O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central vê condições para uma eventual aceleração no ritmo de baixa de juros na sua próxima reunião para 0,5 ponto percentual, caso o choque do petróleo causado pela guerra no Oriente Médio não atrapalhe.
Para esta reunião, de março, o Copom optou pela maior prudência, com uma baixa de 0,25 ponto percentual, para 15% ao ano. Mas disse que enxerga “condições para que ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis”.
Não parece se tratar de promessa para a próxima reunião, mas o recado não é vazio: o Banco Central procura manter viva entre os participantes do mercado financeiro a aposta de que o ciclo de baixa na taxa Selic possa se acelerar no fim de abril, quando o comitê volta a se reunir.
A retórica do comitê segue a mesma. Depois de colocar os juros em 15% ao ano, maior percentual em cerca de duas décadas, e de mantê-los altos por um período prolongado, já se veem sinais mais claros de transmissão para a economia.
O comunicado do Copom diz, de forma mais genérica, que a atividade seguiu mostrando trajetória de “moderação no crescimento” e, de forma mais específica, registra que “os indicadores do final de 2025 mostraram desaceleração”. Provavelmente, está se referindo aos dados do Produto Interno Bruto (PIB), que avançou apenas 0,1% no quarto trimestre do ano passado.
A retórica do Banco Central também tem sido a de que está fazendo uma “calibração” dos juros, ou seja, está baixando a Selic de maneira cautelosa, mas vai mantê-la contracionista para fazer a inflação chegar à meta no terceiro trimestre de 2027.
É dentro dessa moldura mais ampla que o Copom encaixa, no comunicado, o choque causado pela guerra no Oriente Médio, que afeta o preço do petróleo, as cadeias de suprimento (o que parece ser uma referência aos fertilizantes que transitam pelo Estreito de Ormuz) e contribui para aumentar a aversão a riscos.
O Copom registra, no comunicado, como esse novo choque provoca “distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária”.
De fato, houve uma leve piora na projeção do Banco Central para o terceiro trimestre de 2027, de 3,2% para 3,3%. É nesse horizonte que, atualmente, o comitê se propõe a cumprir a meta de inflação, definida em 3%.
Mas tem um detalhe importante: a projeção para a inflação de 2026 sobe bem mais, de 3,4% para 3,9%. Esse efeito vai se dissipando nos trimestres seguintes, o que é esperado num choque temporário.
Nos seus cálculos, o Banco Central usa a metodologia usual, ou seja, a média dos preços dos contratos de petróleo no mercado futuro num prazo de seis meses. No último choque do petróleo, em 2022, na invasão da Ucrânia, o Copom usou um prazo mais longo numa projeção com um cenário alternativo.
Se fizesse o mesmo agora, o impacto do petróleo na projeção de inflação seria menor. Ao manter a metodologia, o Banco Central corre o risco de exagerar a projeção, mas ganha em termos de credibilidade por fazer um cálculo mais conservador.
Não se sabe se o Banco Central ajustou o coeficiente de repasse do choque de petróleo para a inflação. Os efeitos secundários costumam ser menores quando os juros estão altos e a economia está se desacelerando. Sob esse aspecto, hoje a situação é mais favorável para a queda da inflação do que em 2022.
Mais do que as projeções em si, talvez o recado mais importante do Copom é que a incerteza em torno delas “foi elevada consideravelmente”. No balanço de riscos, o comitê já vinha repetindo que as incertezas são maiores do que o usual, mas agora ficou pior.
Nesse ambiente, o caminho que o Copom adota é não fazer nada muito brusco. Daí, provavelmente, a decisão de fazer uma baixa menor, de 0,25 ponto percentual, e dar sinais para o mercado continuar a considerar a hipótese de uma baixa de 0,5 ponto em abril. Tudo isso pode ser resumido em duas palavras do comunicado: “serenidade e cautela”.
O que vai ser feito dependerá do que vai acontecer na guerra do Oriente Médio e de seus desdobramentos. Em coletiva nesta quarta-feira, o presidente do Federal Reserve (Fed) disse que não tinha a menor ideia do que poderia ocorrer – e ninguém poderia esperar que, por aqui, a equipe chefiada por Gabriel Galípolo saiba de alguma coisa.
Os passos futuros, portanto, como está no comunicado, vão depender de informações que “aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”.
Fonte: Valor Econômico
