Por Gabriel Caldeira, Valor — Sâo Paulo
02/03/2023 13h56 Atualizado há 20 horas
Divulgada nessa quinta-feira (2), a ata da reunião de política monetária do Banco Central Europeu (BCE) em fevereiro, em que a entidade elevou os juros em 0,50 ponto percentual (p.p.), mostra que a autarquia pode estender o aperto das condições financeiras além do esperado, caso a inflação na zona do euro não desacelere como esperado, segundo a avaliação de economistas.
Com um novo aumento de 0,50 p.p. na próxima reunião, em 16 de março, praticamente certo, os mercados seguem incertos sobre até quando o BCE vai sustentar o seu ciclo de aperto monetário e qual será a taxa terminal a ser adotada. Segundo a ata, os dirigentes se mostraram preocupados com a possibilidade de desancoragem das expectativas de inflação e potencial busca por risco entre investidores após a desaceleração dos preços no começo de 2023.
“A ata recém-divulgada da reunião de fevereiro do BCE reflete um debate muito ‘hawkish’ e uma clara intenção de continuar subindo os juros além de março”, resume o chefe de macroeconomia global do ING, Carsten Brzeski.
Ele acredita que, após a alta de 0,50 p.p. daqui a duas semanas, o BCE vai elevar os juros pelo menos mais duas vezes em 0,25 p.p., em maio e junho, adotando uma “abordagem real de decisões a cada reunião” sem qualquer orientação futura. Caso a previsão de Brzeski se concretize, o juro básico na zona do euro chegaria a 3,50%, próximo do recorde histórico de 3,75% de outubro de 2000.
Essa previsão para a taxa terminal do BCE é compartilhada pelo economista-chefe para Europa da Capital Economics, Andrew Cunningham. Após a ata, ele pondera que há riscos de alta para sua projeção. O analista ainda afirma que há possibilidade maior de que os juros sejam elevados em 0,75 p.p. do que em 0,25 p.p. daqui a duas semanas, caso o BCE resolva surpreender.
“Prevemos um pico dos juros de 3,50% em junho, mas os riscos disso estão direcionados para cima. Qualquer que seja a taxa terminal, também esperamos que ela seja mantida nesse nível até o segundo semestre do próximo ano, já que as autoridades mantêm seu compromisso de aperto monetário em meio à inflação persistentemente alta”, conclui Kenningham, em relatório enviado a clientes.
Economista sênior para Europa da Pantheon Macroeconomics, Melanie Debono avalia que a ata foi “mista” ao dizer que os membros do Conselho do BCE veem os juros atuais como “pouco consistente com o intervalo de estimativas para a taxa neutra” e “distantes da perspectiva de juro terminal”, ao mesmo tempo em que alguns dirigentes avaliaram que os juros “estão chegando a níveis em que cautela é necessária para que a política monetária não aperte excessivamente”.
De qualquer forma, Debono acredita que os membros de orientação mais agressiva contra a inflação estão se sobrepondo dentro do Conselho e, por isso, os juros seguirão aumentando além de março. Para a economista, a taxa terminal do BCE será de 3,75%.
Com alta do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) acima do esperado em fevereiro – de 8,5% na comparação anual –, Debono alterou sua projeção e agora espera que o BCE opte por outro aumento de 0,5 p.p. em maio.
“Isso seguirá um aumento de 0,50 p.p. em duas semanas e, mantendo nossa previsão para o aumento de 0,25 p.p. em junho, implica taxa terminal de 3,75% até o meio do ano”, completa a economista, em comentário enviado ao Valor.
Fonte: Valor Econômico
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