Por Humberto Saccomandi — De São Paulo
31/08/2022 05h00 Atualizado há 4 horas
A Argentina deverá ter inflação perto de 90% neste ano, e a economia está em forte desaceleração após as turbulências dos últimos meses. E essa tendência deve se manter para o ano que vem. Parece ruim, mas o economista e ex-ministro argentino Dante Sica diz que esse é o melhor cenário. No cenário pior, o país corre o risco de uma desvalorização descontrolada, de inflação ainda maior, de recessão, e mesmo de uma crise da dívida.
Sica, de 64 anos, foi ministro da Produção e do Trabalho do governo anterior, do ex-presidente Mauricio Macri. E atualmente assessora a líder oposicionista Patricia Bullrich, que é uma possível candidata presidencial nas eleições do ano que vem, se Macri decidir não concorrer.
Para Sica, o atual governo kirchnerista não fará nenhuma das reformas que, segundo ele, são necessárias para estabilizar a economia e fazer a Argentina retomar o caminho do crescimento.
“O país não pode seguir vivendo com déficits fiscais permanentes, financiados com emissão monetária”, diz Sica. Mas, segundo ele, boa parte do governo atual ainda acredita nisso.
Sica diz acreditar que a oposição vencerá as eleições de 2023, com uma margem suficiente para aprovar reformas concretas, como fizeram outros países da região.
Mas, até lá, ele diz que o governo de Alberto Fernández vai empurrar com a barriga com “remendos” de política econômica. “O ano que vem será difícil.”
Sobre as relação entre Brasil e Argentina, Sica acha ruim para ambas as economias que os presidentes não se falem há 3 anos.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Sica ao Valor, na quinta-feira passada, em São Paulo.
Valor: Como está a situação econômica da Argentina hoje?
Sica: A situação é crítica. Temos uma crise econômica muito forte. A Argentina deixou de crescer nos últimos 15 anos, e isso se agravou nos últimos 3 anos com a gestão muito ruim do governo de Alberto Fernández. Temos déficits fiscal e de conta corrente que não são financiáveis, o que gerou uma forte distorção dos preços relativos, com atrasos nas tarifas e no câmbio. Isso agrava a situação e obriga o governo a tomar uma série de medidas de restrições administrativas em matéria de comércio exterior, para obter dólares, o que estão travando o funcionamento normal da atividade econômica.
E essa ideia de que era possível aumentar o gasto público financiado por emissão monetárias, que isso não teria consequências, causou uma crise política dentro do governo, que é uma aliança que foi formada para ganhar uma eleição, mas que não serve para governar, pois tem ideias conflitantes sobre o que fazer com a economia.
Uma parte [do governismo] crê numa espécie de receita mágica, que a economia pode crescer sem custos, financiada só por emissão monetária, e que todos os prejuízos que isso gera são culpa do setor empresarial. Outra parte tem um ponto de vista mais capitalista, mas não conseguiu prevalecer e adotar medidas nessa direção.
Essa divisão política causa ainda mais preocupação, numa Argentina que foi muito atingida pela pandemia. Hoje há uma situação de raiva, de baixa expectativa com respeito ao futuro do país.
Isso tudo gera o risco de que tenhamos, nos próximos meses, um cenário de risco, de uma possível desvalorização descontrolada, de mais inflação e de aprofundamento da crise econômica. Apesar dos sinais que o governo tenta dar, ele não consegue reduzir esse risco.
Hoje, por causa dessa má gestão da economia, somos um país com 45% de pobreza. Deixamos de ser um país florescente, de renda média a média alta, para ser um país de renda média a média baixa. Recuperar isso vai levar tempo, mas em algum momento será preciso começar a fazer as reformas.
“Temos déficits fiscal e de conta corrente que não são financiáveis, o que gerou uma forte distorção dos preços relativos”
Valor: Nem a mudança de equipe econômica, agora com i superministro Sergio Massa, conseguiu melhorar essa situação?
Sica: Essa mudança foi o último truque de magia que o governo tentou para nos fazer crer que a situação econômica pode melhorar. Independentemente da capacidade individual das pessoas, tudo continua muito abaixo da expectativa que se gerou, de que havia um plano para enfrentar a crise.
