Por Adriana Cotias — De São Paulo
01/03/2023 05h03 Atualizado há uma hora
A renda fixa brilhou em fevereiro, enquanto o investidor que se animou com os preços baratos na bolsa viu a sua estratégia frustrada por uma temporada de venda de ações. Sem dinheiro novo do capital externo – combustível que tracionou a renda variável ao longo de 2022 e em janeiro -, ativos considerados mais conservadores atrelados a juros se provaram um melhor destino.
No ranking do mês, a liderança ficou com os títulos públicos atrelados à inflação, com prazo de até cinco anos, refletidos no IMA-B 5 da Anbima, com valorização de 1,41%, com ganhos de 2,82% no ano. O CDI sem esforço acumula 2,05%. Já o Ibovespa recuou 7,49% em fevereiro, com a conta de 2023 negativa em 4,38%. Pior desempenho teve o índice de “small caps”, de ações de menor capitalização na bolsa, com perda de 10,5% no mês.
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Com a percepção de que a Selic ficará parada por mais tempo em 13,75% ao ano, ficou difícil combater a tríade liquidez, retorno e segurança da renda fixa. “Costumo brincar com os americanos da Principal [dona de 100% da Principal Claritas] que nosso maior competidor é o CDI”, diz Ernesto Leme, diretor comercial da asset no Brasil. “Como a maioria das gestoras são fábricas de produtos de alto valor agregado, o setor percebe diretamente na captação o menor apetite por risco. O investidor deve continuar abraçado à renda fixa.”
Dentro da sua régua de risco, a Principal Claritas recomenda fortemente a compra de Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B), que têm assegurado taxas gordas, além da correção pelo IPCA. Dependendo do prazo, têm prêmios de 4% a 6%. “Se olhar a Selic em 13,75% e uma expectativa de IPCA a 6%, é o juro real mais alto do mundo, os papéis têm atratividade grande”, afirma Leme. “Já o pré [título prefixado] não tenho a menor coragem [de sugerir], o que sobra aloco em LFT [ou Tesouro Selic] porque 13,75% não é de se jogar fora.”
Em crédito, a gestora diminuiu em um grau a sua indicação, para uma alocação moderada, ainda acima da média de mercado. Leme diz estar mais reticente após o evento da Americanas, que entrou em recuperação judicial em janeiro. Na classe, a preferência é por uma carteira global diversificada, que tem mais opções, liquidez e uma atualização a preços de mercado mais eficiente (e mais volátil também) do que no Brasil, com o secundário mais restrito.
Embora pelo olhar estrangeiro a bolsa brasileira esteja num dos níveis mais descontados da história, Leme diz que as incertezas no campo macroeconômico acabaram freando o capital internacional. “Há uma briga entre ‘valuation’ muito atrativo e a dinâmica da política econômica”, diz, reputando às pressões do governo por juros menores como um ruído que foi acrescentado ao roteiro monetário do Banco Central (BC), de baixar as taxas quando a inflação arrefecer. “Isso gerou muito barulho, e talvez de uma forma não adequada. Se diminuir a tensão, acredito haver espaço para o mercado andar.”
Investidor estrangeiro vendeu R$ 1,12 bi em ações em fevereiro, mas no ano saldo segue positivo em R$ 11,4 bi
A casa mantém recomendação “neutra” para a bolsa, enquanto nos multimercados a indicação é comprar fortemente, pela avaliação de que é a classe em que os gestores conseguem navegar melhor a volatilidade nos diversos perfis de fundos.
Em meio ao debate sobre mudanças na meta de inflação, o Itaú Unibanco diminuiu posições em juro real desde novembro e em prefixados no começo de fevereiro, sob a leitura de que o BC pode demorar um pouco mais para reduzir a Selic, diz Nicholas McCarthy, executivo-chefe de investimentos da instituição. “Acreditamos que a trajetória seja para baixo, mas só no primeiro trimestre de 2024 ou no último de 2023. Os índices de inflação ainda mostram resistência para cair.” O executivo cita que a desoneração de impostos sobre combustíveis vai ter o efeito de segurar os índices de preços em um nível mais elevado por mais dois ou três meses.
Esse ambiente também tira atratividade da bolsa brasileira, que tende a ganhar ritmo só quando as taxas futuras de juros embicarem para baixo. “Até lá, vai ser um movimento mais lateral”, afirma McCarthy. “Alguns papéis específicos, como de commodities podem andar por causa [da reabertura] da China, mas sempre tem um concorrente que chama CDI, que no curto prazo é a melhor alternativa, ou papéis [de dívida] isentos indexados ao CDI ou ao IPCA”, diz.
