Órgão da OMS classificou o adoçante como “possivelmente cancerígeno aos humanos” no início de junho
Por Mavi Faria*, Valor — São Paulo
29/06/2023 17h13 Atualizado há 16 horas
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Refrigerante Ron Lach/Pexels
Documento oficial divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na última segunda-feira, indica que o aspartame pode ser incluído na lista de produtos “possivelmente cancerígenos” no mês que vem, após finalização de análises pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc, em inglês) e pelo Comitê Conjunto de Especialistas em Aditivos Alimentares da OMS e da Organização para Agricultura e Alimentação (Jecfa, em inglês).
O Iarc, órgão da OMS responsável pela avaliação das causas do câncer, segundo o documento, já finalizou sua parte da pesquisa e classificou o aspartame como “possivelmente cancerígeno aos humanos” no início de junho.
Em julho, a Jecfa finaliza a análise do risco do adoçante, incluindo uma “revisão da quantidade diária de ingestão aceitável” e a “avaliação da exposição ao aspartame”. Com o resultado dos dois órgãos, o relatório oficial sobre o aspartame será publicado no dia 14 de julho, de acordo com a OMS.
O aspartame é um adoçante artificial criado em 1965, nos Estados Unidos, a partir de dois aminoácidos: ácido aspártico e fenilalanina, segundo o site do Hospital Sírio Libanês. Ele é amplamente utilizado em “adoçantes de mesa, bebidas de baixa caloria como refrigerantes diet, gomas de mascar, gelatinas, sorvetes e cereais matinais, além de medicamentos como pastilhas para tosse e produtos como creme dental”, afirma a OMS.
O documento ainda explica que na década de 1980, o aspartame foi aprovado pelo Jecfa na avaliação de “risco para aditivos e contaminantes em alimentos” e foi estabelecida a dose diária aceitável de 40 mg por quilograma de peso.
“Isso significa que um adulto de 70 kg pode ingerir com segurança até 2800 mg de aspartame por dia, o que representa aproximadamente 15 a 20 saquinhos ou 60 a 80 gotas de adoçante. Como o aspartame é cerca de 200 vezes mais doce que o açúcar branco normal, ultrapassar essa quantidade na alimentação diária é muito difícil”, explica o site do Sírio Libanês.
Segundo o documento da OMS, a avaliação é dividida em duas etapas para analisar qual o potencial do aspartame prejudicar as pessoas – processo chamado de identificação de perigos – e qual a probabilidade desse perigo causar danos – ou avaliação de riscos. A IARC afirma, por meio da OMS, que sua análise expõe se o aspartame pode causar câncer, “mas não indica o grau de risco de desenvolver câncer em um determinado nível de exposição”. Fator que será esclarecido pelo relatório de julho.
Para o Vice-Diretor Clínico Hospital Leforte Liberdade e Infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Igor Maia Marinho, a intenção do IARC ao divulgar a potencialidade do aspartame é a de promover mais pesquisas sobre o adoçante, e não cortar sua utilização.
“A gente ainda não tem o registro de qual dose pode causar câncer e se o aspartame realmente é o fator principal que levou ao câncer. Sabemos que ele pode estar associado a alguns cânceres relacionados à obesidade, como câncer de pâncreas, de colo e reto, de útero, de bexiga e diversos outros tipos”, explica o médico.
A potencialidade do câncer, segundo Igor, não significa que utilizar o aspartame um dia irá causar a doença, mas sim que, nos grupos em que a pesquisa foi feita, as pessoas que usam o adoçante tendem a desenvolver câncer com mais facilidade que as que não usam. “Mas é preciso de muito cuidado para analisar esses dados, porque ainda não temos certeza se o desenvolvimento oncológico é apenas pelo aspartame ou porque essas pessoas já têm outros problemas de saúde, na maioria das vezes a obesidade”, argumenta Igor.
Em nota, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abiad) afirma que “corrobora a segurança para consumo do aspartame, um dos ingredientes mais pesquisados da história, com mais de 90 agências de segurança alimentar que comprovam seu uso seguro”.
A Abiad ressalta que a Iarc “não possui atribuição como órgão regulador de segurança alimentar”. Por isso, na visão da Abiad, a associação “demonstra preocupação com as especulações preliminares sobre a opinião da referida agência, que podem confundir os consumidores sobre a segurança do aspartame. Reiteramos nosso compromisso em relação à segurança alimentar, saúde e bem-estar dos consumidores, através da produção, industrialização, comercialização, distribuição e importação de matérias-primas de alimentos para fins especiais”.
A diretora executiva do Conselho Internacional de Associações de Bebidas (ICBA, na sigla em inglês), Kate Lotman, assim como a ABIAD, ressalta como o resultado da pesquisa ainda é inconclusivo, sugerindo o aguardo das análises finais da Jecfa com a IARC e a OMS.
“As autoridades de saúde pública devem estar profundamente preocupadas com o fato de que essa opinião vazada contradiz décadas de evidências científicas de alta qualidade e poderia, desnecessariamente, induzir os consumidores a consumir mais açúcar em vez de escolher opções seguras sem e com baixo teor de açúcar, tudo com base em estudos de baixa qualidade”, argumenta Kate.
*Estagiária sob supervisão de Diogo Max
Fonte: Valor Econômico