O ministro Massa sofre muitas restrições em termos de poder atuar uma política econômica. Ele não controla a Afip (a receita federal argentina). Não tem uma boa relação com o presidente do Banco Central, que ele já quis trocar, mas não conseguiu. Ele tem restrições políticas e precisa discutir tudo, não com o presidente, que hoje é uma figura protocolar, que não tem mais ingerência, mas com a vice-presidente, Cristina Kirchner. Ela, por sua vez, não pode atuar um programa concreto de contenção de preços porque não pode fazer um ajuste forte, de desvalorização.
Valor: Por que não pode?
Sica: Pelos custos, sociais e políticas, estando muito perto de um ano eleitoral. Administrar uma desvalorização sem um programa concreto, que gere uma mudança de expectativa nos agentes econômicos, seria politicamente muito difícil.
Valor: Qual é a maior dificuldade para conter a inflação argentina?
Sica: A maior dificuldade é que a Argentina precisa ter regras fiscais claras. O país não pode seguir vivendo com déficits fiscais permanentes financiados com emissão monetária. A Argentina precisa recuperar a instituição fiscal, ter um setor público compatível com a riqueza que o país gera. Na época dos superpreços das commodities, o kirchnerismo dobrou o tamanho do setor público. Esse setor público não só é impossível de financiar como presta serviços de baixa qualidade. A assistência à saúde foi mal na pandemia, as aposentadorias são baixas, a segurança piorou e a educação é ruim. Isso gera esse colapso que estamos vendo.
Valor: No curto prazo, então, a Argentina seguirá fazendo remendos até o final do atual governo?
Sica: Não vejo a vontade política nem a possibilidade de que possam avançar num programa forte de estabilização, que tire a economia desse caminho de queda.
Valor: É só para ganhar tempo?
Sica: Sim, eles estão apenas comprando tempo. Aqui no Brasil vocês tem um grande economista, Delfim Netto, que falava em empurrar a demanda com a barriga. O governo argentino está apenas tentando empurrar a economia com a barriga para ver se consegue serenar os desequilíbrios e chegar competitivos às eleições do ano que vem. Isso com tendência inflacionário alta e tendência recessiva.
Valor: Esse é o melhor cenário?
Sica: Esse é o melhor cenário para o governo: uma economia fraca e tendências inflacionários altas. Vamos terminar este ano com inflação em cerca de 90%, e o governo não nos está dando nenhum sinal firme de que a inflação do ano que vem poderá ser substancialmente menor.
Valor: A emissão monetária está caindo? Foi compromisso de Massa.
Sica: A emissão monetária continua. Massa disse que não haveria mais adiantamentos monetários [do Banco Central] diretamente ao Tesouro. Hoje, porém, o BC tem de emitir [dinheiro] para pagar os juros dos bônus que ele emitiu para financiar o governo. Esse déficit quase fiscal está em uns 5% do PIB. Isso gera um piso de inflação alto.
“Há cenário de risco de uma desvalorização descontrolada, de mais inflação e agravamento da crise econômica”
Valor: Incluindo esse déficit quase fiscal, em quanto está o déficit total do setor público?
Sica: O déficit primário deve estar em quase 3,5%. E o financeiro, em torno de 5%. A situação fiscal está muito comprometida.
Valor: Qual seria o cenário pior?
Sica: Seria um cenário em que ocorra uma desvalorização não controlada pelo governo, com disparada do risco-país, e que gere um aumento ainda maior da inflação e um agravamento da recessão. Há ainda os problemas judiciais da vice-presidente, que estão gerando uma tensão política forte.
Valor: Há risco de uma nova crise da dívida?
Sica: Isso sempre faz parte desse pior cenário. O governo acabou de rolar por 90 dias parte da dívida de curto prazo. Hoje, porém, à diferença de outros anos, a dívida está mais concentrada em organismos institucionais.
Valor: A Argentina tem reservas internacionais baixas. Vai precisar de um novo acordo com o FMI?
Sica: Antes de um novo acordo, vai precisar de um “waiver” [perdão], pois não está cumprindo o acordo que temos hoje. O ministro Massa deu alguns sinais de ajuste e viajará em setembro a Washington, onde certamente pedirá uma recalibração de todas das metas, sob o argumento de que essas metas foram estabelecidas antes da invasão da Ucrânia. Estão pensando ainda em pedir um novo financiamento de um fundo de estabilidade e resiliência que o FMI criou neste ano. Será uma negociação importante. Massa terá de demonstrar que está fazendo todo o possível para tentar se aproximar das metas deste ano.
