Por Marina Guimarães — Para o Valor, de Buenos Aires
11/10/2023 05h03 Atualizado há 3 horas
Na parede da sala de Martín Redrado, em Buenos Aires, há um quadro com notas de 100 pesos. A obra, diz o ex-presidente do Banco Central da Argentina, o faz recordar que quando assumiu o cargo, em 2004, essa nota valia US$ 30; hoje, US$ 0,11. Ele não faz previsão de piso para o valor da moeda.
O economista com o segundo maior tempo no cargo – seis anos – diz que a instabilidade cambial está relacionada com o nível de reservas “negativas em US$ 5 bilhões e a emissão de pesos para financiar o déficit fiscal”. Foi para evitar essa situação que, em janeiro de 2010, Redrado e a então presidente Cristina Kirchner tiveram uma queda de braço. Ele acabou sendo demitido por se negar a transferir reservas ao Fundo do Bicentenário.
Redrado foi secretário de Comércio e Relações Econômicas Internacionais entre 2002 a 2004, período conflitivo no comércio com o Brasil, mas que lhe deu a oportunidade de desenvolver uma boa relação com o país. “A Argentina deve trabalhar em um programa como foi o Plano Real, como foi o Programa de Estabilização Fiscal e Monetária e de Crescimento”, diz com admiração o plano que estabilizou a economia brasileira.
Ocupou vários cargos em organismos nacionais e internacionais e, atualmente, é secretário de Relações Internacionais do governo de Buenos Aires, cujo prefeito é Horacio Larreta, que perdeu para Patricia Bullrich (Juntos por el Cambio) a disputa nas eleições primárias. A candidata aparece como terceira na intenção de votos, depois do ministro de Economia, Sergio Massa (Unión por la Patria).
Ele é taxativo ao rejeitar o plano do candidato líder nas pesquisas, Javier Milei (La Libertad Avanza), de acabar com a autoridade monetária. “Pensar que fechando o BC vai eliminar a inflação é não entender as causas do problema, que são fiscais”, afirmou. Em política econômica, continua, “não há atalhos para resolver os problemas”.
Pensar que fechando o Banco Central vai eliminar a inflação é não entender as causas do problema, que são fiscais”
Observa que “todos os países do mundo com matriz produtiva diversificada têm BC e câmbio flutuante, com maior ou menor intervenção”. Também avalia que a Argentina “não tem mais margem de manobra” porque a crise é tão grave que obrigará o futuro governo a realizar reformas em dezembro. “Não há margem para gradualismo”, sentencia.
Para Redrado, já no dia da posse, em 10 de dezembro, o novo presidente terá que anunciar um pacote de leis e explicar o cenário da crise: “Um país sem financiamento, com PIB per capita estagnado desde 2007, pobreza acima de 40%, desigualdades e todos os indicadores da economia com distorção de preços relativos”. A seguir, leia os principais trechos da entrevista concedida em Buenos Aires.
Valor: O que o senhor pensa da proposta do candidato Javier Milei de acabar com o Banco Central?
Martín Redrado: Em política econômica não há atalhos. O problema central da inflação na Argentina é de natureza fiscal. A consequência é monetária. Pensar que fechando o BC vai eliminar a inflação é não entender que tem que atacar as causas, que são fiscais.
Todos os países do mundo com matriz produtiva diversificada têm BC e câmbio flutuante, com maior ou menor intervenção. No último ano a alta da taxa de juros nos EUA foi a mais abrupta, e isso produziu uma apreciação do dólar. Se a Argentina não tivesse BC e estivesse dolarizada, isso teria significado uma apreciação do peso que não condiz com os fundamentos da nossa economia e teria gerado uma desvantagem competitiva para a produção doméstica. O problema não é o BC. O meu livro “Sem reservas” aborda a questão de ter um BC que não financia o setor público, como é o caso no Brasil e em países que funcionam. A Argentina precisa de um programa econômico integral, com equilíbrio fiscal e um BC independente.
Valor: Qual é a receita para isso?
