A inflação registrou em agosto o primeiro resultado negativo do ano, se afastou do intervalo superior da meta e possivelmente tira alguma pressão do ciclo de altas da Selic que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve iniciar na semana que vem. Ainda assim, os números mostram que o cenário para a condução da taxa básica de juros pelo Banco Central (BC) segue desafiador.
Conforme divulgado hoje mais cedo pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou 0,02% em agosto. Foi o primeiro resultado negativo em quase dois anos e ficou abaixo das estimativas tanto do mercado (alta de 0,01%, segundo o Valor Data) quanto do BC (alta de 0,07%, segundo a edição mais recente do Relatório de Inflação). Mais importante, no acumulado de 12 meses o indicador recuou de 4,5%, exatamente o intervalo superior da meta a ser perseguida, para 4,24%, entre agosto e setembro. Após a divulgação dos resultados, as taxas de juros futuros caíram, com operadores prevendo menor possibilidade de alta de 0,5 ponto percentual e maior de aumento de 0,25 ponto da Selic na semana que vem.
Uma das boas notícias foi o ligeiro recuo da média dos cinco núcleos do IPCA acompanhados pelo BC, que passou de 3,83% para 3,8%, nos cálculos da MCM Consultores. Os núcleos são medidas de inflação que excluem do cálculo itens com preços mais voláteis e que, por isso, têm maior aderência à política monetária e à atividade econômica.
Também houve, ao que tudo indica, menor pressão nos preços dos serviços subjacentes — medidas que também têm maior aderência à política monetária e à atividade. A equipe econômica do Itaú calcula que a média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada caiu de 6,2% para 5,6%.
Mas o IPCA também trouxe uma série de notícias ruins. O índice de difusão, que mede a quantidade de itens cujos preços subiram no mês, variou de 46,9% para 56%. No cálculo que exclui alimentos, que também têm preços mais voláteis, o indicador passou de 53,1% para 61,7%.
A equipe econômica do Itaú destaca que os preços de serviços subjacentes, justamente uma das fontes de boas notícias em agosto, deve ter “alguma pressão” nos próximos meses e terminar o ano com “alta próxima de 5,5%”.
Como afirmou o IBGE hoje, o bom desempenho do mercado de trabalho e da atividade econômica como um todo são fatores que podem “influenciar o comportamento dos preços de serviços”.
Apenas para ficar nas notícias mais recentes, na semana passada o IBGE divulgou que o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo semestre cresceu 1,4% na comparação com os três meses anteriores, acima da projeção mediana de 0,9% de economistas de instituições financeiras, gestoras e consultorias colhidas pelo Valor Data.
Como indica o questionário pré-Copom divulgado na semana passada, o nível de ociosidade da economia, diretamente influenciado por PIB e mercado de trabalho, e os seus impactos sobre a inflação aparentemente voltaram com mais força ao radar do BC. No documento, o colegiado pergunta para os economistas do setor privado quais as projeções deles para o hiato do produto (medida de ociosidade da economia), questionamento que não estava presente no questionário de junho.
O Banco ABC Brasil também afirma que, em prazos mais longos, os núcleos de uma forma geral “corroboram o cenário de perda de folego na desinflação doméstica”. Nos cálculos do Bradesco, “os núcleos estão rodando próximos de 4,5% na variação de três meses anualizada”, patamar aproximadamente “1 ponto percentual maior do que a verificada no segundo trimestre do ano”. Há ainda as incertezas sobre os impactos que a seca terá sobre preços como os de alimentos no Brasil.
Para conduzir a Selic, atualmente em 10,5% ao ano, o Copom mira o primeiro trimestre de 2024, para o qual calcula inflação de 3,4% em um cenário de referência e 3,2% em um cenário alternativo. Em ambos os casos, na definição do próprio BC, o patamar está “acima” da meta de 3%.
Pelo menos desde o primeiro trimestre do ano passado, o Copom vem alertando, tanto em suas comunicações oficiais quanto em manifestações de seus integrantes, para as dificuldades do “segundo estágio” do trabalho pós-pandemia de levar a inflação para a meta. Ontem, a projeção mediana do mercado para a Selic, segundo o Boletim Focus, passou de 10,5% para 11,25% no fim deste ano e de 10% para 10,25% no fim do ano que vem.
Será mais uma vez em um cenário desafiador que o colegiado se reunirá na terça e na quarta-feira da semana que vem para decidir sobre a taxa básica de juros. Tudo isso em contraste com a reunião do Federal Reserve, o Fed, o banco central americano. Na terça e na quarta-feira, o Fed se reunirá para dar início a um ciclo de cortes da sua taxa de referência, que está há pouco mais de um ano entre 5,25% e 5,5% — o maior patamar em mais de duas décadas.
Sede do Banco Central em Brasília — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo
Fonte: Valor Econômico