Pense que a meta para este ano era de déficit fiscal de 2,5%. Estamos com 3,5%. Com ajustes que está fazendo, Massa poderá ganhar meio ponto, mas faltará ainda meio ponto, que deverá ser o “waiver”. Mas a meta do ano que vem é de 1,9%. Ou seja, para poder negociar, ele terá de apresentar as linhas gerais do orçamento do ano que vem confluindo para 1,9%. Isso implica um ajuste muito forte para um ano eleitoral. A política vai permitir isso? Vai ser um ano difícil.
Valor: Viver com os próprios meios significa fazer um ajuste fiscal importante, o que por sua vez exige pedir sacrifícios e distribuir os sacrifícios pela sociedade, o que é muito difícil. Alguém tem um plano viável para isso na Argentina?
Sica: Nós, na oposição, estamos trabalhando para isso. Mas temos que ver isso só como um programa de ajuste. A Argentina tem um sistema de empresas públicas totalmente deficitário, que hoje não tem mais sentido no mundo. Tem uma empresa aérea estatal na qual os contribuintes têm de por US$ 2 milhões por dia. Temos de fazer correções importantes no Banco Central, que hoje serve principalmente para financiar o setor público. Precisamos eliminar essa possibilidade e dar-lhe novamente a função de cuidar da moeda. Precisamos recuperar nossa moeda, para que os argentinos possam poupar em pesos e o país possa ter um mercado de capitais que permite a expansão do setor privado.
É nisso que a oposição está trabalhando. O detalhamento dessas medidas vai depender muito do grau de crise com que a economia chegará em dezembro de 2023 [quando o próximo governo assumirá]. Mas as linhas das reformas macro são essas. Há também reformas microestruturais, do sistema trabalhista, da regulação da economia, do processo de maior integração ao mundo, para tirar os obstáculos que hoje impedem que o setor produtivo se desenvolva.
Hoje a Argentina tem 6 milhões de trabalhadores formais e 7 milhões de informais, que não têm nenhum direito. Claramente é preciso modernizar isso. É preciso criar novas formas de empregos. Hoje temos formas de emprego que respondem à segunda Revolução Industrial, quando já estamos entrando na quinta.
Temos de ser uma economia mais integrada ao mundo. Alguns setores empresariais, que viveram ou usufruíram de uma economia fechada, vão ter de se transformar, com o apoio, claro, do setor público, para ter mais competitividade.
A política vai ter de se adaptar também. O governo atual está fazendo um ajuste no setor privado, mas precisamos de um Estado menor, porém mais eficiente, para que a população também veja que o sacrifício é feito por todos
Isso tudo faz parte de um pacote de reformas que levarão tempo, mas que é preciso mostrar à sociedade desde o primeiro dia.
Valor: Isso é uma necessidade desde o governo Alfonsín, nos anos 80, mas nunca aconteceu, com diferentes governos. Por que a Argentina tem tanta dificuldade de fazer essas reformas?
Sica: Porque a classe política argentina, especialmente o peronismo, que governou por mais tempo, não conseguiu chegar a um acordo, não conseguiu entender que não há magia nem atalhos na situação econômica. Ninguém quis assumir os custos políticos.
Para que a economia cresça, como fizeram vários países da região, o Chile, o Peru, a Colômbia, a Bolívia, o Brasil, temos de ter regras claras nas instituições. E, de novo, isso quer dizer equilíbrio fiscal, ter uma autoridade monetária que cuide do valor da moeda e ter processos de integração com o mundo, para competir nos mercados.
Valor: Porque o governo Macri, do qual o sr. participou, não conseguiu fazer isso?
Sica: Cometemos alguns erros no início e depois tivemos uma situação externa difícil, com fechamento dos mercados internacionais. De início subestimamos o tamanho da crise que o governo anterior [de Cristina Kirchner] nos havia deixado e superestimamos a esperança de que nossa chegada poderia gerar uma mudança de expectativas importante.
Além disso, tínhamos duas restrições fortes. Por um lado, fomos o governo institucionalmente mais fraco da história argentina. Macri ganhou a eleição por apenas dois pontos de diferença. E, dos mais de 270 deputados na Câmara, tínhamos apenas 60, que é menos da metade para ter maioria. E tínhamos só 5 senadores dos mais de 70. Não tivemos força para aprovar um pacote de reformas mais profundo. Em segundo lugar, a sociedade não tinha uma ideia claro da necessidade das mudanças que precisavam ser feitas.
