Por Marcelo Osakabe — De São Paulo
12/01/2023 05h00 Atualizado há 6 horas
Contrariando as expectativas da maior parte dos economistas, a recuperação do mercado de trabalho brasileiro iniciada ainda em 2021 manteve fôlego em 2022, não apenas devolvendo as perdas causadas pela crise da covid-19, mas derrubando a taxa de desemprego para patamares não vistos desde 2014. No entanto, mesmo diante de sinais de superaquecimento das contratações – que se enfraqueceram no fim do ano, a renda média real dos trabalhadores cresceu mais lentamente e ainda não retomou patamares de antes da pandemia. Economistas estimam que esse processo pode chegar ao fim apenas em 2023 ou mesmo nos anos seguintes.
Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, o rendimento médio real habitual dos brasileiros alcançou R$ 2.629 no trimestre encerrado em outubro, alta de 4,7% em relação ao mesmo período de 2021. Ainda assim, ele está entre 2% e 3% abaixo do período pré-pandemia, a depender do ajuste sazonal aplicado.
Diferentemente da recuperação do emprego, que ocorreu de forma paulatina entre 2021 e 2022, o achatamento da renda tem demorado a se reverter. Num primeiro momento, após o baque da pandemia, muitos brasileiros acabaram aceitando salários menores ou postos de trabalho mais baixos para se recolocarem no mercado. Essa situação levou o rendimento médio real do trabalhador a ter queda de 8,9% em dezembro de 2021, quando comparado aos patamares observados em fevereiro de 2020, nos cálculos da LCA Consultoria.
“Durante pandemia, a ampla ociosidade do mercado colocou o poder de barganha na mão das empresas e empregadores”, lembra Rodolfo Margato, da XP Investimentos. “Agora, com o desemprego corrente rodando inclusive abaixo da Nairu [taxa abaixo da qual, estima-se, o mercado de trabalho começa a ter impacto sobre a inflação], a situação inverteu e a barganha estaria mais do lado dos empregados”, acrescenta. Margato pondera que a situação varia bastante entre indústrias e regiões – em Santa Catarina, a desocupação roda perto de 5%, enquanto em Estados do Nordeste chega a 12%.
Outro fator que “atrasou” essa convergência foi a inflação, cuja variação em 12 meses rodou em dois dígitos entre setembro de 2021 e julho desse ano, o que acabou corroendo o poder de compra dos reajustes mesmo diante de aumentos nominais fortes.
Com a esperada desaceleração da inflação nos próximos meses e o mercado de trabalho ainda aquecido, o rendimento real deve continuar se recuperando, diz Margato. A XP calcula que esse indicador ainda esteja 3% abaixo do nível pré-pandemico e que esse buraco só será fechado no segundo semestre de 2023.
Para Gabriel Couto, economista do Santander, outro fator que ajuda a emperrar a recuperação do rendimento real foi a falta de reajuste para servidores públicos nos últimos dois anos. “Uma retomada mais rápida, nesse sentido, dependeria de movimentações para repor as perda desse segmento de trabalhadores”, diz.
Couto avalia que esse movimento será lento no curto prazo, na esteira do próprio desempenho mais comedido do mercado de trabalho. O Santander estima que a taxa média anual de desocupação deve voltar a crescer ligeiramente nos próximos dois anos, passando de 9,5% em 2022 para 10,1% em 2024. Nessa toada, diz, o rendimento médio real efetivo – métrica que considera o rendimento habitual e também variações extraordinários ou esporádicos, desde o 13º salário até bonificações – não deve se recuperar totalmente até 2025 ou ficar até para 2026.
Nos cálculos de Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, a retomada do patamar pré-pandêmico deve ocorrer apenas no primeiro semestre de 2026. Colabora para esse cenário bastante gradual um contingente ainda expressivo da população na informalidade e o esfriamento da dinâmica do emprego.
Uma outra forma de medir a perda de poder de compra do trabalhador, diz, é usar a cesta básica como proporção do rendimento médio nominal. Usando preços praticados em São Paulo, Imaizumi calcula que, na média, um trabalhador gastava 22% de sua renda para adquirir a cesta em fevereiro de 2020. A proporção chegou a 31,3% em abril de 2022, antes de recuar a 27,7% em outubro.
“O que quero destacar é que a renda pode melhorar, mas talvez não na mesma velocidade que a variação de preços importantes para alguns grupos, como alimentos”, diz. Ele calcula que a cesta seria de 25,2% da renda no fim de 2024. O cenário de Imaizumi também contempla um mercado de trabalho relativamente estável, com taxa média de desemprego passando de 9,2% em 2022 para 8,8% em 2023.
Um último fator que deve ajudar a postergar esse movimento é o arrefecimento da geração de vagas formais – que geralmente pagam melhores salários. Após superar consistentemente as expectativas no primeiro semestre, a criação de postos com carteira assinada perdeu ímpeto. Em outubro, foram geradas 159 mil postos, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) contra expectativa de 210 mil.
“Alguns estudos começam a mostrar que, diante do desaquecimento da economia, a informalidade volta a ganhar algum fôlego”, diz Rodolpho Tobler, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas. Ele pondera, no entanto, que dificilmente vê essa taxa superando os 40%. Em agosto, a informalidade foi recorde, 39,1%, mas cedeu ligeiramente desde então.
Nesse sentido, continua o pesquisador, mesmo o aumento real de 1,4% do salário mínimo para 2023 de R$ 1.302 anunciado pelo governo – o primeiro desde 2019 – deve ter efeito limitado, dado o grande contingente de informais.
Fonte: Valor Econômico

