Por Anaïs Fernandes — De São Paulo
20/09/2023 05h00 Atualizado há 5 horas
A surpresa com o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no segundo trimestre, a resiliência de alguns setores mesmo ao longo do terceiro trimestre e a força do mercado de trabalho sugerem que a ociosidade da economia está menor do que especialistas e o próprio Banco Central previam. Se a desaceleração da inflação de serviços tem animado analistas e favorecido o ciclo de corte de juros, um hiato do produto mais apertado jogaria na direção contrária.
Medida de ociosidade da economia, o hiato do produto refere-se à diferença entre o PIB efetivo e o potencial – aquele que seria alcançado usando de forma plena todos os fatores de produção, como mão de obra e capital. Se o PIB potencial está muito acima do efetivo, nem todos os recursos são empregados de maneira eficiente, e o hiato é negativo. Quando essa ociosidade dos fatores da economia é ocupada, diz-se que o hiato fechou.
No último Relatório de Inflação (RI) trimestral, de junho, o Banco Central projetava crescimento do PIB de 2023 em 2%. Esse número, provavelmente, será revisto no relatório de setembro, e o resultado surpreendente da atividade terá “algum impacto” na mensuração de hiato da autoridade monetária, antecipou Fernanda Guardado, diretora de assuntos internacionais.
“Nós temos sido surpreendidos pela atividade, pela resiliência da atividade no Brasil, temos revisado esse hiato para cima. Somos bem transparentes com as nossas estimativas de hiato e inflação. Vai haver uma nova revisão no Relatório de Inflação de setembro”, disse Guardado recentemente em “live” da Bradesco Asset (Bram).
“Mas o importante é que continuamos esperando que haja uma abertura moderada de hiato nos próximos trimestres, em linha com essa expectativa de moderação do crescimento”, acrescentou.
Em junho, a autoridade monetária projetava um hiato negativo em 1,2% no segundo trimestre e aprofundando o grau de abertura para -1,5% no quarto trimestre. Após esse período, o hiato inicia trajetória de estreitamento.
“Em geral, as projeções do BC são mais abertas do que as de mercado. Nossas estimativas menos imprecisas indicam um hiato zerado no segundo trimestre”, diz Daniel Xavier, economista-chefe do Banco ABC Brasil. “Obviamente, ele vai incorporando o efeito defasado da restrição monetária. A gente estima -0,8% para o quarto trimestre, então, ele vira negativo, favorece a desinflação, só que é menos intenso do que o último cenário do BC”, afirma.
Há duas formas de avaliar a ociosidade da economia, explica Marcelo Toledo, economista-chefe da Bradesco Asset. Uma mais direta é observar taxa de desemprego e nível de capacidade instalada, por exemplo, da indústria. Outra, menos direta, é a partir do comportamento da inflação. O BC mistura os dois modos, diz Toledo.
“Tem uma queda da inflação que é adicional aos efeitos de câmbio apreciando e commodities caindo no ano. No caso, a conclusão seria que existe folga na capacidade produtiva da economia ajudando a trazer a inflação para baixo, o hiato está aberto”, diz. O problema, observa, é que as medidas mais diretas para o hiato parecem indicar menos ociosidade que a medida indireta inferida pela inflação.
“O Nuci [Nível de Utilização da Capacidade Instalada] da indústria está perto de 81%, com ajuste sazonal, seis pontos percentuais acima do pré-pandemia e ligeiramente acima da média histórica, ao redor de 80%”, aponta Toledo. “A taxa de desemprego está um pouco abaixo de 8%, em termos dessazonalizados, o que é abaixo da média e da mediana de um período mais longo, ambas perto de 10%.”
Em um “backtest” do modelo do BC, isto é, considerando as variáveis de fato observadas em certo período, como o câmbio e preço de commodities, a Bram notou que o modelo da autoridade monetária tendia a subestimar a inflação.
“Ele indicava uma inflação abaixo do que aquela verificada efetivamente no IPCA, mesmo a gente colocando as variáveis realizadas. Em parte, isso poderia ser por causa da medida do hiato, que não seria tão negativo assim”, diz Toledo.