Isso tudo gerou, na primeira etapa do governo, alguma falta de coordenação em termos de políticas monetária e fiscal. Assim, o caminho de melhoras que vínhamos fazendo ficou mais lento do que era necessário. Quando veio a crise, em 2018, obrigou-nos a fazer uma correção fiscal muito forte, que foi feita, mas que acabou nos custando a eleição em 2019.
Valor: Então voltou o modelo anterior.
Sica: Voltou a ideia da magia. Acho que as pessoas estão frustradas com esse governo, pois Fernández vendeu que podia controlar Cristina, que ele era diferente e que iria predominar e impor as regras do jogo, o que não ocorreu. E agora muitas das medidas que estão sendo tomadas eram as que nós defendíamos, o que nos dá razão. Essa frustração faz as pessoas entenderem que não basta fazer remendos, que não há magia nem atalhos, e favorece tomar as medidas que podem enfrentar o problema.
Valor: A oposição acha que obterá maioria no Congresso na próxima eleição para fazer reformas?
Sica: Independentemente de que será o candidato, se a oposição ganhar as eleições no ano que vem, a coligação Juntos pela Mudança deverá ficar muito perto de ter maioria na Câmara e seria a primeira minoria em senadores. Ou seja, contamos ter uma situação política muito mais favorável. Isso por dois fatores: Estamos mais bem articulados politicamente e porque a crise que vivemos, tanto de saúde como econômica, deve nos dar um mandato popular e um consenso maiores.
Valor: E as relações com Brasil, podem ajudar ou dificultar isso?
Sica: Quando nossos países não crescem, as relações se deterioram, o ambiente se deteriora. As exportações argentinas, especialmente dos setores industrial, automotivo e alimentício, caem quando o PIB brasileiro cai. Hoje estamos num mínimo de comércio bilateral, menos de 14%, quando antes havia quase 30% de comércio com o Brasil. A estabilidade do Brasil é importante para a região, é importante para a Argentina no seu processo de recuperação, para ter um sócio que lhe ajude
Valor: Muda algo com Bolsonaro ou com Lula?
Sica: Não sempre que há correspondência ideológica, as coisas funcionam melhor entre nossos países. Precisamos de uma negociação muito sério dentro do Mercosul para que as relações, em especial entre Argentina e Brasil, tenham a ver mais com os interesses e com políticas de Estado do que com políticas de governo. Não podemos depender se é Lula ou Bolsonaro, se é Fernández ou Macri.
Valor: Que Bolsonaro não vá às cúpulas do Mercosul não ajuda.
Sica: Não. É impossível pensar um Mercosul que tracione as economias dinamicamente quando os presidentes dos países mais importante ficam três anos sem se falar. Isso não deveria acontecer.
Valor: Temos agora um novo ciclo de esquerda na América Latina, que pode se ampliar se Lula vencer as eleições no Brasil. O que está acontecendo agora na Argentina é um sinal de que esse ciclo pode ser mais difícil e curto que o anterior, no começo dos anos 2000?
Sica: Sim. Até porque é difícil fazer populismo sem dinheiro.
As eleições na América Latina após a pandemia têm três elementos. O primeiro é que estão ganhando os candidatos extremistas; no caso do Chile, os partidos tradicionais foram relegados. Segundo, está perdendo quem está no governo, independentemente da cor política. Vínhamos de um ciclo mais de centro-direita, assim que, se quem está no governo perde, então é mais a direita que perdeu. Mas isso não quer dizer que está havendo um ressurgimento da esquerda. E terceiro, ao não ter controle do Legislativo, esses novos governos têm dificuldade para governar ou fazer as reformas que prometeram na campanha, o que gera tensão social.
No caso do Brasil, se Lula ganhar, terá o desafio de voltar ao governo depois de 12 anos, num mundo que mudou. Houve mudanças importantes na geopolítica, na economia e nos negócios, nos países. Isso é importante, porque os políticos não mudam ou têm muita dificuldade de mudar. Não está claro o que viria, após um ciclo anterior [de Lula] que na sua época foi bem sucedido.
Fonte: Valor Econômico