Redrado: A Argentina, por sorte, não tem mais margem de manobra. Acabou! Não há crédito doméstico nem internacional. Só nos resta a vontade da classe política e dos acionistas do Fundo Monetário Internacional, de que a Argentina não entre em default. Por isso, temos um programa bastante medíocre, mas que permite rolar a dívida. E temos uma inflação altíssima, distante dos 25%, de 2011 a 2015, quando assumiu [Maurício] Macri, ou dos 54% quando assumiu Alberto Fernández. Já estamos em 180% e financiando o déficit fiscal com emissão monetária.
Não há margem para gradualismo. Se o BC continuar financiamento o déficit, haverá um choque cambial ou inflacionário ainda maior no curto prazo. Penso que, no dia 10 de dezembro, o próximo presidente terá que apresentar um pacote de leis e expor a gravidade da situação argentina: um país sem financiamento, com um PIB per capita estagnado desde 2007, uma pobreza superior a 40% da população, desigualdade e todos os indicadores da economia com distorção de preços relativos.
Valor: Um novo governo poderá resolver a crise de confiança?
Redrado: Se não dermos respaldo legal ao próximo governo de, pelo menos, 50 mais 1 no Congresso para fazer uma reforma do Estado séria, que permita um orçamento para baixar em 4 pontos o déficit fiscal, uma lei que dê independência ao BC e que elimine o financiamento ao setor público, nenhuma medida funcionará.
A Argentina deve trabalhar em um programa como foi o Plano Real [do Brasil], um programa de estabilização econômica. Tem que apresentar um pacote de leis para promover o ordenamento fiscal e monetário e modernizar nosso sistema tributário. A Argentina tem um nível de informalidade muito alto, por isso, tem de simplificar e ampliar a base de tributação.
Uma outra lei para impedir que o governo restrinja as exportações e um plano para reduzir impostos sobre exportação [retenciones] consistente com a estabilidade fiscal. Também uma lei federal de infraestrutura, que seria chave na relação com o Brasil, pois trataria da integração física e energética. São obras-chave em direção a um transporte multimodal e maior integração. Finalmente, uma lei para os setores de energia e mineração.
A Argentina tem que ordenar seu setor público, mas também tem de projetar um horizonte de crescimento. Há cinco anos que o salário real está em queda. É muito complexo, porque há tensão social. Então, não pode apresentar só um plano de estabilização, tem que ser de crescimento também.
Valor: Onde estão as fontes de crescimento no curto prazo?
Redrado: Em energia, mineração, agro, turismo e serviços. Para os dois primeiros, é necessária uma obra no gasoduto da transportadora de gás do norte para não só enviar, mas também receber gás utilizando o gasoduto que liga Bolívia a Mato Grosso e depois São Paulo. Outra obra fundamental é o gasoduto de Vaca Muerta para Bahia Blanca e uma planta de liquefação que nos permita exportar à União Europeia. Tem que permitir às empresas deixar no exterior 30% da receita de exportação para poder financiar esses investimentos e que não estejam sujeitas a controles de câmbio. Além disso, é importante fazer tratados internacionais para energia, como o caso do gás (Argentina, Bolívia, Brasil), por exemplo, ou para o Triângulo do Lítio (Argentina, Bolívia e Chile). Uma vez aprovados pelo Congresso, os tratados têm um status igual ao da Constituição, e isso gera segurança jurídica.
Valor: Ou seja: o senhor propõe um pacote de choque abrangente.
Redrado: Tem que fazer tudo junto. A sequência para sair dessa crise é: expor a gravidade da situação, apresentar o pacote de leis, cuja aprovação pelo Congresso teria de ser feita em dezembro, com sessões extraordinárias. E, nos primeiros dias de janeiro, a equipe econômica tem que negociar um novo acordo com o FMI.
Valor: Quem ganhar as eleições terá condições de aprovar choques em um Congresso dividido?
Redrado: Boa pergunta! Temos que ver o resultado final da eleição, se ganha em primeiro ou segundo turno. Estou convencido que, no início, haverá uma onda favorável, mas [o novo governo] terá pouco tempo e terá que aproveitar.
Valor: A lua de mel será curta?