O evento com Americanas teve como efeito colateral ajustar o prêmio dos ativos de crédito para um nível mais adequado, segundo o executivo. O investidor vinha comprando esse tipo de risco com pouco spread, como se fosse um CDI sem imposto.
Numa carteira de perfil de risco moderado, o Itaú indica atualmente apenas a alocação estrutural, de 14% em bolsa, uma parcela pequena, mas que machuca por causa do custo de oportunidade elevado. McCarthy atribui a recente pausa do investidor estrangeiro no mercado acionário à cena internacional, mais pela da surpresa inflacionária nos Estados Unidos do que pela percepção de que a política de aperto monetário lá fora vá muito mais longe. O teto para os juros americanos estava em 5%, agora está em 5,5%, cita.
“Olhando para frente, a gente vislumbra que os juros americanos estejam perto do topo e que no Brasil está faltando só uma queda inflacionárias mais consistente para [a Selic] cair também. Será um período positivo para a bolsa brasileira e as mundiais.”
McCarthy chama a atenção para a tese do enfraquecimento do dólar, fenômeno que quando ocorre dura alguns anos, e esse é um intervalo em que os melhores ativos costumam ser bolsas de países emergentes, as europeias e as americanas, com ganhos de 25%, 16% e 12%, em média, em dólar, respectivamente. “O estrangeiro, sem dúvida, tem sido importante. Eles compraram algo perto de R$ 100 bilhões em 2022 [na B3] e o grande vendedor foi o brasileiro, que saiu de bolsa e aplicou basicamente no CDI.”
Em fevereiro, até o dia 24, o capital externo vendeu liquidamente R$ 1,12 bilhão no secundário da B3, mas no ano ainda acumula ingressos de R$ 11,4 bilhões. A pessoa física começa a voltar para a bolsa, e neste mês comprou R$ 2,39 bilhões, com o saldo de 2023 positivo em R$ 601,5 milhões.
Na parcela internacional da carteira, McCarthy conta que já tinha diminuído posições tanto em renda fixa quanto em ações, mas com a maior parte da correção monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) já feita, passou a acrescentar papéis de dívida de maneira geral, tanto títulos de maior risco (“high yield”) quanto do Tesouro americano e de emissores de países emergentes. Em bolsas de mercados desenvolvidos, a instituição segue cautelosa, com alocação abaixo da neutra. O executivo se diz, contudo, animado com a abertura econômica da China, após um 2022 em que a política de “covid zero” restringiu a circulação da população.
Os investidores tiveram rapidamente que ajustar a sua percepção de risco quando começou 2023, porque mudou o governo e também o discurso, afirma Wilson Barcellos, CEO da Azimut Wealth Management no Brasil. “Era esperado um tom mais conciliador pró-capitalismo do presidente [Luiz Inácio Lula da Silva] e veio um pouco diferente do Lula do primeiro mandato, mais parecido com o [da ex-presidente] Dilma [Rousseff]”, diz. “A apreensão trouxe coisas que o mercado não pautava nas suas expectativas de risco macro e isso se reflete em todos os preços dos ativos, de forma estrutural.”
O executivo cita a cruzada liderada pelo Executivo contra a política monetária do BC de Roberto Campos Neto. Sem que haja um plano fiscal conhecido para dar condições para baixar a Selic, o tiro saiu pela culatra. Se antes, os analistas esperavam uma indicação ou até um corte de juros antes do segundo semestre, essa agenda foi adiada. “Num evento recente, Campos Neto foi muito claro, não é ele quem define a taxa de juros, ele define a Selic [de curto prazo], as taxas de juros são os agentes de mercado, a curva longa empina não porque o BC quis, mas é uma sinalização dos agentes econômicos de que o risco aumentou e demandam um prêmio maior.”
Nesse cenário, Barcellos diz que a melhor relação risco/retorno hoje está nos títulos públicos atrelados à Selic. Ele lembra, contudo, que há também um preço por ficar fora de ativos de maior valor agregado se a situação se acalmar, perdendo uma oportunidade de ter valorização razoável da carteira. “O resumo é que o risco é alto independentemente da alocação”, afirma. “Mas o melhor é ser mais conservador, buscando uma volatilidade menor porque o prêmio dado é muito favorável, com quase 14%. O CDI é um bom guarda-chuva.”
Fonte: Valor Econômico


