Por Alex Ribeiro, Valor — São Paulo
09/01/2023 10h01 Atualizado há 23 horas
As expectativas de inflação do mercado financeiro voltaram a piorar na semana passada e devem seguir nessa tendência de deterioração, segundo sugerem alguns indicadores antecedentes.
A projeção mediana do mercado para 2024, que nesse começo de ano passa a ser o alvo principal da política monetária, subiu de 3,65% para 3,7%. Está cada vez mais distante da meta estabelecida para o ano, de 3%.
Pelo menos dois indicadores antecedentes apontam piora nas próximas semanas. A média das projeções (soma dos percentuais projetados, dividido pelo número de projeções) passou de 3,75% na semana para 3,8%.
A mediana dos cerca de 50 analistas que informaram suas projeções nos últimos cinco dias úteis oscilou de 3,71% a 3,84% durante a semana passada. Ou seja, em geral, os analistas que reviram mais recentemente as suas projeções citam percentuais mais altos.
Com as novas rodadas de deterioração desde o segundo turno das eleições, as previsões de inflação do mercado estão ficando cada vez mais distantes do percentual de 3% projetado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
A projeção do BC soa excessivamente otimista, comparada com o consenso de mercado, caso se considere que a autoridade monetária pressupõe que os cortes de impostos sobre combustíveis serão revertidos neste ano. O mercado aposta, majoritariamente, na sua manutenção.
Desde meados do ano passado os analistas do mercado já vinham expressando certa descrença de que o Banco Central vai de fato cumprir a meta de 2024. Contribuiu para tanto o alongamento prematuro do horizonte de política monetária, que passou a dar peso maior a 2024, em vez de focar em 2023.
As coisas pioraram com as medidas de expansão fiscal adotadas pelo governo Jair Bolsonaro durante as eleições e, mais recentemente, com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e a tramitação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que ampliou o nível de gastos neste ano.
O ano-calendário de 2024 está inteiramente no alcance das decisões de política monetária e, em tese, o Banco Central teria como manipular a taxa de juros para cumprir a meta. O Copom vem dizendo que vai manter os juros altos por período de tempo suficientemente prolongado e, se isso não for suficiente, vai retomar o ciclo de aperto monetário.
Por enquanto, o mercado aposta que o Banco Central vai apenas retardar o ciclo de distensão monetária. O primeiro corte da taxa básica, que hoje está em 13,75% ao ano, foi adiado de junho para setembro, nas projeções de mercado.
De certa forma, a piora das expectativas de inflação reflete a visão de economistas de mercado de que, mesmo que o Banco Central tome as medidas necessárias para controlar a inflação, não conseguirá cumprir rigorosamente as metas.
As expectativas de longo prazo também estão se desancorando. Nesta semana, a mediana para 2025 subiu de 3,25% para 3,3%. Para 2026, passou de 3,15% para 3,2%. É muito difícil um banco central, sozinho, controlar a inflação se não houver uma coordenação mínima das políticas monetária e fiscal.
Fonte: Valor Econômico

