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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou ontem o diretor de política monetária do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, para assumir a presidência da instituição a partir de 2025. O anúncio foi feito pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, no Palácio do Planalto, após reunião entre os três. O governo trabalha para que a sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) aconteça o quanto antes, mas há resistência do presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), em relação à possibilidade de antecipá-la para antes das eleições municipais.
O nome de Galípolo já despontava nas bolsas de apostas desde o ano passado e ganhou ainda mais força nos últimos meses, passando a ser um nome visto positivamente por participantes do mercado. Os desafios para o dirigente no comando do BC, porém, são imensos e passam tanto pelo campo econômico quanto pelo político.
A continuidade do processo de desinflação é um deles. Ainda na diretoria do BC, Galípolo terá pela frente decisões em que há uma expectativa crescente no mercado por uma elevação dos juros, justamente para combater a alta das expectativas de inflação. Desde o início do governo Lula, o mercado tem elevado as expectativas de inflação de médio prazo, em um processo que se intensificou diante de alguma preocupação dos agentes com uma eventual leniência do BC com a inflação a partir de 2025. O diretor tem ganhado credibilidade com os agentes de mercado, mas ainda não há uma confiança plena do mercado em Galípolo.
O combate à inflação também pode incluir eventuais embates com a área política do próprio governo. Desde o início do governo, uma ala do governo e integrantes do PT têm sido vocais contra a condução da política monetária. Nesse sentido, uma guinada dos juros para um campo ainda mais restritivo, diante, justamente, de um mercado de trabalho e atividade econômica bastante aquecidos, pode dar fôlego a novos ataques ao BC, especialmente caso a Selic volte a subir ou demore ainda mais a cair com Galípolo já no comando da autoridade monetária.
Vale notar que, ontem, o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, voltou a tecer críticas ao BC e apontou que falar em aumento de juros no Brasil neste momento seria uma irresponsabilidade e poderia ter um efeito danoso ao orçamento público. “Isso é uma aberração econômica”, afirmou.
Dar continuidade à agenda de tecnologia, com o aperfeiçoamento do Pix e a chegada do Drex, são outros desafios que entram na lista de Galípolo e que agora têm sido tocados pelo presidente da autarquia, Roberto Campos Neto.
Com a indicação de Galípolo, o governo precisará fazer mais três nomeações para a diretoria do BC. Ontem, Haddad disse que ainda não está definido o sucessor da diretoria de política monetária nem os nomes dos futuros diretores de regulação, no lugar de Otávio Damaso, e de relacionamento, cidadania e supervisão de conduta, no lugar de Carolina de Assis. Os mandatos dos dois também terminam em dezembro, assim como o de Campos.
O anúncio foi protocolar. Nem Galípolo nem Haddad responderam a perguntas. O diretor do BC disse, apenas, estar contente com a indicação e afirmou ser, “na mesma magnitude, uma honra, um prazer, uma responsabilidade imensa ser indicado à presidência do Banco Central do Brasil”.
A formalização da escolha de Galípolo tem duas fases no Senado Federal. A primeira é na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e, a segunda, no plenário da Casa. O indicado precisará ter apoio da maioria simples para ser aprovado. Concluído o trâmite com sucesso, ele terá mandato de quatro anos a partir da sua nomeação no “Diário Oficial da União”.
Há, porém, alguma incerteza sobre a tramitação da indicação de Galípolo no Senado. Um dos sinais do descontentamento de Rodrigo Pacheco foi o fato de ele não ter sequer atendido Haddad antes do anúncio oficial sobre a escolha de Galípolo. A situação foi manifestada publicamente pelo ministro, ao dizer que tentou falar com o presidente do Senado, mas não conseguiu e que voltaria a ligar para falar sobre o tema. Ainda assim, Haddad fez o comunicado à imprensa.
A relação entre Pacheco e Haddad está estremecida há alguns meses, principalmente em função de divergências entre eles sobre o projeto do presidente do Senado que trata da renegociação da dívida dos Estados.
Apesar da resistência de Pacheco, o presidente da CAE, Vanderlan Cardoso (PSD-GO), já aceitou que a sabatina possa ocorrer no próximo dia 10 de setembro. Na terça-feira, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), citou a possibilidade de fazer um “esforço concentrado” na segunda semana de setembro.
A ideia do presidente da CAE é que Galípolo procure senadores na próxima semana, que já será de esforço concentrado, ou seja, com sessões presenciais, para preparar o terreno a articular a aprovação de seu nome.
O Valor mostrou que o Palácio do Planalto já vinha discutindo antecipar, há algum tempo, a indicação de Galípolo. O motivo seria a constatação de que seria mais fácil designar a presidência do BC para um nome interno da diretoria do que trazer um candidato externo. Nesse sentido, segundo assessores próximos, Lula ficou convencido de que seria uma operação mais complexa e turbulenta escolher alguém de fora do BC para chegar e ser presidente.
Atual presidente do BC, Roberto Campos Neto parabenizou Galípolo. Em nota publicada no site do Banco Central logo após o anúncio, ele destacou que a transição será feita “da maneira mais suave possível, preservando a missão da instituição”. Além disso, ele também ressaltou que tem trabalhado “de forma harmônica e construtiva” com o diretor Galípolo desde sua chegada ao BC e desejou “muito sucesso” na nova fase da vida profissional de Galípolo.
Fonte: Valor Econômico
