Por Greg Ip, Em Dow Jones — Nova York
25/04/2024 17h29 Atualizado há 12 horas
Se você quiser um único número que capture o tamanho da economia dos EUA, aqui está ele: neste ano, os EUA representarão 26,3% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, a maior proporção em quase 20 anos.
O cálculo se baseia nas projeções recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI). A participação da Europa no PIB global caiu 1,4 ponto percentual desde 2018, e a do Japão, 2,1 pontos. Em contraste, a participação dos EUA aumentou 2,3 pontos.
A fatia da China também aumentou desde 2018. No entanto, em vez de ultrapassar os EUA como a maior economia do mundo, a economia chinesa diminuiu para 64% do tamanho dos EUA, abaixo dos 67% em 2018.
Em outras palavras, apesar das guerras comerciais, da pandemia, da inflação e das divisões sociais, os EUA vêm ganhando terreno em relação a seus pares econômicos com base nessa métrica, reconhecidamente simples.
Uma ressalva: esses números se baseiam nos preços e taxas de câmbio atuais. Pelo critério da paridade do poder de compra, que ajusta os diferentes níveis de preços entre os países, a participação dos EUA no PIB mundial seria menor e a dos grandes emergentes, como China e Índia, muito maior.
Mas você não paga petróleo, iPhones ou munições de artilharia pela paridade do poder de compra. Os preços e taxas de câmbio atuais capturam melhor o poder econômico relativo de um país. Além disso, as moedas são indicadores da força econômica, e os EUA têm superado seus pares mesmo após ajustes para inflação e taxas de câmbio.
O crescimento econômico real dos EUA tem sido muito maior que o do Japão ou da Europa nos últimos dois anos. A China cresceu mais, mas há motivos para suspeitar que seus dados superestimem a realidade.
Os salários nos EUA (ajustados pela inflação) estão próximos ao nível anterior à pandemia, enquanto em outras economias avançadas estão mais baixos, segundo o FMI.
Isso não quer dizer que os americanos deveriam sentir certa satisfação com salários reais estagnados ou alta inflação só porque as pessoas em outros lugares estão ainda piores.
Mesmo assim, vale a pena estudar os motivos pelos quais os EUA vêm tendo desempenho acima da média. Em resumo, há uma razão encorajadora e uma preocupante.
A encorajadora é que, estruturalmente, os EUA continuam a inovar e a colher as recompensas disso, a julgar pelas ações das gigantes tecnológicas e pela adoção da inteligência artificial. Os EUA têm se mostrado melhores em aumentar a produtividade (produção por trabalhador).
Também têm se beneficiado do que os economistas chamam de termos internacionais de troca: o preço do que exportam, em especial o gás natural, subiu mais do que o preço do que importam. Na Europa, ocorreu o contrário.
A razão preocupante para o crescimento mais forte nos EUA é o endividamento do governo — o que inclui as captações para o corte de impostos de 2018 do ex-presidente Donald Trump, os fundos bipartidários de ajuda contra a covid-19 em 2020 e o estímulo de 2021 do presidente Joe Biden.
Na verdade, Washington continua a injetar estímulos, embora não com esse rótulo: centenas de bilhões de dólares em benefícios para veteranos de guerra, a infraestrutura, a fabricação de semicondutores e a energia renovável.
Os déficits dos EUA estão em cerca de 2% do PIB acima do que o FMI previa no fim de 2022. No futuro previsível, serão os maiores, de longe, entre as principais economias avançadas.
A longo prazo, os déficits inflam as futuras contas de juros a pagar e diminuem o investimento privado. Mas eles já podem estar levando a perigosos desequilíbrios neste momento.
Os déficits se justificavam quando o desemprego estava alto, a demanda privada, anêmica e a inflação e as taxas de juros, baixas. Nada disso é verdade agora.
Em vez disso, Biden e o Congresso continuam a estimular a demanda em uma economia onde há excesso dela. Até fevereiro, Biden cancelou US$ 138 bilhões em dívidas estudantis — e acabou de divulgar planos para cancelar alguns bilhões a mais — o que aumenta diretamente o poder de compra dos devedores. Dos US$ 95 bilhões em ajuda para Ucrânia, Taiwan e Israel aprovados pelo Congresso, US$ 57 bilhões retornarão a produtores dos EUA na forma de mais compras de armas.
Essa é uma razão pela qual a inflação, embora menor do que há um ano, está incrustrada acima da meta de 2% do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). O FMI estima que o núcleo da inflação (que exclui alimentos e energia) está 0,5 ponto percentual mais alto do que seria de outra forma, em razão da política fiscal.
Isso, por sua vez, impede o Fed de reduzir os juros de curto prazo. E isso, combinado com a enxurrada de títulos de dívida do Tesouro para financiar o déficit, vêm elevando os rendimentos dos bônus de longo prazo.
Os manuais indicam que uma combinação de política monetária contracionista e política fiscal expansionista atrairá capital externo e valorizará o dólar. Isso costuma precipitar crises financeiras em países emergentes, com desvalorização das taxas de câmbio, calotes de governos e quebras de bancos.
O dólar de fato valorizou-se neste ano. Isso não enfraqueceu os países emergentes, que em termos gerais estão em melhor forma do que em crises anteriores, embora o risco mereça ser observado. No entanto, pode desestabilizar a economia internacional de outra forma: por meio do protecionismo.
Em 1971, o alto nível da inflação e dos déficits governamentais resultaram em um dólar sobrevalorizado e em déficits comerciais. Depois de o governo Nixon impor uma sobretaxa de 10% sobre as importações, a Alemanha Ocidental e o Japão aceitaram rever o valor de suas moedas em relação ao dólar.
Em 1985, o roteiro se repetiu: o alto nível dos juros e dos déficits orçamentários haviam elevado o dólar e o déficit comercial. Em setembro daquele ano, no Plaza Hotel de Nova York, o governo Reagan persuadiu autoridades japonesas e europeias a fortalecerem suas moedas em relação ao dólar. Isso foi seguido por ações no comércio exterior contra o Japão, especialmente nos setores de automóveis e semicondutores.
Desta vez, o dólar não subiu tanto como em 1985, mas atritos parecidos vêm surgindo. O governo Biden tem o grande desejo de impulsionar a indústria americana, em particular a de veículos elétricos, e observa consternado como China, ajudada por um yuan mais fraco, inunda o mundo com exportações baratas. O déficit comercial dos EUA, depois de encolher durante a maior parte de 2023, voltou a crescer.
A solução macroeconômica seria os EUA estimularem menos sua economia e a China estimular mais a sua. Nem uma coisa nem outra parecem prováveis. E, ao contrário de 1971 e 1985, quando a Alemanha Ocidental e o Japão se sentiram forçados a valorizar suas moedas para apaziguar os EUA — seu aliado e protetor —, a China não sente tal obrigação.
O resultado provavelmente será mais pressão protecionista. Biden já planeja tarifas mais altas sobre as importações da China. Se Trump retornar à Casa Branca, não espere ações para suavizar o déficit e, caso seu primeiro mandato seja um indicativo, pode esperar mais tarifas e esforços para enfraquecer o dólar.
A economia dos EUA ainda pode ser a rainha, mas o reinado não será harmonioso.
Fonte: Valor Econômico

