Já nos últimos dias, uma série de riscos começou a entrar no radar dos agentes financeiros, no momento em que os mercados já davam alguns sinais de esgotamento.
O contexto político, de melhora da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de desorganização da oposição, ajudou a pesar no sentimento dos agentes. A isso se somam os riscos fiscais — sempre presentes — e as discussões sobre o novo programa de crédito imobiliário e até mesmo as distorções nos mercado de crédito, que, com as discussões sobre a MP 1.303, se tornaram protagonistas.
Com novidades nada positivas para os agentes e em um momento no qual o posicionamento técnico já estava bastante carregado, uma realização de lucros já seria natural. O Ibovespa, em particular, começou este movimento antes dos outros ativos e até foi acompanhado por alguma alta dos juros de longo prazo. O real ficou parado — até agora.
No câmbio, o movimento foi bem aos poucos. O dólar se afastou da mínima de R$ 5,30 de forma bastante paulatina e, na manhã desta sexta-feira, “rasgou” e chegou a superar R$ 5,50 com alguma facilidade.
Em conversas em condição de anonimato com participantes do mercado de importantes bancos e gestoras da Faria Lima, o movimento foi visto com espanto por ter se dado “de uma vez” e sem um gatilho claro para uma desvalorização da magnitude como a de hoje. Até porque os riscos domésticos, que afetaram os outros ativos brasileiros nos últimos dias, tiveram efeito bastante limitado no câmbio.
Um ponto a ser feito é o de que boa parte do movimento de valorização do real se deve aos estrangeiros, cuja posição comprada em dólar frente à moeda brasileira estava no menor nível em dois anos no início da semana nos mercados de derivativos. Além disso, em entrevistas recentes feitas com XP e Barclays, o Valor mostrou que o câmbio era o “cavalo” preferido dos investidores estrangeiros para expressar o otimismo com o Brasil, até porque o momento global era de dólar fraco.
No entanto, a sombra da possibilidade de uma crise de crédito já assustou. Não à toa o CDS (Credit Default Swap, espécie de seguro contra calote) do Brasil subiu forte e contaminou o movimento do câmbio. Na medida em que casos recentes de problemas no mercado de crédito se avolumam — BraskemCotação de Braskem, AmbiparCotação de Ambipar e, agora, Raízen —, o investidor tomou um susto. Nas tesourarias, pouco depois das 10h, já havia sinais de alerta sobre um desmonte forçado de posições otimistas com real diante do “sell-off” dos bonds da Raízen.
“Não acho que já estamos em uma crise de crédito, até porque as empresas não têm mais o mesmo nível de alavancagem da época da [ex-presidente] Dilma [Rousseff], por exemplo… Mas são casos pontuais que estão se acumulando e isso pode ser o ‘trigger’ [gatilho] para um movimento mais forte”, diz um gestor.
A este movimento se soma, justamente, o contexto dos últimos dias. E, com o dólar disparando e acionando “stops”, o que ajudou a “sujar” o mercado e a contaminar os preços, o humor no câmbio “azedou” de vez, ainda mais com o mercado vendo cada vez mais distante, aos olhos de hoje, a possibilidade de uma mudança na condução da política econômica a partir de 2027.
Trump, ao ameaçar a China, piorou ainda mais o sentimento e impediu a possibilidade de alguma melhora do câmbio e dos outros ativos domésticos. Ao longo da última semana, a perspectiva de dólar globalmente mais desvalorizado já havia sido questionada, com o índice DXY em recuperação e com moedas de mercados desenvolvidos mais pressionadas — em especial iene e euro. Até então, porém, o efeito parecia limitado nas moedas de mercados emergentes. Hoje isso caiu por terra.
Resta saber se possíveis cortes de juros nos Estados Unidos vão se concretizar e isso irá manter o ambiente externo favorável aos emergentes. De todo modo, os riscos domésticos — políticos, fiscais e de crédito — tendem a fazer cada vez mais barulho nos mercados daqui em diante.
Fonte: Valor Econômico

