A economia mundial, contudo, terá várias batalhas pela frente neste novo ano, desde eleições cruciais até a dívida soberana crescente
Por Financial Times
01/01/2024 14h57 Atualizado há 2 dias
A felicidade, segundo alguns psicólogos, é resultado de quando a realidade supera as expectativas. Se for isso, 2023 foi um ano bastante feliz — pelo menos para os economistas. O Índice de Surpresa Econômica Global do Citi mostra que as projeções deste ano foram superadas pelos resultados concretos de forma sistemática. As tendências econômicas que têm fundamentado essa realidade também oferecem muitas razões para otimismo em relação a 2024.
Em primeiro lugar, a economia internacional mostrou uma resiliência notável. Desde 2020, resistiu a uma pandemia, a uma guerra na Europa e ao caos nas cadeias de fornecimento — fatores que em conjunto levaram à inflação mais alta e ao ciclo de elevação das taxas de juro mais agressivo em muitas décadas. Mas as economias se adaptaram de maneira melhor do que a esperada, e isso continuou a ocorrer em 2023. No terceiro trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) mundial superou em mais de 9% os níveis anteriores à pandemia, de acordo com o agregado global da Fitch Ratings. As empresas reorganizaram sua logística, a Europa reduziu ainda mais sua dependência do gás russo e o juro elevado não fez saltar o desemprego. Essa resistência fornece uma base sólida para o novo ano.
Em segundo lugar, o flagelo da inflação está se moderando rapidamente. No último ano, o crescimento dos preços mundiais foi de 8,9% e a previsão é de que caia para 5,1% até o fim de 2024. A inflação dos preços dos alimentos — desde trigo até óleo de cozinha — despencou e a disparada dos preços da energia tem se revertido de forma gradual. A concatenação de choques nas cadeias de fornecimento durante o período da pandemia também se atenuou. A inflação no setor de serviços persiste, mas isso se deve à robustez dos mercados de empregos e ao rápido crescimento dos salários.
Em terceiro lugar, os temores a respeito de um ciclo de política monetária do tipo em que as taxas de juro se mantêm no nível mais elevado por mais tempo já começaram a diminuir. No cenário atual, os principais bancos centrais podem baixar as taxas em 2024 mais cedo do que o previsto. Isso seria um alívio para muitas famílias e empresas. E, embora três bancos regionais dos Estados Unidos e o Credit Suisse tenham naufragado em março, as consequências das taxas mais elevadas foram contidas. Na verdade, este ciclo de taxas foi útil para expôr fraquezas, desde empresas zumbis até bancos com capitalização insuficiente.
Os mercados financeiros prosperam. Em dezembro, os principais índices de Wall Street ficaram perto de altas históricas, ou mesmo as superaram. Até os bônus encerraram o ano com força. E a probabilidade de um pouso suave para a economia dos EUA em 2024 – em que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) consegue manter a inflação sob controle sem causar uma recessão — cresceu.
Nem todas as economias devem ter um bom desempenho. A atividade econômica enfraqueceu no Reino Unido e na Alemanha. A recuperação da China depois da pandemia decepcionou. Mas outros países se mostram promissores. A Índia, o México e o Vietnã se beneficiam de mudanças nos padrões comerciais e os investidores estão muito interessados em aumentar sua exposição a esses países em 2024. A gestão econômica prudente também está de volta em alguns lugares. A classificação de risco da dívida pública da Grécia retornou ao status de grau de investimento depois de um hiato de uma década. Na Turquia e na Argentina algumas abordagens pouco ortodoxas foram refreadas. Os bancos centrais de muitos países em desenvolvimento também agiram de maneira agressiva para manter a inflação sob controle.
Por último, 2023 ficou longe de ser um ano tedioso para a tecnologia que alguns esperavam. O ChatGPT tornou-se o aplicativo de crescimento mais rápido de todos os tempos, e o alvoroço sobre a inteligência artificial generativa ajudou a impulsionar o mercado de ações. A adoção da IA generativa por empresas em 2024 pode ajudar a sustentar o crescimento da produtividade, que deu sinais de decolar nos EUA em 2023. Outras inovações recentes também são promissoras. A aprovação das agências reguladoras a medicamentos para perda de peso — como o Wegovy da Novo Nordisk — pode ajudar a reduzir os encargos com serviços de saúde. E o avanço da Toyota nas baterias sólidas pode ser um divisor de águas para o setor dos veículos elétricos.
Um pouco de perspectiva não é desculpa para a complacência. A economia mundial terá várias batalhas pela frente neste novo ano, desde eleições cruciais até a dívida soberana crescente. Mas, depois da demonstração de resiliência em 2023, há uma grande chance de que a realidade de 2024 também seja melhor do que se espera.
Fonte: Valor Econômico