Desde maio, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, se viu numa situação difícil: por mais que indicasse que a política monetária seria mais conservadora, não conseguia convencer os mercados, que tinham receios sobre qual seria o comprometimento no combate à inflação quando um indicado pelo presidente Lula assumisse a instituição.
Naquele período, o mandato de Campos Neto começava a acabar, e se iniciava uma espécie de transição para o governo petista. Agora, com o anúncio da indicação pelo presidente Lula do diretor de política monetária do BC, Gabriel Galípolo, começa oficialmente o processo de troca no comando na autoridade monetária.
Desde junho, os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) começaram a combinar, em mais detalhes, o que falariam em público, para evitar ruídos que pudessem sinalizar que havia divisões políticas dentro do Copom.
A partir de agosto, Galípolo se tornou, de fato, o porta-voz da política monetária. Foi o primeiro a dar o recado sobre juros depois da reunião de julho do Copom, e colocou-se do lado mais conservador, embora sem desrespeitar a decisão do comitê de não dar uma sinalização firme sobre juros.
A partir da próxima reunião, de setembro, é inevitável a conclusão de que o Copom será comandado por dois presidentes. Mas isso não deve ter maiores consequências práticas no processo decisório: o comitê está coeso e, provavelmente, vai tomar decisões unânimes até o fim do ano, quando a transição deve finalmente se completar.
Mas, a partir de agora, a responsabilidade sobre os erros e acertos começa a cair sobretudo em Galípolo, que terá o desafio de conquistar a credibilidade perante o mercado financeiro em um ambiente inflacionário desfavorável.
Seu desafio é comum a todos os banqueiros centrais: baixar a inflação muito alta sem provocar uma forte queda da economia, ou uma recessão. A inflação corrente, em 4,5%, está no limite do intervalo de tolerância da meta, cujo centro é 3%. As expectativas de inflação do mercado financeiro estão desancoradas. O dólar segue acima de R$ 5,50, e a economia dá sinais de que opera no limite de sua capacidade.
O maior problema, porém, é a percepção de setores do mercado financeiro de que ele tem um mandato limitado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para subir os juros. Para alguns, ele poderia até apertar a política monetária, mas não a ponto de provocar uma desaceleração da economia.
Também há dúvidas se a política fiscal do governo Lula será responsável o suficiente para garantir sustentabilidade da dívida pública, sem o que não há Banco Central que consiga controlar a inflação.
Hoje, Campos Neto procurou aliviar um pouco o peso nas costas de Galípolo. Num evento do banco SantanderCotação de Santander, disse que “não existe ciclo de credibilidade versus ciclo de hiato”. Ou seja, para ganhar reputação, o BC não precisa dar uma de durão, provocando uma recessão desnecessária.
Galípolo quer criar credibilidade criando uma reputação de quem faz exatamente aquilo que fala. Esse foi o argumento que ele usou, por exemplo, para votar por um corte de 0,5 ponto percentual na reunião de maio do Copom, cumprindo um movimento que havia sido firmemente anunciado.
Ele tem repetido, em discursos públicos, que não será um Ronaldinho Gaúcho, que tinha uma jogada famosa em que olhava para um lado para enganar o adversário e passava a bola para o outro lado.
Ex-banqueiro, ele ainda terá que se provar numa função de banqueiro central, que exige conhecimento e capacidades totalmente diferentes. Precisará de um operador de mercado para substituí-lo na diretoria de política monetária. Hoje, nesta tarefa, ele se beneficia da experiência de Campos Neto na área. Diogo Guillen, o economista que cuida dos modelos do BC, pretende seguir no cargo de diretor de política econômica até o fim do seu mandato, em 31 de dezembro de 2025.
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Fonte: Valor Econômico


