarde afirmou, na semana passada, que o BCE não visa proteger diretamente o câmbio, o que reforça a probabilidade de um corte já em junho.
Para Claus Vistesen e Melanie Debono, economistas da Pantheon, o BCE não deveria se preocupar com a desvalorização do euro se cortar as taxas de juros antes do Fed. Segundo eles, os fundamentos econômicos não apoiam a ideia do euro possa cair em uma armadilha se o Fed mantiver as taxas inalteradas por mais tempo. Depois dos últimos dados que mostraram a resiliência da economia americana, Jonathan Petersen, da Capital Economics, revisou sua projeção para o dólar DXY para o fim do ano de 103 para 107 pontos, diante da expectativa de que o dólar siga forte em relação às demais outras moedas globais.
Uma forte alta do dólar e dos rendimentos dos Treasuries foram o respaldo dos comentários “hawkish” (favorável ao aperto) de Powell. O Índice DXY subiu 0,15% a 106,37 pontos, enquanto o rendimento do Treasury de 2 anos chegou a ser negociado acima de 5% e fechou a 4,998%, de 4,929% do dia anterior. Já as bolsas foram pressionadas pela aversão ao risco, com S&P 500 e Nasdaq registrando quedas respectivamente de 0,21% e 0,12%. O índice Dow Jones subiu 0,17% amparado pela alta das ações da UnitedHealth, que registrou lucro acima do esperado no primeiro trimestre.
fonte: valor econômico
