Um dos mais importantes conjuntos de informações para a decisão sobre a taxa Selic, as expectativas de inflação do mercado financeiro voltaram a se deteriorar, às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
Um outro relatório divulgado pelo Banco Central nesta manhã, a distribuição das projeções dos economistas do setor privado, mostra que as expectativas de inflação para os anos subsequentes estão pendendo mais para o lado negativo.
Os especialistas também estão revendo para cima a sua expectativa para os juros para prazos mais longos, numa aposta de que o Banco Central terá que manter juros mais altos até 2027.
Desde a última reunião do Copom, ocorrida em março, as expectativas de inflação para 2025 subiram de 3,5% para 3,64%, em virtude da revisão pelo mercado das perspectivas de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e do aumento das incertezas fiscais, depois que o governo mudou as metas de superávit primário dos próximos anos.
Também há uma certa descrença de que o Banco Central vá conseguir colocar a inflação na meta, diante do crescimento mais forte da economia e evidências crescentes de que o mercado de trabalho está superaquecido.
Em tese, o cumprimento da meta de inflação de 2025, definida em 3%, deveria estar inteiramente ao alcance do BC, já que o horizonte relevante da política monetária vai incluir exclusivamente esse ano nas duas próximas reuniões do Copom, uma que ocorre nesta semana e outra em junho.
O mais preocupante, porém, é que surgiram os primeiros sinais de que as expectativas de inflação para 2026 e anos seguintes podem aprofundar a sua desancorarem. Hoje, a projeção do mercado é uma inflação de 3,5% para esses anos, acima da meta, estabelecida também em 3%.
A projeção mediana (a que está mais ao centro entre as projeções) segue em 3,5%, mas a média das projeções de mercado (soma dos valores projetados dividida pelo número de projeções) está subindo. Para 2026, passou de 3,51% para 3,56% desde a reunião de março do Copom. Para 2027, de 3,5% para 3,52%.
O percentual de analistas que acham que a inflação de 2026 vai ficar na faixa de 3,76% a 4,1% subiu de 15,8% para 19,2%, na comparação do fim de março com o fim de abril. Aqueles que acham que a inflação de 2027 vai ficar entre 3,62% e 4,04% subiram de 20,9% para 23,4% no mesmo período.
Esses primeiros sinais de desancoragem da expectativa de inflação de longo prazo preocupam porque, nesse horizonte, os índices de preços estão livres dos choques de curto prazo, como aumento de preços de combustíveis. Até 2026 e 2027, há tempo de sobra para corrigir desequilíbrios de curto prazo de oferta e demanda da economia.
Na essência, eles são um termômetro sobre a credibilidade do Banco Central. O controle da inflação nos anos de 2026 e 2027 deverá ser feito predominantemente pelo presidente do Banco Central que será indicado pelo governo Lula para substituir, na virada deste ano, o atual titular do cargo, Roberto Campos Neto.
O mercado também está apostando que o BC vai ter que operar com juros mais altos. A mediana das projeções dos analistas para a taxa Selic ao fim de 2024 subiu de 9% para 9,63% nas últimas quatro semanas.
Em fins de março, 44,7% dos analistas achavam que a Selic poderia ficar em 8,75% ou 9%. Agora, esse percentual é de apenas 16,1%. Já a proporção dos analisas que acham que o juro vai ficar em 9,75% ou 10% subiu de 5% para 42,7%.
A mediana das projeções para os juros em fins de 2026 subiu de 8,5% para 9% nas últimas quatro semanas. Também houve alta na projeção de juros para o fim de 2027, de 8,5% para 8,75%. É possível que esteja ocorrendo uma revisão para cima nas estimativas do mercado para a chamada taxa neutra de juros na economia.
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fonte: valor econômico