Redrado: Muito curta. Acho que nada mais do que dezembro [mês da posse]. Nesse contexto complexo, 60% ou talvez 70% votaram por uma mudança nas primárias. Quem liderar o país terá de passar uma mensagem direta à população para que pressione os parlamentares. Será um desafio.
Valor: A Argentina tem condições de dolarizar a economia?
Redrado: O mercado está instável porque há dúvidas se a Argentina vai na direção de um processo de maior racionalidade econômica. Por que caem tanto os bônus? Para mim é pela falta de detalhes do principal candidato sobre seus planos. Temos tido diversas versões sobre a dolarização e o BC. O conceito estrito de dolarização, que é a troca da quantidade de pesos em circulação por dólares no BC, será muito difícil de adotar porque as reservas são negativas. Também o ouvimos falar de reformas de primeira e segunda geração: vai com a famosa motosserra no setor público, reformas trabalhistas, etc. E, no fim, viria a dolarização. A incerteza que estão sinalizando os títulos argentinos é sobre esse processo, que não sabemos como, nem quando ocorrerá.
Valor: Como vê essa declaração de Milei de que não terá relação com o Brasil, nem com a China?
Redrado: Creio que vai haver um processo de aprendizagem de quem for presidente. Uma coisa é campanha, talvez, por falta de experiência. Milei diz que admira muito [o ex-presidente Carlos] Menem, que em sua campanha falou de revolução produtiva, e acabou fazendo algo totalmente diferente. Em lugar de fazer especulações, temos que ver se vai ganhar, quais serão os ministros e as definições em termos de política interna e externa. A relação com o Brasil é estratégica e tem sido uma política de Estado. Essa relação e o Mercosul contam com aprovação de 70% da população argentina.
Valor: Algum dos candidatos tem o seu apoio?
Redrado: Não vou expressar.
Valor: É a primeira vez que na Argentina tem um outsider como favorito e uma terceira força política. O senhor acha o cenário positivo?
Redrado: Outsiders são fenômenos mundiais, não é fenômeno argentino. Nós tivemos a experiência no Brasil, muito recente, na Europa, nos EUA e no Chile também. E a Argentina segue a tendência.
Valor: E Milei se apresenta como um personagem polêmico. O que pensa sobre ele?
Redrado: Eu o conheço. Parece ser muito inteligente. Acredito que uma coisa é a sua face midiática, outra o seu papel como candidato. No debate [com outros presidenciáveis] mostrou-se equilibrado. Não teve exasperações, até pediu desculpas por suas expressões em relação ao Papa quando não era candidato. Vejo nisso um processo de aprendizagem. Vejo-o como uma pessoa talentosa, inteligente, que escuta. Mas, como dizem, o júri está deliberando. Não podemos fazer um julgamento final.
Valor: O senhor acha que é será possível superar a crise?
Redrado: Sem leis que abarcam o conceito de estabilizar e criar eixos de crescimento da economia argentina, é impossível. A crise é mais grave porque não é uma crise de dívida, como a que tivemos em 2001, é uma crise que tem seu reflexo no câmbio e na inflação. Eu acho que qualquer um dos três candidatos tem que domar o touro pelos chifres. A diferença desta crise é que se alguém não a vê, vai quebrar o país em três meses.
Os candidatos falam em unificação cambial o mais rápido possível. Como se faz isso? É com o dólar financeiro baixando ou será como o processo de 2001, no qual a cotação mudou várias vezes até estabilizar o valor em meados de 2002. Depois disso, teve overshooting – o dólar foi de 1,40 em janeiro a 4, em abril, e acabou em 3.
Valor: O senhor vê semelhanças desta crise com a de 2000/2001?
Redrado: Não, pois são duas crises distintas.
Valor: É possível prever um piso para essa desvalorização do peso?
Redrado: A alta do dólar está relacionada com o nível de reservas do BC, que é negativo em US$ 5 bilhões, e com a emissão de pesos para financiar o déficit fiscal. A Argentina tem muitos pesos, poucos dólares. É impossível de prever e não seria sério de minha parte.
Fonte: Valor Econômico

