Por Gideon Rachman, Valor — Financial Times
20/03/2023 16h26 Atualizado há 11 horas
“A situação internacional chegou, agora, a um ponto de inflexão. Há dois ventos no mundo hoje, o vento do Oriente e o vento do Ocidente […] Acredito que o vento do Oriente está prevalecendo sobre o vento do Ocidente.” Esses comentários podiam ser uma cópia antecipada das declarações que Xi Jinping pretende fazer nesta semana durante sua visita a Moscou. Na verdade, são declarações de um discurso feito por outro líder chinês, Mao Tsé-tung, durante visita a Moscou em 1957.
Xi, na mesma linha de Mao, costuma dizer: “O Oriente está em ascensão e o Ocidente, em queda”. Da mesma forma que Mao e Vladimir Putin, o líder chinês também acredita ser do interesse comum da Rússia e da China acelerar o declínio do poder ocidental. Há duas semanas, Xi acusou os EUA de empreenderem uma política de “contenção, cerco e supressão” contra a China.
O encontro de agora dos líderes da Rússia e da China, mais uma vez, ocorre em meio a um pano de fundo de temor de guerra nuclear. Em 1957, Mao pediu à audiência em Moscou a pensar no lado positivo de um conflito nuclear: “Se o pior acontecer e metade da humanidade morrer, a outra metade sobreviverá enquanto o imperialismo será devastado, e o mundo inteiro se tornará socialista”. Até para sua audiência soviética, foi uma declaração forte demais.
Em contraste, o presidente Xi se apresentará em Moscou como um homem de paz. Chegará reluzindo o brilho de uma conquista diplomática real — uma reaproximação entre Irã e Arábia Saudita, mediada por Pequim. A China já apresentou um plano de paz de 12 pontos para resolver a guerra na Ucrânia. É possível que, em Moscou, Xi proponha um cessar-fogo imediato. Após a reunião de cúpula com Vladimir Putin, o líder chinês provavelmente ligará para o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.
Zelensky, sem dúvida, atenderá à ligação. Xi tem enorme influência sobre Putin; caso opte por exercê-la.
Ceticismo do Ocidente
Mas Zelensky e a coalizão ocidental que apoia a Ucrânia também estarão devidamente céticos quanto às propostas de paz da China. Na realidade, é muito improvável que Xi esteja disposto, ou mesmo que seja capaz, de intermediar o fim da guerra na Ucrânia.
Ao contrário da Arábia Saudita e do Irã, a China não estará fazendo uma mediação entre duas partes preparadas para chegar a um acordo. Pequim tampouco é um jogador neutro no conflito. Embora a China tenha se abstido nas votações das Nações Unidas (ONU) que condenavam a invasão da Ucrânia pela Rússia, sempre descreveu o conflito com a terminologia russa. O ministro das Relações Exteriores da China, Qin Gang, elogiou recentemente o relacionamento entre Rússia e China como uma “força motora” nos assuntos mundiais. Também deve-se dar como certo que os chineses desconsiderarão a acusação de Putin feita pelo Tribunal Penal Internacional (TPI).
O atual “plano de paz” chinês nada diz sobre a retirada russa de território ucraniano ocupado. Se um cessar-fogo for proposto por Xi, os russos podem tranquilamente fingir entusiasmo — sabendo que a Ucrânia a rejeitará enquanto suas terras estiverem ocupadas. Mesmo que declare um cessar-fogo, a Rússia sempre poderia violá-lo — como fez no passado.
Ainda assim, para Xi é proveitoso apresentar a China como um pacificador pragmático — interessado, acima de tudo, no comércio e na prosperidade comum. Os EUA, por outro lado, são retratados pela China como um instigador da guerra ideológica, que divide o mundo em amigos e inimigos — e está empenhado em preservar sua própria hegemonia. Essa narrativa ajuda a China na batalha pela opinião do “sul global” — e ela preocupa os americanos.
Mas por trás da retórica de paz, a cúpula de Xi-Putin vai pressionar na direção oposta — pois incluirá o aumento do apoio chinês à Rússia, que trava uma guerra de agressão. Alexander Gabuev, um dos principais especialistas da Rússia em China, hoje no exílio, comenta: “Não se engane, a viagem será sobre o aprofundamento dos laços com a Rússia, a benefício de Pequim, não sobre qualquer real mediação de paz”.
Petróleo, gás & chips
A grande questão será que tipo de laços Xi vê como benéficos para a China. A parte econômica está fácil. À medida que o Ocidente se afasta das fontes de energia russa, a China pode comprar petróleo e gás a preços mais baixos. É provável que Putin e Xi concordem em acelerar o trabalho de construção de outro gasoduto entre seus países. Abastecer a Rússia de bens que o país não tem mais como comprar no Ocidente, em especial chips, também seria uma jogada lucrativa para Pequim — apesar de que algumas empresas chinesas ficarão cautelosas para não cair nas sanções ocidentais. O líder russo e o chinês também devem dar continuidade aos esforços para promover alternativas ao dólar como moeda global.
A questão realmente delicada é a solicitação de armamentos chineses por Putin — em particular mísseis e projéteis de artilharia, para compensar os problemas de escassez que debilitam o esforço de guerra russo. Os EUA advertiram em fevereiro que a China estudava o assunto. O que quer que Putin e Xi venham a concordar, isso provavelmente permanecerá um segredo bem guardado.
Quaisquer tensões entre Rússia e China também não ficarão à vista. Alguns estrategistas americanos nutrem a esperança de, algum dia, conseguirem orquestrar um segundo rompimento entre Moscou e Pequim — como o que levou à reaproximação entre EUA e China nos anos 70. Mas isso, hoje, parece ainda mais distante no horizonte do que o êxito da iniciativa de paz chinesa sobre a Ucrânia.
As fotos de Xi e Putin em Moscou dão um recado claro. A Rússia e a China continuam parceiros próximos — unidos por sua hostilidade comum aos EUA e aliados.
Fonte: Valor Econômico
