Após um primeiro bimestre forte, com alta de 52,4% no volume, o mercado de crédito privado pôs o pé no freio. O total de emissões de debêntures e outros papéis recuou 3,5% nos quatro primeiros meses do ano, para R$ 150,5 bilhões. Os dados são de levantamento feito pela MerCap Solutions, plataforma de inteligência de dados e serviços para o setor, para o Valor.
Considerando apenas abril, o recuo foi de 36%, de R$ 44,7 bilhões para R$ 28,5 bilhões em relação ao mesmo mês do ano passado. Em março, a queda havia sido de 28%. Como a base de comparação é muito forte, já que o ano passado foi de recordes porque muitas empresas anteciparam emissões para aproveitar o momento favorável, fontes do setor preveem que o total captado cairá 30% em 2025.
O recuo significativo no segundo bimestre foi influenciado pela forte elevação dos juros no Brasil e pela captação menor dos fundos de crédito, além do fato de que as empresas que têm acesso ao mercado de capitais já estão bastante capitalizadas, explica Felipe Wilberg, diretor de renda fixa e produtos estruturados do Itaú BBA. “O início do ano não foi bom para os fundos, então os gestores ficaram mais cautelosos, e também caiu a demanda de pessoas físicas para compra direta de debêntures incentivadas”, diz.
O executivo afirma que, como os investidores não gostam de volatilidade, a variação dos prêmios de risco no fim do ano passado acabou assustando e levando a saques dos fundos. “Com a melhora da procura, os gestores voltaram a comprar, então o mercado já está retomando as operações.”
Embora tenha acontecido no mês passado, o “tarifaço” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não chegou a afetar o mercado porque as operações que foram para a rua já estavam sendo estruturadas desde janeiro, diz Matheus Licarião, responsável por emissões locais no Santander. Ele também ressalta que a volta dos aportes nos fundos de crédito privado já levou a um fluxo de ofertas em formação que garante um bom volume até meados de outubro, “exceto se houver alguma mudança externa mais significativa”.
Relatório do BTG Pactual indica que, em março, os fundos de crédito captaram R$ 13 bilhões e os focados infraestrutura ficaram positivos em R$ 1 bilhão. Em abril, até dia 14, captaram R$ 10 bilhões e R$ 2 bilhões, respectivamente.
Conforme o levantamento da MerCap Solutions, nos primeiros quatro meses do ano, certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs) e imobiliários (CRIs) tiveram redução no volume de 35,3% e 40,9% no comparativo anual, respectivamente. As debêntures institucionais caíram 14,1%. As incentivadas e as notas comerciais, por sua vez, aumentaram o volume em 49,6% e 22,4%, respectivamente. No total, o volume de ofertas foi de R$ 150,5 bilhões, 3,5% menor que os R$ 156 bilhões do ano passado.
O início do ano não foi bom para os fundos e também caiu a demanda de pessoas físicas por debêntures incentivadas”
Para o mercado corporativo, o volume de emissões deve ser manter limitado, diante das más condições macroeconômicas. Já as de infraestrutura devem se manter fortes, já que estão ligadas a grandes projetos, muitos originados de concessão pública, obtida via licitações. Ou seja, investimentos que não podem deixar de ser feitos.
Fontes de mercado duvidam da capacidade de absorver o volume dessas emissões grandes de infraestrutura ainda por vir, o que obrigaria os bancos a encarteirarem os títulos. “O mercado pode ficar ‘empoçado’”, diz um executivo.
Vários fundos de infraestrutura, inclusive, estão fechados para captação, já que, diante da alta demanda do ano passado, cresceu o número de títulos que estão oferecendo o mesmo retorno que a NTN-B ou até mesmo abaixo. Na Vinland Capital, que tem R$ 8 bilhões sob gestão somente em crédito, por exemplo, já há dois fundos que não estão aceitando novos aportes e, segundo Jean-Pierre Cote Gil, gestor de crédito, a equipe discute fechar outros dois. “Estamos mais conservadores porque os spreads estão muito baixos, em um ambiente macro que não contribui. Não temos fundos com liquidez diária porque não queremos ser forçados a comprar esses papéis com prêmios muito baixos”, diz.
Nas debêntures corporativas, o cenário adverso vem concentrando as emissões nas maiores empresas, com classificação de risco de “BB+” para cima, consideradas de bom perfil de crédito (“high grade”). “Não chega a ser um ‘flight to quality’ [fuga para ativos de baixo risco], mas há mais seletividade”, diz Ricardo Rocha, diretor do ABC Brasil Investment Bank. Segundo ele, as emissões para reestruturação de dívidas, voltadas ao alongamento do passivo, estão mais representativas que no ano passado, mas ainda se veem investimentos em projetos. Mas Gustavo Bellon, também diretor do ABC, destaca que os prazos estão menores que em 2024, quando os vencimentos em dez anos eram comuns. Agora, ficam entre cinco e sete anos.
Licarião conta que acompanhou o desempenho dos papéis “high grade” (triplo A e duplo A+) nos 15 dias depois do “tarifaço” de Trump e os prêmios de risco ficaram estáveis, com recuo de apenas 0,03 ponto percentual. “No ano passado tinha espaço para todos. Neste ano, o investidor já olha quem está mais alavancado e quem pode ser mais impactado pela conjuntura econômica.”
Para ele, a piora do mercado externo após o anúncio das tarifas pode até levar algumas empresas que emitiriam lá fora a recorrer ao mercado doméstico. “As empresas estão capitalizadas. Boa parte das operações agora é para aproveitar a oportunidade e eventualmente até recomprar papéis no exterior.”
Fonte: Valor Econômico
