Por Victor Rezende e Gabriel Roca — De São Paulo
10/08/2022 05h03 Atualizado há 59 minutos
Se a sinalização emitida, na semana passada, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central havia intensificado as dúvidas do mercado quanto à possibilidade de um ajuste adicional na Selic em setembro, a ata da decisão, divulgada ontem, sanou as dúvidas dos agentes e elevou ainda mais o sarrafo para a possibilidade de elevações adicionais na taxa básica. O documento reforçou a percepção de que o ciclo de aperto monetário chegou ao fim com a Selic em 13,75% e deu apoio adicional à visão de um juro básico que deve permanecer inalterado por um período prolongado.
Na medida em que o Copom indicou, na ata, que sua projeção de inflação para o início de 2024 estava ao redor da meta e que enfatizou os efeitos defasados da política monetária, que devem se intensificar no segundo semestre, a percepção dos participantes do mercado de manutenção dos juros no nível atual foi reforçada. O mercado de opções digitais, na B3, indicava probabilidade de 63% de a Selic continuar em 13,75% em setembro, contra 32% de chance de um aumento de 0,25 ponto na taxa.
“A barra para um ajuste residual é alta. A nosso ver, a ata do Copom sugere que o cenário-base do BC é manter a Selic inalterada em 13,75% ‘por um período suficientemente prolongado’ ”, observa o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski. Ao não esperar mudanças relevantes no front inflacionário que forcem o Copom a estender o ciclo de aperto, o banco britânico manteve inalterada sua projeção para o juro básico em 13,75% no fim do ano.
“Embora não seja nosso cenário-base, surpresas no lado político e no fiscal durante o período eleitoral e além ainda podem justificar uma resposta do BC caso o resultado seja uma desancoragem adicional das expectativas de inflação”, ressalta Secemski. Ele, inclusive, revela que possíveis incertezas no quadro fiscal, caso o teto de gastos seja revisto, levaram a um aumento na projeção do Barclays para a Selic no fim de 2023, de 10,5% para 11,25%.
Com base em um cenário de incertezas fiscais elevadas e de um processo desafiador de desinflação, o economista-chefe da Occam, Paulo Val, acredita que o plano de voo traçado pelo Copom é o de manter os juros estáveis em um período “realmente longo”, a fim de que haja uma consolidação do efeito da taxa alta em cima da atividade econômica e da inflação.
“Ficou mais claro o plano de voo do BC, que seria o de interromper o ciclo e ficar algum tempo com a taxa de juros parada. O meu cenário-base indicava mais um aumento de 0,5 ponto em setembro, mas o Copom deixou muito clara a intenção dele de encerrar o aperto”, afirma Val. Em seu cenário básico, a Occam espera um aumento final de 0,25 ponto na taxa Selic em setembro, ao traçar uma piora nas expectativas de inflação e a continuidade de uma inflação corrente com composição deteriorada.
“Apesar de ter diminuído, a chance de o Copom ter que fazer mais uma elevação nos juros ainda é relevante, mas seria apenas mais uma alta de 0,25 ponto e o ciclo pararia nesse ponto”, diz. “Como eu espero que a deterioração das expectativas continue, acredito em uma nova alta em setembro.”
No mercado de juros, o rali expressivo de queda das taxas futuras nos últimos dias deu lugar a uma correção na sessão de ontem. A taxa do DI para janeiro de 2024 subiu de 12,87% para 12,985%; e a do DI para janeiro de 2027 avançou de 11,59% para 11,715% na B3. No mercado de câmbio, o dólar também teve um dia de ajustes e fechou em alta de 0,33%, a R$ 5,129.
De qualquer forma, a expectativa de que o ciclo de aperto monetário está na reta final gerou um alívio forte na curva de juros e antecipou, no preço dos ativos, as discussões sobre quando haverá um alívio na Selic. Para a economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, porém, uma redução no juro básico pelo Copom só deve ter início em junho de 2023. “Se as coisas não mudarem, vamos ver a Selic parada por muito tempo”, diz.
Damico projeta a Selic em 13,75% no fim deste ano e em 11% em 2023. Para ela, é a inflação de serviços disseminada que deve deixar a taxa inalterada em níveis bastante altos por muito tempo. Além disso, ela reforça que o argumento do Copom de que já produziu um efeito restritivo considerável com o aumento da Selic é um elemento que deixa clara a intenção de encerrar o ciclo. “Acho que ele está correto, exatamente pela descompressão nos preços de bens industriais, o que ajuda o BC nessa estratégia de suavizar o ciclo.”
O economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otavio de Souza Leal, nota que o Copom tomou cuidado, na ata, para não parecer que está minimizando os riscos ao cenário prospectivo de inflação, mas, na sequência, indicou um risco no sentido contrário. No fim das contas, para ele, o que pesa é o fato de que o BC acha que já fez o suficiente. “Está fechada a porta? Não. Em um mês e meio pode acontecer muita coisa, mas ele deixou uma probabilidade bem maior de manutenção [dos juros] em setembro”, diz o economista.
Fonte: Valor Econômico
