29 Aug 2022 JENNE ANDRADE
Ainda não chegou o momento de aumentar posições na Bolsa na avaliação do Credit Suisse. O banco global de investimentos está cauteloso com a renda variável e vê os próximos três meses como cruciais para definir uma direção do Ibovespa.
A eleição está entre os principais pontos a esclarecer antes de elevar exposição. De acordo com o diretor de investimentos do Credit Suisse na América Latina, Luciano Telo, aguardar as sinalizações fiscais do governo eleito para 2023 ajudará a entender a sustentabilidade do atual ciclo de recuperação da Bolsa.
Por outro lado, o banco aumenta gradualmente as posições em papéis ligados à inflação e títulos prefixados, de olho nas projeções de corte de juros. “Preferimos ter mais risco na renda fixa. Alongar as posições em NTN-B (Tesouro IPCA+), por exemplo, é um passo que fazemos antes de aumentar posição em Bolsa”, afirma o executivo. A seguir, principais trechos da entrevista.
A recente divulgação de dados positivos para a inflação, no Brasil e nos EUA, animou os investidores. O assunto está superado?
A inflação americana deve fazer um pico agora e começar a declinar no acumulado de 12 meses. Contudo, precisamos de uma série de dados que aponte para a inflação sob controle e que sinalize que não haverá uma recessão muito rápida nos EUA. Começou um momento em que olhamos para a inflação, o principal direcionador de mercado, mas também para a atividade. Saberemos se, de fato, passamos o pior da inflação lá fora nos próximos dois ou três meses.
No Brasil, as perspectivas são as mesmas?
Precisamos ver os EUA controlando a inflação, porque isso já propicia um ambiente global de menor aversão a risco, com benefícios para o Brasil. Dito isso, o Brasil tem um ponto a favor e outro preocupante. Ponto a favor porque o BC se antecipou e fez boa parte do ajuste de juros, que provavelmente vai parar. Por outro lado, precisamos ver as perspectivas de inflação de longo prazo começarem a se estabilizar.
Por quanto tempo os juros devem continuar elevados antes de o BC brasileiro iniciar cortes?
Na metade do ano que vem já deve ocorrer algum corte de juros. A grande discussão gira em torno das eleições e da questão fiscal para 2023. O mercado vai ficar nesse jogo, decidindo se antecipa ou não os cortes de juros. Por ora, a projeção mostra certa estabilidade.
E com a dúvida na questão fiscal e novos ajustes nos juros no radar, a renda fixa tem sido uma saída do portfólio?
Temos adicionado posições em renda fixa, mas gradualmente. Começamos em papéis ligados à inflação e por uma posição pequena em prefixados. Não fizemos um aumento grande em prefixados porque nós sabemos que há um caminho longo para o mercado estar confortável em cortar as projeções de juros. Temos de aguardar para observar quão rápido o mercado pode antecipar o corte. Mas, quando o fizer, a movimentação será muito rápida. Por isso, se torna necessário ter alguma posição em ativos ligados à inflação.
Num mar de incertezas, qual o cenário para o Ibovespa?
Nós achamos que 100 mil pontos é uma estimativa conservadora, mas temos muita incerteza pela frente. O Brasil sempre reage mais do que outros mercados num ambiente global mais propício a risco. Mas, em um ambiente global menos propício, geralmente sofre mais em relação aos pares. Com o patamar atual, devemos aguardar a eleição e as sinalizações fiscais para 2023 para ver se o ciclo de recuperação da Bolsa se torna sustentável.
Qual é a saída para o investidor?
Preferimos mais risco na renda fixa. Ao alongar as posições em NTN-B (Tesouro IPCA+), por exemplo, damos um passo antes de aumentar a posição em Bolsa. Os próximos três meses serão importantes. Se a inflação convergir nos EUA, haverá um quarto trimestre bom para os mercados.
O Credit Suisse ainda vê o Brasil como atrativo?
O Credit Suisse tem recomendado um peso até maior do que o histórico em renda fixa de países emergentes para as carteiras globais. Em relação ao crescimento, o Brasil aponta para uma alta de 2% este ano. Então, sim, está gradualmente recuperando a atratividade.
Atualmente a Bolsa segue indiferente à corrida eleitoral. As eleições já estão no preço?
Temos evidências de que o Brasil tem reagido muito mais aos temas maiores, ao tema fiscal, do que ao tema eleitoral. Só vai dar para saber a posição fiscal em 2023. O principal elo entre eleições e preços dos ativos está na percepção do risco fiscal, mas de certa forma o mercado já projeta isso. •
Fonte: O Estado de S. Paulo