Essas discrepâncias ficaram, segundo ele, muito claras na pandemia, mas isso foi mudando. “Durante um período, o modelo do BC parecia ter um hiato muito negativo mesmo. Nos últimos trimestres, essa diferença entre o IPCA realizado e o que o modelo indica, olhando para trás, tem caído. No segundo trimestre deste ano, ficou bem perto de zero. Ou seja, o modelo parece estar mais aderente ao que está acontecendo com a inflação”, afirma. Assim, diz, é possível concluir que, talvez, o hiato não seja tão grande quanto se estima, mas é negativo e, portanto, há alguma ociosidade na economia.
Toledo prevê que, no próximo RI, o BC vá revisar a estimativa de hiato do segundo trimestre de -1,2% para -0,8%. “A consequência de ter um hiato menos negativo, mantidas as outras hipóteses, é que a projeção do BC para o horizonte como um todo deve subir ligeiramente”, afirma. Isso, somado a outros elementos, como a alta do petróleo, deve elevar as previsões de inflação do Banco Central para 2024 e 2025 em cerca de 0,2 ponto percentual, estima Toledo.
“Nossa visão é que isso ainda é compatível com seguir com os cortes da Selic de 50 pontos-base [0,50 ponto percentual], mas uma atividade mais forte acaba sendo um elemento contrário à aceleração desse ritmo”, aponta.
Ao longo de 2024, diz Xavier, a taxa de juros menor deve ajudar a impulsionar para cima a atividade, e o hiato deve ficar menos negativo do que no fim de 2023, em -0,4%, estima. Uma “abertura contundente do hiato do produto” é um dos fatores que, segundo o BC, poderiam gerar a confiança necessária para viabilizar uma intensificação do ritmo de corte de juros.
“Não é isso que estamos vendo, uma surpresa substancial deflacionária, pelo contrário, é uma surpresa no sentido de adicionar inflação pelo canal da atividade”, afirma Xavier.
Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays, lembra que, em agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC comentou que tão importante quando o nível inicial assumido para o hiato do produto é a velocidade com que se presume que ele será fechado ao longo do horizonte, ou seja, em que ritmo a ociosidade da economia se tornará menor. O comitê também discutiu o risco de o hiato ser mais reduzido do que o assumido em seu cenário de referência, em particular no mercado de trabalho.
“Dada a incerteza inerente associada à estimativa do nível do hiato do produto, o foco pode recair sobre a velocidade com que ele se fecharia, uma vez que, tudo o mais constante, um crescimento (muito) maior do PIB neste ano sugeriria fechamento mais rápido do hiato”, diz Secemski.
Xavier reforça que o fechamento do hiato ao longo de 2024 será gradual, de aproximadamente 0,1 ponto percentual por trimestre. “Não parece que há solavanco na política monetária”, diz.
Na “live” da Bram, Guardado destacou que a expectativa é de “leve abertura” do hiato nos próximos trimestres e que o “sacrifício” gerado na economia para promover o processo de desinflação “foi muito menor do que se observou em outros ciclos de ajuste de política monetário no Brasil”.
“A ‘taxa de sacrifício’ é como os economistas pensam o quanto que é preciso provocar de desaceleração da economia – medida pelo aumento da taxa de desemprego ou por um crescimento mais baixo do PIB, por exemplo – para provocar a queda da inflação”, explica Toledo.
Dados apresentados por Guardado mostram que, entre junho de 2022 e junho de 2023, a inflação, medida pelos preços ao consumidor, recuou 8,7 pontos percentuais no Brasil, muito mais do que os 4 pontos, em média, de países avançados e do que o 1,9 ponto de uma média de países emergentes. “Só que o nosso PIB, na verdade, cresceu na margem e, após o segundo trimestre, sabemos que cresceu ainda mais, enquanto a variação do PIB de emergentes e avançados é negativa”, disse Guardado. “Aqui, o sacrifício foi muito menor.”
Fonte: Valor Econômico